Entrevista com Marlos Moreno, do Flamengo

GLOBO ESPORTE: Nascido em uma das muitas casas humildes em Manrique Oriental, em Medellín, na Colômbia, Marlos Moreno ainda não pode dizer que teve passagem de sucesso pelo Flamengo. Cresceu nas últimas partidas - foi o melhor em campo contra o Sport, no Maracanã -, mas agora tem a sombra de Vitinho, um reforço de 10 milhões de euros.

Com voz baixa e sorriso tímido, o jogador colombiano ficou pouco menos de 20 minutos falando de sua carreira e de sua vida ao GloboEsporte.com. Em comum a história de muitos brasileiros, a origem humilde e as dificuldades de adaptação fora do país. Achou num livro do líder espiritual Osho palavras de reerguimento e recuperação quando "estava ficando louco", sozinho na Espanha - por onde passou por Girona e Coruña, emprestado pelo Manchester City.

Marlos Moreno em Grêmio x Flamengo - Foto: Gilvan de Souza
Marlos falou de Rueda, contou as frustrações do início de carreira e do carinho que sente pelo Flamengo, pelo Rio e, claro, pela mãe Maria, que de vez em quando sai de Medellín para visitá-lo.

Confira a entrevista exclusiva ao GloboEsporte.com abaixo.

Muita gente te conheceu pelo destaque na Libertadores com o Nacional de Medellín. Como foi sua trajetória até chegar lá?

Comecei no Atlético Nacional aos 17 anos de idade. O técnico do Nacional era Juan Carlos Osorio, ex-técnico da seleção do México. Estava em processo de treinamento no profissional, mas não jogava. Só jogava no sub-20. Isso eu tinha 17 anos, na verdade me sentia em alguns momentos muito frustrado, por que não tinha oportunidade de ter continuidade com a equipe do profissional. Cheguei a "renunciar" (desistir) duas, três vezes.

Você chegou a parar de jogar?

Queria sair, mas não me deixavam, por que eu tinha contrato com eles. Não era permitido. Mas chegou o Rueda, ele me deu oportunidade de estrear na equipe, me deu essa confiança que realmente necessitava então. E graças a Deus apareceram os frutos. Ganhamos Libertadores, títulos na Colômbia. Depois o Manchester City me comprou.

Quando você fala em renunciar ao futebol, o que pensava em fazer?

Na verdade eu estava economicamente muito mal. A minha família tinha muito pouco recurso, então se abriu a necessidade de pensar a fazer outras coisas, por que infelizmente as coisas não estavam andando no futebol. Pensei em buscar um trabalho, seguir estudando. Era uma pressão em cima da necessidade que havia.

No seu Instagram, há uma foto de um campo de futebol num local de casas humildes e uma frase que me chamou a atenção: “Venho de um lugar onde diziam que triunfar era impossível”. O que representa essa mensagem para você?

Venho de um bairro que se chama Manrique Oriental, em Medellín. Um lugar de muitos poucos recursos. É muito difícil sair de lá, se tem poucas oportunidades, não há muita visibilidade em muitos aspectos se não for algum talento do futebol, do tênis. Creio que sou um dos únicos que, digamos, represento o bairro neste momento. Tento fazer tudo da melhor maneira, “seguindo essa marcha”. É algo lindo estar aqui. É um bairro muito humilde. Tenho uma relação legal com todos lá. A gente toda é muito orgulhosa, que eu saí de lá, é uma motivação para mim.

Você se identifica com histórias parecidas de jogadores brasileiros?

Não exatamente. Por que acho que cada um passa uma história diferente. Uns passaram por mais dificuldades que você, outros menos do que eu. O importante é que se vive um sonho, faltam muitas coisas e propósitos por cumprir. O importante é cada um buscar seus objetivos.

Vejo sempre fotos suas com sua mãe. Como é o nome dela?

Ela se chama Maria. Ela vem a passeio, mas não sai do seu entorno, de Medellín. Ela é muito amável, querida, vem me ver algumas vezes. Veio num jogo da Libertadores e gostou muito de conhecer o Rio nas férias.

E como está se sentindo no Flamengo, no Rio? Se sente perfeitamente adaptado? Vejo que você é mais tímido, principalmente no contato com jornalistas.

Sim, sim. A verdade é que não gosto de ficar falando, de estar aqui dando entrevistas e nada. Mas, independentemente de como estou me sentindo, não é segredo que cheguei um pouco abaixo do meu nível. Mas, com o passar do tempo, me senti melhor. Creio que a adaptação nunca para. Creio que o tempo vai passando, vejo que as coisas estão melhorando, por dedicação, pelo meu trabalho.

O que sentiu de diferente no futebol brasileiro em comparação aos outros países?

O futebol brasileiro é muito competitivo. Tem muitos bons clubes, que competem em alto nível. Na Colômbia também tem, mas não tanto como aqui. Aqui, qualquer um pode ganhar o Brasileirão, pode ganhar a Segunda Divisão. Na Espanha, também é de muita dinâmica, de muita, como se diz, intensidade. Mas são quatro, três clubes que estão brigando pelo título. Na minha forma de pensar, o futebol do Brasil chama mais atenção. O Brasil para mim é o país do futebol.

Quando você era menino quais jogadores mais gostava do Brasil?

Obviamente Ronaldo Fenômeno. Era sempre um espetáculo de ver. Adriano também. Robinho eu gostava, via muito no Santos, no Manchester City.

E na Colômbia?

Me espelhava em vários. Gostava do Faustino Asprilla, que vi pouco, mas era um espetáculo de jogador também. Sua velocidade, seus dribles. O próprio Valderrama também. Eram referências de Colômbia para mim.

Como anda sua adaptação da língua portuguesa? Cuéllar te ensina bastante?

No início era muito difícil para mim. Eu entendia um pouco, mas com o passar do tempo entendo melhor. Isso vai também um pouco de mim, que sou tímido e às vezes não me arrisco a tentar algumas palavras em português. Por não ter capacidade de pronunciar bem. Há coisas que obviamente não são relacionadas ao espanhol que eu fico... “Nossa, o que é isso?”.

Que tipo?

Por exemplo, estamos num restaurante, no CT, e perguntava de “maíz”, uma “bolita” amarelinha.

Milho?

Algo assim, se pronuncia assim. Mas não sei direito. Em Colômbia se diz maíz. Eu perguntava maíz, maíz, maíz... ninguém me dava a resposta. Até que perguntei a Cuélllar e ele me ajudou (risos).

O que você conheceu do Rio? Vi uma foto sua na Lapa.

Fui com minha mãe. Rio é muito bom, uma cidade muito encantadora, o clima, tudo. Na praia eu vou mais quando minha família está aqui. Quando estou sozinho, não. Não gosto tanto.

Que mais faz em momentos fora do clube?

Minha namorada joga tênis onde moramos, tem um centro recreativo. Nos dias livres fazemos isso. Assistimos filmes. Como todos. Não gosto de sair muito, fico mais em casa.

Rueda foi muito importante para você, mas Osorio não te deu muitas chances?

Rueda foi mais que um treinador, foi um pai para mim, realmente. Bem, Osorio... (risos) segundo as estatísticas dele haviam projetos para mim, mas, infelizmente, não joguei. Rueda, sim, tenho que agradecer demais por tudo que fez por mim. Falamos antes do Flamengo me contratar, ele sempre acreditou muito em mim. Professor Redín também. Sem eles não sei se tudo na minha carreira teria sido possível.

Sua relação com Mauricio Barbieri também parece ser muito boa. Vejo ele brincando contigo, você falando com ele.

Sim, sim. Barbieri é um excelente treinador. Ele se fixa mais nas pessoas, como estão, pergunta. Enche o jogador de confiança.

Como você imagina seu futuro? Seu contrato com o Flamengo termina em dezembro e depois você voltaria ao City.

Tenho claro que há dois dias da semana que não existem. São o ontem e o amanhã. Não posso falar do meu futuro, nem do meu passado. Tenho que ver o presente. Neste momento meu momento é Flamengo, minha prioridade é Flamengo.

Você gosta de frases inspiradoras, né? Li no seu Instagram algumas, inclusive uma do Muhammad Alli.

Leio muito... Bom, não fico lendo o tempo todo (risos), mas eu gosto de ler. Leio um livro que se chama “O livro do Ego”. Está aqui comigo. Gosto muito desse livro, por que me ensina muitas coisas. Estive há um tempo, no meu primeiro ano de Espanha, num momento muito difícil para mim. Pela solidão, muitas adversidades, dificuldades...

Você ficou sozinho em Girona?

Sim. Nossa, estava ficando louco! Posso dizer assim. E eu pensava que tinha que fazer algo para sair da frustração, todas as coisas que estavam passando. Precisava melhorar minha situação, por que estava me sentindo muito mal. Sentia que estava me exilando do que queria, estava ficando louco. Então um dia estava numa biblioteca, comprávamos algumas coisas. Eu vi o livro e me chamou minha atenção. Busquei no livro ensinamentos, palavras, sentidos, para me encontrar, buscar meu interior. Esse livro me ajuda em muitas coisas.

Marlos falou de Rueda, contou as frustrações do início de carreira e do carinho que sente pelo Flamengo, pelo Rio e, claro, pela mãe Maria.


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