Lomba fala de reformulação no futebol, resgate de DNA e reforços

O DIA: Não há como garantir que Lucas Paquetá ficará até o final desta temporada, apesar da multa rescisória de 50 milhões de euros (R$ 221 milhões). É possível, no entanto, conquistar as três competições que o Flamengo disputa. Assim, realista e ambicioso, Ricardo Lomba exerce, há nove meses e 18 dias, a vice-presidência de futebol do Flamengo. Após esse período, equivalente a uma gestação, ele vê nascer um clube que integra melhor as divisões de base e o time profissional. Para o dirigente, o embrião do sucesso. Paternal, mas sem deixar de cobrar, compara o trato com os jogadores e o amor que tem pelo Rubro-Negro à relação que estabelece com suas filhas. Uma confiança que se desenvolveu principalmente depois da eliminação do Carioca, quando chamou o elenco para uma conversa franca. E que levou o time à liderança do Brasileiro, às quartas de final da Copa do Brasil e às oitavas da Libertadores

Ricardo Lomba, do Flamengo - Foto: Alexandre Brum / Agencia O Dia
Nove meses de trabalho. O tempo de uma gestação. O que está nascendo deste trabalho?

Eu vejo um ambiente muito bacana. A minha chegada no futebol vem, em sequência, acompanhada de uma reformulação lá no departamento, um aproveitamento muito grande de jogadores da base, de profissionais da base que subiram. E a gente aproveita para enaltecer o trabalho que vem sendo feito na base do Flamengo. Alguns jogos, terminamos com cinco ou seis jogadores da base nesse Brasileiro. Isso mostra que o trabalho que vem sendo feito merece aplausos. Mas acho que é isso. Como sempre, você chega devagar, procurando entender como a coisa funciona, como são feitos os processos. Na medida que você se assenhora um pouco da situação, começa a fazer algumas transformações que você vislumbra como oportunas naquele momento para trilhar um caminho legal. Eu acho que a gente tem feito isso de uma maneira legal. O ambiente está muito bom, a gente conseguiu ter um trabalho mais calmo, a torcida compreendeu, o time vem correspondendo e os jogadores apresentando resultados interessantes. Liderança do Brasileiro, Libertadores, classificado, Copa do Brasil...Enfim, acho que foi isso. É tentar entender, como muita calma, muita conversa e muito diálogo, ajustar o que a gente entendia que precisava ser ajustado.

Após a eliminação do Carioca, vieram mudanças como a demissão do Carpegiani e do Rodrigo Caetano. Ali foi um divisor de águas?

Foi um momento complicado que a gente passou. Um momento de virada realmente. Alguns projetos já haviam sido definidos, mas não tinham sido colocados em prática. Outros, a gente achou por bem, viu como necessários para uma mudança de rumo. Mas acho que reverberaram muito isso de (ser preciso) uma cobrança excessiva. Cobrança a gente sempre teve lá dentro. Jogadores se cobram, todos nós dentro do departamento de futebol nos cobramos. Eu acho que o mais importante foi uma conversa franca que tivemos para buscar, e não é buscando culpados ou cortando cabeças, mas entender o que está acontecendo. Por que a gente não está conseguindo apresentar um futebol que vocês jogadores, qualificados como são, podem apresentar? Foi um papo franco, olho no olho, papo muito tranquilo, todo o departamento de futebol participou, e acho que a gente conseguiu, depois dessa turbulência, com tranquilidade, fazer uns ajustes, e a coisa parece ter tomado um rumo bem melhor.

Qual foi a conclusão desse papo e o que mudou para a coisa começar a funcionar?

Eu, opinião pessoal, acho que ali a gente estabeleceu uma relação de confiança maior. Eu acho que os jogadores viram em mim um camarada que estava ali querendo contribuir, querendo ajudar. Falo com eles olho no olho, não tem nenhum tipo de papo torto, a conversa é aberta, direta. A partir dali, se estabeleceu uma relação de confiança maior. Talvez eles tenham acreditado realmente naquilo tudo, porque são excelentes jogadores, um grupo muito bom, qualificado. Sempre defendemos isso. O pessoal cobrava muito: 'ah, jogadores não treinam.' Eu, sempre que pude, que fui questionado, repeli esse tipo de coisa. Os jogadores sempre se empenharam demais, treinaram demais, mas acho que estava faltando aquela freada de arrumação, algum detalhe que culminou, acabou acontecendo depois daquela eliminação para o Botafogo, mas acho que foi fruto de muita conversa e trabalho que a coisa entrou nos eixos.

Quando você assumiu, traçaram seu perfil como conciliador. Houve alguma mudança para os resultados melhorarem em campo?

A comparação que eu faço da minha relação com os jogadores, com os profissionais que trabalham no departamento de futebol, é a relação que eu tenho com as minhas filhas. Amo de paixão as minhas filhas, assim como eu amo o Flamengo. Faço de tudo pelas minhas filhas, como faço de tudo pelo Flamengo, pelos jogadores e pelo departamento do qual hoje sou vice-presidente. Só que eu também cobro obrigações das minhas filhas. Elas, na realidade delas, têm que apresentar resultados. Têm que estudar, serem educadas, aquelas coisas todas. E acho que os jogadores, assim como faço com as minhas filhas, podem e devem ser cobrados, assim como eu devo ser cobrado. O presidente e a própria torcida me cobram muito. Isso não tem a ver com ter perfil mais conciliador ou beligerante. Eu de fato não tenho perfil beligerante, eu tento ser mais conciliador, mas o que não significa que eu não vá cobrar o que precisa ser cobrado. E que também não aceite cobranças. A gente precisa estabelecer, principalmente, uma relação de confiança para que seu interlocutor de fato acredite naquilo que você está falando e entenda a sua proposta. E eu acho que foi isso que a gente conseguiu fazer, com muita franqueza, muita sinceridade. Cobrança sempre vai haver, e que fique bem claro: os próprios jogadores têm um nível de cobrança bem acentuado também. Eles se cobram muito entre eles porque são profissionais e querem ser campeões, querem ser os melhores. O conjunto é esse.

Desse amor que vem a disposição para assumir tanto problema de graça, já que você planeja se candidatar à presidência, outro cargo não remunerado, pela situação?

Todos nós rubro-negros, e eu ouso falar representando toda a nação rubro-negra, queremos ver o Flamengo sempre bem, no topo, sendo o melhor, e se de alguma forma a gente puder contribuir, a gente acaba se envolvendo. Às vezes, até preterindo alguns outros aspectos que são bem relevantes na nossa vida. Mas, enfim, pelo Flamengo a gente faz muitas loucuras. Talvez ter assumido a vice-presidência de futebol tenha sido uma delas, e, agora, sair como candidato à sucessão do governo Eduardo Bandeira de Mello, outra, mas que muito me honra e me orgulha. Uma gestão muito boa que vem apresentando excelentes resultados. A ideia é dar continuidade a isso.

Você é graduado em engenharia elétrica e pós-graduado em direito tributário e finanças públicas. Teve que aprender muito para exercer esse cargo de vice de futebol? Conseguiu trazer alguma coisa da sua área de atuação?

Apesar de ser engenheiro por formação, tenho essa pós-graduação em direito tributário e finanças públicas justamente porque eu sou auditor fiscal da Receita Federal. Fiz essa pós, fiz outra recente em gestão pública, e sempre tive, dentro da minha carreira na Receita, estou lá há 23 anos, cargo de chefia, de gestão. Aí sim, a gente começa a ter uma relação com a minha atuação como vice-presidente de futebol. Uma característica essencial e talvez principal desse cargo é conseguir fazer gestão de pessoas. Isso eu acho que consegui desenvolver, me preparei e consigo aplicar.

Houve alguma mudança-chave que tenha colocado o time no rumo?

O que me salta aos olhos é uma tônica que já houve representação em outras gestões mais lá para trás, em momentos áureos do Flamengo, que é a conexão da base com o profissional. Hoje, a gente tem um aproveitamento de atletas da base no time profissional, temos dois grandes destaques, um que acabou de sair, o Vinicius Júnior, e o (Lucas) Paquetá também liderando aí a fila de jogadores promissores. Essa conexão de jogadores da base com os mais experientes tem dado muita liga, tem apresentado bons resultados. Treinador jovem também, com um auxiliar que veio da base, a turma do departamento de futebol que também veio da base, nosso diretor de futebol hoje (Carlos Noval) ficou muito tempo na base, tem uma carreira vencedora na base. Essa é a grande chave do sucesso. Percebo que a torcida também acha. A gente hoje vai para o Maracanã e joga com 50 mil pessoas toda hora, torcida empurrando o time, empolgada com as atuações.

É um time com mais DNA rubro-negro?

Sem dúvida. E essa molecada vem, desde cedo, enfrentando esses times cariocas, jogando aqui na Gávea com os torcedores, criam uma identificação muito grande e trazem resultado

Depois do cheirinho, surgiu o 'segue o líder'. Essas manias criadas pela torcida atrapalham?

A gente tem que separar. É uma brincadeira que vem da arquibancada. E 99% do que vem da arquibancada são muito bons para os jogadores e para o clube, para o desempenho. Acho um barato isso. Tem que ter permanente análise de quanto isso está influenciando negativamente, justamente para não gerar oba-oba excessivo que possa trazer prejuízo ao desempenho profissional. Mas eu acho o maior barato. É muito legal, a torcida brinca, todo mundo entra. A gente estava na Rússia, passava um rubro-negro e gritava: 'segue o líder.'

Quando você deita a cabeça no travesseiro, entre Brasileiro, Copa do Brasil e Libertadores, qual é o seu sonho de consumo?

A gente, sempre que fala disso, diz que quer ganhar tudo. E para não sair dessa linha, vou falar que quero ganhar tudo. São três campeonatos superimportantes. Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e Libertadores. O que a gente está há mais tempo sem vencer é a Taça Libertadores da América, então, esse é um alvo que a gente não pode abrir mão. Copa do brasil é um campeonato muito interessante, mata-mata, que a gente fica naquela expectativa, e que o Flamengo, no ano passado, por muito pouco não conquistou. Então também não tem como abrir mão. Até porque, este ano, tem uma premiação bem interessante. E o Brasileiro, pontos corridos, a gente pode ter uma estratégia melhor, criar uma gordura e depois poupar algum jogador, então temos que mirar nos três e de fato entrar para ganhar e buscar os três.

Mirar nos três para ver onde acerta ou dá para ganhar tudo?

Mirar os três para ganhar os três. Temos elenco para isso, um departamento futebol e uma comissão técnica preparados, e não estou falando isso para fazer um elogio bobo, sem razão de ser. Claro, mata-mata, um dia você está mal, pode não conseguir apresentar um futebol interessante, tomar um gol bobo, mas temos condições, sim, para disputar os três.

Guerrero tem mais cinco jogos pelo Flamengo até acabar o contrato. É um jogador de 34 anos, com custo alto e com uma pena por doping que não se sabe até quando permanecerá suspensa. Por outro lado, trata-se de um jogador de qualidade e ídolo da torcida. Está em cima da hora. O que fazer?

Em primeiro lugar, a gente acredita piamente na inocência do atleta. Não nos cabe avaliar, julgar ou emitir qualquer tipo de juízo valor em relação à punição aplicada, mas acreditamos piamente na inocência do jogador. Além disso, acreditamos e confiamos demais no atleta do Flamengo, no que ele representa dentro do campo e nas alegrias que ele pode trazer para a torcida. Nesse cenário, queremos ficar com o Guerrero. Você citou uma série de características que podem dificultar essa renovação. Inclusive, ela pode nem iniciar, porque se sai uma decisão que a pena será mantida, ele não tem condição de jogo, o contrato dele acaba dia 10 de agosto, então fica inviável. Mas enfim: acreditamos no atleta, gostamos e queremos renovar. É questão de ajustar prazo e condições, mas temos todo interesse e vamos conversar para tentar renovar.

Como está o entrosamento com o diretor-geral, Bruno Spindel e o diretor de futebol, Carlos Noval, já que o trio está junto há pouco tempo?

Posso dizer, hoje, que são dois amigos queridos, muito competentes. O Noval, com currículo vencedor na base que dispensa comentários. Quando chegou ao profissional, foi muito tranquila a entrada dele em campo, muito bem recebido por todos. Todos já o conheciam. A base e o profissional trabalham muito próximos no Ninho, sempre houve um intercâmbio grande de informações. Ele já chegou, botou a camisa e entrou em campo para jogar. Craque. E o Bruno Spindel, eu também já conheço de outros carnavais. A gente já conversava muito pelos corredores da Gávea. Chegou com muita vontade, muita garra, muito talentoso, fazendo um belo trabalho. Acho que temos tudo para seguir, tal qual no campo, um caminho de sucesso.

Você garante que o Lucas Paquetá fica até o final do ano?

Eu não garanto que ele fica até o final do ano. Ele tem contrato com o Flamengo e a gente espera que ele fique até o fim do contrato (31 de dezembro de 2020). É um jogador que a gente acredita, confia demais, identificado com a torcida, craque de bola.

Por enquanto, nenhuma proposta, apenas sondagens, é isso?

Isso.

A negociação para ter Vitinho esfriou de vez, ou há esperança?

Ainda há esperança, mas temos outros alvos. Não são negociações fáceis.

Após esse período, equivalente a uma gestação, ele vê nascer um clube que integra melhor as divisões de base e o time profissional.

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