Flamengo desmorona com velhas insistências

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

É natural que equipes ao longo de sua trajetória em uma temporada apresentem irregularidades. Lesões, falta de um encaixe tático, má fase técnica, desgaste físico. Inúmeros fatores podem ser utilizados para atribuir um desempenho que alterna entre boas e más apresentações. O Flamengo, porém, vai além. Já carrega quase na cultura do clube há vários anos uma incrível capacidade de auto-boicote que o leva a uma eterna sensação de estar dividido entre o céu e o inferno. Deu a senha na volta da paralisação, batido diante do São Paulo no Maracanã. Teve outro exemplo contra os reservas do Grêmio após atuação brilhante contra os titulares menos de três dias antes. Um gosto, sempre, por velhas insistências. Na Arena da Baixada, o histórico já indicava uma travessia difícil na rodada. O Flamengo a tornou pavorosa. De novo apático, mole, o time foi atropelado em 20 minutos pelo Atlético-PR. Um 3 a 0 capaz de deixar feridas, reacender questionamentos e dissipar o bom clima criado com a classificação na Copa do Brasil do, agora, terceiro colocado no Brasileiro.

Rodinei, do Flamengo, de azul - Foto: Staff Images
Um campeonato que o Flamengo parece não desejar a conquista. A prioridade da temporada tampouco parece claramente definida. E o time, em modo automático, baixa a guarda de forma inapropriada, a seu gosto. Depois de uma grande euforia, a apatia. Não há perdão para guarda baixa no Campeonato Brasileiro. Nem mesmo do vice-lanterna. Insistente, Flamengo a desce nesse pós-Copa. Parece escolher quando e onde ser ao menos competitivo. Volta a opções erradas, acirrando ânimos com torcida e comprometendo resultados e campanhas. Romulo contra o São Paulo, Willian Arão diante do Atlético-PR. São jogadores que parecem ter encerrado o ciclo no clube mesmo que ainda integrem o elenco. Há desgaste com a torcida e Arão, por exemplo, jamais repetiu seu bom momento de 2016. Mauricio Barbieri, ainda assim, fez a escolha pelo camisa 5.

Sem Diego Alves, Rever e Diego – poupados – o time não se adaptou para construir uma estrutura mais resistente aos avanços que certamente receberia em Curitiba. Desde o dia anterior, a opção por Willian Arão no meio como substituto de Diego foi fartamente veiculada. Não houve impacto algum da surpresa para o técnico do Furacão. Revela-se a arma aos rivais como quem disputa apenas amistosos irrelevantes. A ideia parecia ser o 4-1-4-1 de sempre, com Arão mais avançado. A característica é bem diferente do camisa 10. Em vez de receber a bola, limpar a jogada e fazê-la andar ou fechar espaços sem ela, Arão recebe a pelota, toca ao lado e corre em disparada para tentar infiltrar na área. Diminuta preocupação defensiva. Seria fatal. Lucas Paquetá, geralmente à direita, acabou deslocado à esquerda. Com o buraco enorme à sua frente, Rodinei ficou vendido. Não sabia se dava bote em Lucho González por dentro ou fechava o lado para evitar a correria de Marcinho. Não fez um nem outro. Em manhã ruim tecnicamente, o lateral errou demais.

O Atlético-PR chegou preparado. Descansado diante de um rival que vivera o desgaste de um mata-mata no meio de semana, tratou logo de acelerar o jogo desde o início. Imprimir o seu ritmo. Indicava um 4-2-3-1, com Nikão e Marcinho abusando da velocidade pelos lados e Raphael Veiga tentando o espaço entre Cuellar e os zagueiros. Com o avanço de Lucho González, deixando apenas Wellington à frente da defesa, o Flamengo teve muitas dificuldades de sair para o jogo. Tinha receio. Qualquer bote recebido seria fatal. De fato, foi. Rodinei derrubou Marcinho de forma ingênua aos nove minutos pela direita. O mesmo cobrou falta rasteira. Rodinei, já dentro da área, viu a bola passar à sua frente e Pablo, de carrinho, completar. 1 a 0. Tão cedo, mas ainda tão pouco.

Pois o Furacão era superior. Não havia construção de jogadas pelo meio dos cariocas, dominado pelos paranaenses. Cuellar, apertado, mostrava dificuldades em dar passes verticais com o bloco vermelho e preto que subia à sua frente. E Paquetá, geralmente o desafogo pelo meio, estava à esquerda bem acompanhado por Wellington. O Flamengo tentou avançar no improviso. Com Arão sempre muito à frente, Rodinei buscava preencher o vazio no meio. Dali, arriscou chute defendido com dificuldade por Santos. No rebote, Vitinho perdeu chance claríssima, de novo em cima do goleiro. Chance perdida que poderia, ao menos, amenizar a pressão paranaense. Mas ela continuou, incessante, latente. Diante de um Flamengo apático.

Saltava aos olhos a insistência do Atlético-PR pelo lado direito do Flamengo. Não houve correção. Avanço de Lucho González sem acompanhamento de Arão, bola para Pablo nas costas de Rodinei, cruzamento rasteiro para Raphael Veiga pegar o rebote de César no toque de Nikão e mandar para a rede aos 16 minutos. 2 a 0. Ali, o Flamengo já tinha desabado. Não se tratava do vice-líder do Campeonato Brasileiro. Era já um time entregue, resignado com a derrota sem ter atravessado sequer um quarto da partida. A velha postura de 2017. Arão, com 224 minutos espalhados em seis jogos até o início do confronto, continuava perdido, infiltrando na área. Talvez o momento indicasse um time mais retraído, com Piris ao lado de Cuellar, melhor cobertura dos laterais. Não houve reação. Não houve mudança. Houve, sim, o terceiro gol. Escanteio de Raphael Veiga na cabeça de Zé Ivaldo, fácil com a marcação ineficiente de Arão. 3 a 0.

O confronto, na verdade, chegou ao fim neste lance. Em 20 minutos. Do céu da classificação diante do Grêmio ao inferno no Campeonato Brasileiro, já impossível de liderar ao fim do turno. O Flamengo, resignado, aceitou o panorama. Tinha dificuldades para avançar ao campo adversário, Vitinho tentava resolver na individualidade. Driblava um, dois e invariavelmente parava no terceiro. Uribe, de novo em dia infeliz, não segurava a bola no ataque. No segundo tempo, Barbieri tentou reequilibrar o time. Sacou Arão, deixando claro o erro na escalação, e pôs Marlos Moreno à esquerda. Paquetá voltou ao habitat que o levou à Seleção Brasileira, o lado direito. Ali se entende bem com Everton Ribeiro e Rodinei. Foi quem mais desarmou pelo time na partida, quatro vezes. Os espaços do Atlético-PR ficaram mais limitados. Mas a verdade é que a equipe paranaense diminuíra sua fome da partida, baseando o jogo mais no contra-ataque. Vitinho, por dentro, melhorou. Achou espaço de frente para o gol para finalizar. Foi quem mais acertou o alvo na equipe, por três vezes. Pouco.

Ótima contratação, o camisa 14 ainda carece de tempo para se adaptar. Entender melhor o funcionamento do time e saber como contribuir. Ou, neste primeiro momento, atuar mais próximo à área, como segundo atacante. Trocar o pneu com o carro andando e que, antes da Copa, funcionava bem com o encaixe atingido. É o preço a pagar pela diretoria, que permitiu a hipótese de perder um jogador-chave – Vinicius Junior – no meio da temporada. O garoto era o desafogo, uma via que buscava o fundo do campo pela esquerda. Tinha o drible para tirar da cartola. Uma ponte com a arquibancada. Mais uma velha insistência rubro-negra: tentar montar ou remontar a equipe em meados de todo anos, com a temporada em curso. A tendência ao auto-boicote.

Os números frios, de acordo com o Footstats, diriam que o Flamengo foi superior na Arena da Baixada. 65% de posse, 15 finalizações – oito no alvo – e 501 passes trocados. Mas os números, solitários, dizem pouco. Foi um Flamengo, de novo, irreconhecível. Até sem identidade, trajado de azul quando seu espelho vê sempre o vermelho e preto e, na impossibilidade, o branco que conquistou o mundo. Não se viu Flamengo na alma. Não se viu Flamengo no corpo. A liderança de quatro pontos de vantagem da parada da Copa virou pó e se transformou em prejuízo do mesmo tamanho. Não há terra arrasada. Há vida, por enquanto, em três competições. Sim, o Flamengo ainda pulsa mesmo depois do atropelo de Curitiba. Basta chacoalhar a poeira, se reorganizar e abrir mão de insistências. Deixar no caminho, de vez, a tendência ao auto-boicote que o leva do céu ao inferno sem escalas.

Sim, o Flamengo ainda pulsa mesmo depois do atropelo de Curitiba. Basta chacoalhar a poeira, se reorganizar e abrir mão de insistências.

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