Protocolar, Flamengo supera o Vitória no Maracanã

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

Não há como negar que o triunfo abraçado pelo Flamengo no Maracanã sobre o Vitória foi importantíssimo. O gosto amargo do revés de 3 a 0 para o Atlético-PR na rodada anterior foi, momentaneamente, dissipado. A rodada favorável, com tropeço do líder São Paulo, exigia a conquista dos três pontos de qualquer maneira em casa. A distância encurtou a dois pontos. Mas, sim, a equipe deixou no ar o gosto de que pode mais. Resolver situações favoráveis com maior facilidade, evitando até maiores desgastes físico e mental. O Flamengo, no entanto, foi apenas protocolar.

Everton Ribeiro e Rodinei no Flamengo - Foto: Gilvan de Souza
É um tanto paradoxal. Uma crítica que só nasce depois de um elogio. Pois o time de Mauricio Barbieri teve boa apresentação no Maracanã, com um grande volume de jogo, imposição, um rival sufocado, finalizações. Por isso esse gosto de que poderia mais insiste em habitar a boca dos rubro-negros. Foi daquelas noites que têm sido rotina neste Campeonato Brasileiro: estádio cheio, festa, um pulsar entre time e torcida que impacta nos adversários. Uma atmosfera positiva que faz do Flamengo uma equipe a ser temida em seus domínios.

Um fato que passa pela ideia de jogo muito bem estabelecida por Mauricio Barbieri. É raro um técnico, ainda mais tão jovem, optar por um time com apenas um volante e três meias. Busca a troca de passes, a movimentação intensa, a alternância com sincronia. Agrada ao DNA rubro-negro, a busca pelo ataque eternizada pela geração de 81. Constroi-se, então, uma ponte com a torcida a partir daí. A vocação ao ataque. Com crias da casa, antes Vinicius Junior e Lucas Paquetá, o laço é feito. A perda do garoto, no entanto, deixou uma lacuna, preenchida com a contratação de Vitinho. Sim, é um jogador com característica distinta da revelação que está em Madrid. Mas Vitinho, aos poucos, já busca a adaptação, encaixar melhor na ideia de jogo do Flamengo atual.

Em campo, o time voltou ao 4-1-4-1 tradicional, com Dourado de novo no ataque após ausência por suspensão. Diego Alves, Diego e Rever, poupados do vexame contra o Furacão, também de volta. Uma equipe mais forte, encorpada. Imponente. Mais favorável para Vitinho apresentar alguma indicação de que o futebol pelo qual foi contratado irá, aos poucos, surgir. Pela esquerda, o camisa 14 chamou o jogo para si. Deu opção de drible, velocidade, batida de fora da área. E o mais interessante: buscou mais o fundo, característica que típica de Vinicius Junior e que fazia a equipe funcionar tão bem. Causou pavor em Jeferson e Aderllan, sempre à sua caça. O encaixe de ideias melhorou. Diego acelerando o jogo, com toques rápidos, Renê avançando com segurança. E Vitória em apuros tão logo viu Vitinho, de longe da área, carimbar o travessão de Ronaldo.

Do outro lado, Paulo Cesar Carpegiani, o responsável por iniciar o projeto deste Flamengo 2018. Por ter ciência da vocação ofensiva do adversário, o técnico mandou o Vitória a campo em um 4-4-2. Esperar os mandantes para depois, talvez, contragolpear. Não dava certo. A marcação do Flamengo era feita no campo do time baiano, o que ocasionou em algumas perdas de bola. Arouca do lado direito e Yago na esquerda não davam saída de bola e tampouco combate nos avanços pelos lados, onde o Flamengo forçava o jogo. Neilton e Léo Ceará, na frente, pouco incomodavam. Um jogo que parecia perdido no primeiro tempo. Mas faltava, claro, o gol do Flamengo.

Que funcionava bem. Pressão na saída de bola rival, troca de passes pelo meio e expectativa de utilizar os lados até o fundo. Pela direita, Rodinei, muito avançado no corredor aberto por Everton Ribeiro, solto, à vontade, abusando da arte de achar espaços. E até aparecia para concluir, como num lance por dentro que tabelou com Dourado. O chute passou rente à trave de Ronaldo. O Maracanã pulsava. Ansiava e desejava o gol. E não se queixava. Parecia entender que o time tinha bom desempenho e o gol seria questão de tempo. A questão é que a equipe também parece, vez em outra, acreditar nisso. O gol é questão de tempo. Por vezes, até pode ser. Mas convém sempre ser objetivo para torná-lo realidade logo, diminuindo as chances de frustração.

Diego tentava. Após ser descartado da convocação por Tite, o camisa 10 ressurgiu. De outra maneira. Se em 2016 trabalhava muito bem como o eixo do time, recebendo a bola, retendo a posse, girando e limpando as jogadas para acionar os lados no 4-2-3-1 de Zé Ricardo, agora parece ter entendido melhor o seu papel no 4-1-4-1. É combativo na defesa e alterna com Paquetá o auxílio ao iniciar de jogo. Fecha bem o lado esquerdo e avança também com maior facilidade, diminuindo o tempo com a bola no pé. Ao contrário, cada vez mais parece soltá-la mais rapidamente para fazer o time andar – e seu jogo crescer. Um jogo que exige um preparo físico em dia. Fora do jogo de sábado, ele corria com facilidade e enxergava bem alguns buracos. Foi dele um belo passe para Paquetá, entre a defesa, na direita, mal aproveitado pelo camisa 11, que bateu fraco.

Paquetá, aliás, parece ser o oposto de Diego. Tem sido irregular, por vezes até displicente. Bem menos elétrico do que o garoto que se tornou referência do time antes da Copa do Mundo. Uma vez mais, ele esteve um tom abaixo. Mas é importante pela característica: além de ter bom passe e fazer a bola girar, faz bem também o combate e protege os avanços de Rodinei. Com o jogo bem encaixado diante de um rival fraco, obviamente o Flamengo faria o primeiro gol. Ao seu estilo. Girando a bola, de um lado ao outro. Everton Ribeiro da direita avançando para o centro. Na esquerda, achou Vitinho. O atacante parou, olhou e viu Paquetá entrar na segunda trave. Ambidestro, Vitinho cruzou com perfeição de canhota. O meia ganhou de Benítez na cabeça e Ronaldo fez ótima defesa. No rebote, Diego, à la centroavante, mandou ao gol. 1 a 0.

O Maracanã, então, explodiu. Já contava os minutos que seria engolido pela ansiedade com um empate levado ao intervalo. E gritou como um prisioneiro libertado de sua angústia particular. A torcida, escaldada, sabia: há dias em que o Flamengo joga bem e não resolve o jogo. Parecia, então, que iria resolver naquela quinta-feira. Com o Vitória atônito, o time adiantou ainda mais em bloco no campo rival. Passou a tocar bola deixando a defesa baiana desconcertada. Em bela jogada de Diego para Renê, o lateral avançou até a área e cruzou na medida para Henrique Dourado, que fez o que não se perdoa em centroavante: perdeu gol feito. E o intervalo chegou com a vantagem mínima.

O segundo tempo trouxe um Flamengo ainda forte, no campo adversário, tentando ampliar. Faltou-lhe, no entanto, competência. Em belo desarme de Rever, Paquetá lançou Everton Ribeiro na direita e ultrapassou William Farias na corrida. Recebeu do camisa 7 um passe açucarado, daqueles presentes que só podem, mesmo, acabar com a festa da torcida e a rede a balançar. Faltou capricho. O toque por cima do goleiro fez a bola sair lentamente ao lado da trave direita. Imperdoável como Dourado no primeiro tempo. De forma protocolar, o Flamengo deixava encaminhada a vitória, mas ressentia de maiores forças para manter o ritmo forte do primeiro tempo. A maratona já cobrava seu preço.

Barbieri pensou em maior mobilidade com Lincoln no lugar de Henrique Dourado. Mas o garoto, por vezes, ainda parece cru para achar espaços e ganhar embates com o equilíbrio necessário para ter uma vaga na equipe. Correu sem saber exatamente onde atacar. De forma até natural, o Flamengo diminuía ritmo, apresentava cansaço. E cedia espaços. Carpegiani entendeu. Sacou Rodrigo Andrade para dar velocidade com Lucas Fernandes pelo lado direito, formando quase um terceiro atacante. Buscava as costas de Renê e o jogo em cima de Rever, mais lento do que Léo Duarte. Mas Vitinho, recordista de desames da equipe na noite, com seis, auxiliou bem no setor. Mostrou ter pernas até quase o fim do embate, quando acabou substituído por Marlos Moreno.

O colombiano, em seu primeiro lance, teve a oportunidade de encaminhar um fim de jogo tranquilo. Mas após costurar seguidos adversários furou a conclusão na grande área. Posteriormente, Barbieri culpou o gramado. Correto ou não sobre o lance específico, a certeza é de que o Maracanã precisa de maiores cuidados com sua grama. A cada cobrança de escanteio ou lançamento, um mar de areia se levantava. Fator que impede até a equipe que preza mais a posse de bola, a troca de passes. O próprio Flamengo. Mas não foi o gramado que fez o time desacelerar. Ao chegar ao fim do jogo sem uma vantagem maior, preocupou-se mais em manter intacta a que já tinha. Naturalmente, o Vitória subiu mais ao ataque e rondou a área. Mas perigo, mesmo, apenas com uma boa chance de Lucas Fernandes, que bateu fraco ao entrar na área, facilitando para Diego Alves.

O andar do relógio fez Barbieri colocar Piris da Motta em campo como a última cartada. Preencher o meio ao lado do sempre eficiente Cuellar, um monstro na proteção, manter a posse, deixar o Vitória longe da área. Conseguiu. O Flamengo jogou bem. Teve 68% de posse de bola, finalizou 15 vezes – sete no alvo – no gol rival, trocou 504 passes e teve incríveis 26 desarmes, de acordo com o Footstats. Números de gente grande. Apresentação também. Mas faltou capricho, maior eficiência nas finalizações. Buscar um atalho para o alívio diante de rival tão frágil. Mas, ainda que protocolar, o Flamengo segue forte na briga pelo sétimo título brasileiro.

O Flamengo jogou bem. Teve 68% de posse de bola, finalizou 15 vezes – sete no alvo – no gol rival.

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