Flamengo precisa muito mais que passes e camisas 10 pra ser ofensivo

YAHOO: Por Leonardo Miranda (@leoffmiranda)

O torcedor que lotou o Maracanã contra o Corinthians não chegou a sair decepcionado. Afinal, a narrativa foi a mesma de sempre em 2018: o time joga lá na frente, empilha a região do gol com seus atacantes e fica tocando bola até achar uma brecha…que nunca vem. O Rubro-Negro fechou o jogo com incríveis 21 finalizações, 32 cruzamentos na área e 70% de posse de bola. Gol? Nenhum. Chance real de fazê-lo? Apenas cinco.

O roteiro que o Flamengo mostra é mais comum do que parece. Quem vê, pensa que se trata de um time ofensivo e que quer trabalhar a bola. Uma equipe, antes de tudo, ofensiva, como o time grande que o Flamengo é. Não há dúvidas que essa é a intenção de Mauricio Barbieri, que dá continuidade a uma ideia que Carpegiani colocou lá no início do ano: jogar com quatro “camisas 10” num 4-1-4-1. Mas veja bem: essa é a intenção. O Flamengo é um excelente exemplo para descontrair um dos maiores mitos no futebol: a de que basta ter posse de bola para ser ofensivo.

Essa visão, de certa forma, não é de todo errada. Afinal, par afazer o gol é preciso ter a bola sob controle. É tudo uma questão de forma: como você leva a bola da defesa ao ataque? Há quem prefira de uma forma mais direta, sem muita embromação. Há quem prefira com passes rápidos e toques verticais. E há quem prefira que a bola seja tocada várias vezes até chegar ao gol. O Flamengo tenta fazer a última, mas se esquece que a posse de bola é um meio para chegar a um objetivo final, que é o gol. Não um fim em si mesmo.

E como transformar a posse de bola em gol? Ou em ataques que realmente sejam agressivos e construam chances claras de gol? É simples: é preciso causar desequilíbrio no adversário. Tirar zagueiros e volantes do lugar para abrir espaços perto do gol. Criar condições para que os atacantes recebam a bola com tempo para pensarem e espaço para concluir. E como criar essas situações? Abaixo você vê uma série de movimentos além da simples posse de bola que ajudam a construir jogadas de ataque. E todos faltam ao Flamengo.

Jogo apoiado: aproximação para criar passes e chamar a marcação

O nome pode parecer complexo, mas jogo apoiado é o simples “aproxima pra jogar”. A lógica é a mesma da pelada e de um jogo profissional: não existe uma troca de passe que leve a bola ao ataque sem alguém perto para receber. Passe é a conexão entre dois jogadores, e o Flamengo é um case de como não fazer esse tipo de jogo. Os meias estão sempre distantes, longe uns dos outros. Everton Ribeiro é o mais móvel de todos, mas Paquetá, Diego e Vitinho ficam longe, distantes. A dificuldade de dar um passe com muita marcação perto é infinitamente maior que um passe curtinho, como na imagem abaixo. E veja: esse tipo de movimento acontece sem a bola e interfere diretamente para transformar a posse em algo útil.


Jogo apoiado (2): aproximação para criar passes e chamar a marcação

A questão é tão complexa que, nos momentos que esses meias vêm e aproximam, eles não ajudam. Porque não adianta nada se aproximar de quem está com a bola se você não se coloca num espaço útil de campo, ou seja: à frente de quem tá com a posse para movimentar a bola ao ataque. veja na imagem que Diego faz certinho: recua, vem buscar dos zagueiros e…encontra um latifúndio à sua frente. Ele é criticado, mas o que pode fazer nessa jogada se não passar de lado?


Atacar o espaço: se movimentar sem a bola é fundamental

Se falta apoio e movimentação aos meias, o ataque do Flamengo é igualmente ineficaz. Porque parece ficar parado esperando a bola. É praticamente um convite aos zagueiros rivais. Dourado, Uribe, Vitinho…o problema não está no jogador, mas sim nos movimentos deles. Nem um misto de Cristiano Ronaldo com Harry Kane conseguiriam fazer gols ficando estáticos, sem se projetar e procurar espaços livres e longe da defesa do rival. No exemplo abaixo, do jogo contra o Inter, você vê que Diego carrega livre a bola e suas duas opções de passe à frente estão imóveis, facilitando o trabalho de marcação.

A imagem abaixo representa exatamente esse tipo de problema: Paquetá está com a bola, e 5 jogadores – isso mesmo, MEIO TIME fica imóvel, de costas para o gol. Qualquer um que receber o passe irá ter a marcação de dois ou três rivais.


Intensidade: a culpa também é do calendário

Mauricio Barbieri reclama bastante do calendário. E tem razão. Montar um time como o Flamengo requer um tempo de assimilação e entendimento, algo que os jogos decisivos e em sequência quebram. Todos os princípios de jogo mostrados acima são avaliados pela comissão técnica, que cobra, corrige, aplica no treinamento…e tudo leva uma quantidade de tempo para ser assimilada. É um processo, com início, meio e fim. Por mais que o torcedor fique bravo, o Flamengo pode colher frutos se manter essa ideia e procurar corrigir problemas cortando mais etapas.

Por fim: o Flamengo interpreta mal a filosofia do “jogo de posição”

Muricy Ramalho chegou no Flamengo em 2016 pregando renovação. Ele tinha acabado de chegar de um estágio do Barcelona, quando se encantou pela forma com que base e profissionais jogavam da mesma forma. Prometeu um time seguindo os moldes da equipe catalã, mas na prática, o Flamengo de Muricy não decolou. Em campo, mostra os mesmos problemas do time de Zé Ricardo, Carpegiani, Barbieri, Rueda…é um time que interpreta de forma errada a filosofia catalã.

O Barcelona sempre foi atrelado ao romantismo do futebol brasileiro nas décadas de 1970 e 1980. É um mito. Mais que mito, uma grande mentira – que repetida mil vezes, se tornou verdade. A filosofia de jogo que rege o Barcelona nasceu com a Holanda de 1974 e se manteve viva com Cruyff, Guardiola e recentemente Sarri, mas em nada ela tem a ver com o Brasil de 1982 ou o Flamengo de 1981. O chamado “jogo de posição” é muito diferente de “posse de bola”. Muito. Ele prega que jogadores precisam ocupar espaços de campo pré-determinados com um único fim: criar linhas de passe para rodar a bola, desequilibrar o oponente e chegar ao gol.

O Flamengo quer tudo isso. Quer ter a bola, rodar ela e mantê-la. Mas não faz a menor ideia de como fazer isso porque não ocupa espaços de forma a criar esse tipo de apoio. Veja os laterais: eles normalmente ficam por dentro, sem ninguém ficar aberto. É a chamada amplitude, que ficou famosa com os laterais e alas do futebol europeu. Acontece que a amplitude não é só bonitinha no papel, ela tem um objetivo. Ao manter um lateral sempre aberto, o time cria um problema ao lateral do adversário: “fico na linha defensiva ou marco aquele cara que tá na linha de fundo?”

É esse tipo de problema que o Flamengo não consegue criar nos seus adversários porque não sabe quais espaços ocuparem. Não basta apenas colocar vários camisas 10 ou ter a intenção de praticar um futebol de estética bonita. É preciso se dissociar do mito que atrela o Barcelona ao Flamengo e ao Brasil e olhar mais para a realidade do jogo. Nela, veremos que o clube carioca tem um elenco de boa qualidade, mas que mostra movimentos longe do que quer propor.

O roteiro que o Flamengo mostra é mais comum do que parece. Quem vê, pensa que se trata de um time ofensivo e que quer trabalhar a bola.



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