Amores impossíveis são eternos

REPÚBLICA PAZ E AMOR: Por Marcos Alvito

Diante dele, a imensidão. Indefinível. Seria inacreditável. Não estivesse o menino pisando a grama daquele campo onde cabiam todos os seus sonhos. Cresceu a admiração pelos deuses de chuteiras, naquele tempo pretas, austeras, recobertas de uma dimensão sagrada, couro a roçar no couro, escrevendo histórias que ele passaria uma vida toda a ouvir, a contar, a imaginar. Histórias herdadas de seu pai, que ali mesmo viu o primeiro tricampeonato do Flamengo sobre nosso mais querido vice quando era um garoto de dezoito anos. Os olhos brilhavam ao falar do gol do argentino Valido que dói neles até hoje. Foi este gramado da Gávea que deu a ele a dimensão do inexplicável, da alegria e da tristeza, novamente na voz paterna a contar, como se fosse uma parábola bíblica, o par trágico composto pela goleada sobre a Espanha, seguida da derrota das derrotas em 1950.

Foto: Divulgação
Depois, a sua primeira ida ao Maracanã para sofrer na carne um 4 a 1, abandonando o estádio e seu time sob protestos, arrastado. Ali, a promessa, para sempre cumprida, de nunca, jamais, deixar de apoiar o Clube de Regatas do Flamengo até o fim, até esse apito final que às vezes é a senha para o carnaval ou o início de um rito fúnebre. No futebol de botão, buscava as emoções que só existiam de verdade nos estádios, quando depois do calvário da bilheteria se podia emergir diante do retângulo verde desenhado de linhas brancas e com seu eterno jeito de enigma: nele tudo pode acontecer. Nem ao dormir dava descanso à bola. Sonhava com a camisa dez, o estádio lotado e o gol decisivo. Noite após noite. Mas logo descobriu que sua paixão pela bola não era correspondida. Amores impossíveis são eternos.

Houve também aquele 6 a 0, devidamente comemorado pelos colegas alvinegros com as brincadeiras habituais, diante das quais ele brandiu um dedo e uma promessa: pagaremos com juros. Como os deuses são bons, foi mais do que recompensado. Houve aqueles que presenciaram a criação da democracia ateniense e do teatro trágico, ou da Revolução Francesa em sua promessa de Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Ele os invejaria, caso não tivesse podido vivenciar, em domingos inesquecíveis, o Flamengo de Zico. Trinta anos depois do desastre, a alma do Maracanã era lavada em alegria pela massa rubro-negra, que retribuía as vitórias com o show da arquibancada.

E ele era um garoto de vinte e poucos anos, livre de preocupações. Exceto uma: Zico joga hoje? Joga sim. Até hoje ele joga nesse campo que nunca termina, o único vasto o suficiente para caber o meu amor pelo Flamengo.

* Marcos Alvito é professor de História e escritor. É autor de “As cores de Acari: uma favela carioca” e “A rainha de chuteiras”.

Até hoje ele joga nesse campo que nunca termina, o único vasto o suficiente para caber o meu amor pelo Flamengo.



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