Brasil, o país que cultua jogo feio

GAZETA DO POVO: Por Mauro Cezar Pereira

"Atuar defensivamente já foi considerado uma vergonha no futebol brasileiro. Na visão de muitos, algo incompatível com time grande, com a tradição da bola jogada por aqui. Exagero. O esporte pode ser praticado de diferentes maneiras em busca da competitividade, e entre elas há a estratégia calçada na retaguarda sólida. Por outro lado, não estaria havendo um outro tipo de excesso, com a exaltação do jogo feio no país?

Na noite de quarta-feira o Corinthians foi ao Maracanã para não perder para o Flamengo pelas semifinais da Copa do Brasil. Saiu do pífio gramado do palco da final do Mundial de 2014 feliz com o 0 a 0. E nas arquibancadas, os quase 2,2 mil corintianos festejavam loucamente o placar em branco, como se fosse uma goleada. Parece que agora estamos mesmo em outro extremo.

Piris da Motta durante Flamengo x Vasco - Foto: Carlos Gregório Jr
Nos 90 minutos o Corinthians de Jair Ventura não endereçou uma vez sequer a pelota na direção da meta rubro-negra. Suas quatro finalizações não tiveram o caminho que do gol, em que pese as duas jogadas perigosas na primeira etapa, uma delas após falha de presente dado pelo rubro-negro Paquetá. Isso basta para o atual campeão paulista e brasileiro? Será mesmo que os alvinegros precisavam se trancar de tal forma?

O time foi tão pouco ao ataque que cruzou apenas uma vez na área rival, não teve um escanteio sequer a seu favor e rebateu a bola para longe de sua área 52 vezes. Sim, isso mesmo, os alvinegros premiaram a torcida com mais de meia centena de chutões e bicos para o alto. São índices assustadores para um grupo de atletas que veste camisa tão pesada.

Há quem entenda tal comportamento devido às limitações técnicas de um elenco que retrata a falta de dinheiro no clube paulista, endividado até a medula. Acham que não há como fazer mais com os atuais jogadores. Será? Dez dias antes o Ceará, com um dos menores orçamentos da Série A, esteve no mesmo estádio enfrentando o mesmo Flamengo. E venceu o jogo pelo Brasileirão na quinta e última finalização certa das nove que desferiu.

Três dias depois do ferrolho corintiano o Vasco, bem desfalcado e na zona de rebaixamento para a segundona, reforçou a tese ao agredir os rubro-negros em Brasília– foram 16 finalizações, sete no alvo. O time vascaíno merecia vencer, mas sofreu o empate (1 a 1) ao fazer um gol contra. O arqueiro rubro-negro, Diego Alves, trabalhou mais do que Martin Silva.

Sim, é possível fazer mais. O Corinthians poderia e deveria mostrar mais no Maracanã. Contudo nos acostumamos com pouco, aceitamos de tudo pelo resultado e perdemos boa parte da capacidade de nos indignarmos com o mal jogado. Ultimamente o apenas limitado, esforçado, retrancado tem nos bastado. O controle de qualidade é baixíssimo.

E o Corinthians é o atual campeão brasileiro! Nas prática defende o título nacional toda vez que entra em campo. E no Rio de Janeiro o fez praticamente sem atacar. Nem o surpreendentemente e pequeno Leicester, após arrebatar o título da Premier League em 2016, se fechou de tal forma no certame seguinte. E estamos nos conformando com isso? A resposta é sim.

Não por acaso, o Palmeiras, com o maior investimento de um clube no futebol brasileiro, tem entre os nomes mais relevantes nos últimos jogos um dos mais limitados atletas do grupo: Deyverson. Isso com elenco repleto de bons e ótimos jogadores, além da decantada estrutura que proporciona ao seu treinador inúmeras possibilidades de montagem da equipe.

Isso ocorre porque o time alviverde atua, claro, na tônica de Luiz Felipe Scolari, com a estratégia apoiada em bolas alçadas para que o grandalhão lá na frente brigue com a zagueirada. Sem ele, suspenso, na derrota para o Cruzeiro pela Copa do Brasil o grupo sentiu. Reflexo da falta de repertório, da dificuldade para se adaptar a uma forma diferente de jogar. É o samba de uma nota só.

Mas na média a qualidade técnica dos atletas palmeirenses está acima da maioria dos rivais, e a velha tática “Scolariana” dá certo, ou vinha dando certo até a derrota para o campeão mineiro e do mata-mata nacional. Se o jogo é rústico, antiquado, abaixo daquilo que o grupo de jogadores poderia oferecer, pouco importa, desde que vença, mesmo se os adversários não forem dos melhores.

Pouco se questiona qualidade de jogo e mal se cobra o desenvolvimento do real potencial de um elenco caro. Brasileiros se transformaram em radicais do “resultadismo”, com fortes e atuantes segmentos dentro da imprensa esportiva. E assim, o Brasil virou, mesmo, um lugar onde poucos notam o básico: quem joga bem fica mais perto da vitória. Bem-vindo ao país do jogo feio."

Dez dias antes o Ceará, com um dos menores orçamentos da Série A, esteve no mesmo estádio enfrentando o mesmo Flamengo.

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