Flamengo encurrala Grêmio e mostra um jogo amadurecido

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

O amadurecer de um trabalho requer etapas graduais. Há a organização inicial. A parte defensiva. A ofensiva. A ideia de jogo. A do Flamengo de Mauricio Barbieri pressupõe o domínio. Imposição ao rival, controlar as ações. Limitar os passos do adversário com o fluir de seu seu próprio jogo como ferramenta. Tarefa mais fácil em seus próprios domínios, diante de rivais modestos. Faltava, ainda, um grande desafio a este Flamengo. Um rival graúdo, em território hostil. Não falta mais. No empate em 1 a 1 com o Grêmio em Porto Alegre, pelas quartas de final da Copa do Brasil, o Flamengo se impôs. Empurrou o campeão da América em seu campo, pressionou e conseguiu o empate. Acrescentou a seu catálogo, em moldura dourada, a arte da imposição.

Grêmio x Flamengo pela Copa do Brasil - Foto: Gilvan de Souza
O torcedor rival dado a zombarias certamente perguntará se o time carioca deixou a Arena com uma goleada debaixo do braço para ser digno de tantos elogios. Será, claro, mera provocação da bola. Pois há maneiras e maneiras de desfrutar o futebol. Grandes vitórias no desenvolver de um trabalho, ainda que não reflitam no placar. O duelo na Arena foi daqueles para se guardar na memória por um bom tempo em um futebol carente de ideias de jogo bem jogado. Foi exatamente isso: um jogo bem jogado tanto por parte do Grêmio, como é peculiar desde 2016, e principalmente pelo Flamengo, dedicado a entrar nesse olimpo de elogios já habitado pela equipe de Renato Gaúcho desde que arrebatou a América.

Até por suas credenciais, o Grêmio tem a necessidade latente de se impôr de casa. Mandar no jogo, determinar a trajetória do confronto. No 4-2-3-1, não foi surpresa ver o time gaúcho com uma marcação forte na saída de bola do rival desde o início. Mordidas fortes. Time adiantado. Maicon, Cícero, Luan, Ramiro, Everton e André. Todos passos à frente tentando sufocar o Flamengo e finalizar na meta de Diego Alves. Com segundos do rolar da bola, Luan finalizou na frente da área e exigiu a participação do goleiro. Claro, incomodou os rubro-negros, também sedentos por ditar as regras do jogo como tem sido costumeiro no Campeonato Brasileiro.

No 4-1-4-1, o Flamengo teve a escalação usual. Mas, com o time pressionado e Cuellar bafejado pelos atacantes gremistas, Lucas Paquetá foi obrigado a dar passos atrás e auxiliar na saída de jogo. Uma alternância. Se Paquetá dava passos atrás, o colombiano dava alguns à frente. E o time girava o jogo apenas lateralmente, passando por Léo Duarte e Rever, caindo aos lados, com Rodinei e Renê. Parecia irrelevante, mas era uma postura interessante: ao sofrer o abafa do campeão da Libertadores, o Flamengo não rifava a bola. Tentava mantê-la em seus pés, girando de um lado ao outro, como se soubesse que a pressão gaúcha fatalmente arrefeceria. É impossível, afinal, manter o vigor físico no máximo por tanto tempo. As pernas fatalmente exigiriam. E assim foi.

Com 20 minutos, o Grêmio deu passos atrás e cedeu campo ao Flamengo. Mais à vontade, o time carioca se adiantou trocando passes. E tentou dar o bote no início do jogo gaúcho: os volantes. Embora Arthur já seja uma fantasia do passado, a ideia do início de jogo de qualidade continua na equipe. Com Diego, Paquetá e até mesmo Cuellar o Flamengo deu botes em Maicon e Cícero nessa saída para acelerar rumo à área rival. Marlos Moreno, novamente em boa noite, acelerava com habilidade pelo lado esquerdo, tentando exigir velocidade de Léo Moura. Mas não procura o fundo. Busca, quase sempre, o centro. Dali arrematou quando teve espaço, exigindo de Grohe boa defesa. Um Flamengo mais leve, tentando ditar seu ritmo. Mas também cedendo mais espaços.

É esse o perigo de trocar golpes com um adversário qualificado. Há chance de ser surpreendido. Everton, o Cebolinha, dava trabalho a Rodinei pela esquerda. Mas Luan, embora em noite apenas regular tecnicamente, era infernal em sua movimentação. E dificultava um time que, por opção, tem apenas um volante de ofício. Há um campo enorme para Cuellar cobrir se o Flamengo permite, como fez algumas vezes, um ataque em massa do Grêmio. A subida em bloco é um trunfo gaúcho. Luan, então, é um hibrído desagradável aos adversários. É o artilheiro que não é atacante. É o criador que não é meia. Nem atacante, nem meio-campista. Joga leve, com ar quase irresponsável de um guri que arrasta a pelota com toques macios nos pés em um campo de pelada. Fatal.

Quando o Grêmio avançou, Léo Moura fez a jogada usual dos bons tempos de Gávea: ameaçou o cruzamento e cortou Marlos Moreno em seco, para dentro. Avançou, gingou na frente de Renê e tocou para Ramiro, perseguido por Rever, em busca da tabela. O passe chegou redondo na linha de fundo. Sem Rever para cortar, a bola passou fácil. Na sincronia perfeita gremista, André avançou e puxou Léo Duarte. Luan, inteligente, deu dois passos para trás e esperou em um latifúndio. O arremate foi preciso, no fundo da rede de Diego Alves. Um golaço. 1 a 0.

Um golpe inesperado que deixou o Flamengo tontear. Quando já tinha se adaptado ao jogo, passava a controlar o meio, ditava o ritmo a seu gosto, chegara a pancada. O time se enervou. Errou passes, deu botes incertos. Tentou jogar por dentro quando os lados eram desafogos claros. Sofria por não ter a concentração para voltar ao jogo. O intervalo foi benéfico. Mas nem tanto assim. O início do segundo tempo foi, também, ruim para os rubro-negros. Erros parecidos, com tentativas de acelerar o jogo por dentro, cedendo a bola debilmente ao Grêmio. Mas havia mudanças. Se na primeira etapa alternaram os lados e tentaram ajudar Cuellar no início do jogo, Diego e Paquetá estavam já mais à frente. O primeiro mais à esquerda, o segundo, mais à direita, procurando encostar em Everton Ribeiro, incansável no trabalho de auxiliar Rodinei a segurar Everton. Em dez minutos, o time se transformou.

Se no primeiro tempo teve o domínio, mas foi pouco efetivo, agora parecia o Flamengo líder do Brasileiro em estado de graça. Avanço em bloco e construção de jogo com trocas de passes pelo meio, tentando acionar os lados. Mas sem desespero. Mesmo atrás do placar, uma equipe consciente, sem pressa, dotada quase de uma arrogante certeza de que conseguiria furar a barreira gremista. Com um agravante para os donos da casa: a estreia de Vitinho, na vaga de Marlos Moreno. A nova contratação ajudou. Prende mais a bola, busca o drible, arrisca finalizações. Deixa o adversário mais alarmado, atento. Foi o golpe de misericórdia no veterano Léo Moura, substituído dez minutos depois quando ficou claro que não teria vigor para acompanhar o camisa 14 rubro-negro. E acontecia: o Grêmio campeão da América encolhia em seu próprio campo. Não por opção, tentando o contragolpe fulminante. Mas por que o Flamengo não lhe dava outra escolha. Não havia por onde respirar.

A situação se agravou para Renato Gaúcho quando Everton, lesionado, pediu substituição por um Marinho completamente atordoado em campo. Jael, substituto de André, era facilmente marcado por Léo Duarte, preciso nas antecipações e com calma assustadora diante de um jogo desse porte. O peito do time rubro-negro inflava. Lá estava o time de Barbieri realizando mais um bom jogo, imponente em terras gaúchas, trocando passes, arrancando resmungos da arquibancada que observava o time local como uma presa quase indefesa. A bola batia na defesa gremista e retornava ao meio. Com os zagueiros adiantados, Paquetá, Diego e Everton Ribeiro trocavam por todo o centro com toques rápidos. Buscavam trabalhar, principalmente, pelo lado esquerdo. Com Vitinho? Não só. Também com Renê. Aí uma certa injustiça.

Em redes sociais é recorrente o pedido de torcedores do Flamengo por melhores laterais. Mas Rodinei e Renê entregam um bom nível desde o início do Campeonato Brasileiro para os padrões do futebol nacional. O camisa 6, por exemplo, deixou de ser o lateral apenas eficiente na defesa. Agora faz ultrapassagens, invade a área, busca o fundo. Está confortável em um time organizado. O lado direito do Grêmio mostrou ser o caminho mais afável. Paquetá, ainda com momentos inexplicáveis de displicência ao tentar girar o jogo no meio de campo, cresceu na parte final, participativo. Teve boa finalização que exigiu boa defesa de Grohe. Cuellar, também pela esquerda, pedalou, invadiu a área e cruzou na medida para Diego que perdeu ótima chance ao tocar de cabeça ao fundo do gol. O relógio avançava, mas a agonia gremista, não.

Pois ali do outro lado estava um Flamengo envolvente, trabalhando a bola de um lado a outro sem alçar bolas aleatoriamente na área em busca do empate. Tentava igualar o confronto impondo suas ideias. Com aproximação, triangulações, por baixo, acelerando quando necessário. Parecia bem claro que o empate sairia diante de tamanha pressão. E então Lincoln, o garoto substituto de um Uribe ainda fora de rotação e que permanece mais tempo longe da área, apareceu. De Everton Ribeiro para Renê. De Renê para o centro da área para o garoto, fulminante, se antecipar a Geromel e Kanemann e empatar o jogo. Aos 48 minutos do segundo tempo. O bico de raiva de Maicon na bola já na rede deixou claro: o Grêmio depois de muito tempo foi muito pressionado em seus domínios. Ficou desconfortável. Tarefa para poucos.

Ocorre que o Flamengo, de acordo com o Footstats, teve 53% de posse de bola, trocou 524 passes contra 358 dos rivais, finalizando 20 vezes, oito delas na meta de Marcelo Grohe. O Grêmio teve metade disso contra Diego Alves. Cometeu apenas cinco faltas contra 18 dos gaúchos. Imponente. Não, nada está perfeito. Há o que corrigir. É um processo. Foi um jogo para se guardar na memória. Justamente pela qualidade dos dois times, o confronto que segue no Maracanã está mais do que aberto. Um duelo formidável no campo do Grêmio. Mas a imagem que ficou na Arena nesta quarta-feira foi de um imponente Flamengo capaz de orgulhar até seu torcedor mais descrente.

Pressionou e conseguiu o empate. Acrescentou a seu catálogo, em moldura dourada, a arte da imposição.


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