Flamengo apresenta sua versão 'doida'

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre e

A ebulição do caldeirão rubro-negro pressionou Maurício Barbieri. O empate frustrante diante do Vasco confirmou o período de maior dificuldade do treinador à frente do Flamengo e abriu a possibilidade de saída, fartamente comentada nos corredores da Gávea. Entre um e outro pano quente, o técnico sobreviveu e ganhou a primeira semana cheia para trabalho após a paralisação da Copa do Mundo. Respondeu com um Flamengo distinto, um misto de resposta diante das cobranças com a necessidade frente à ausência de Diego, suspenso. O resultado foi um Flamengo doido, com características diferentes, no embalo do velho Atlético-MG de Levir Culpi, num perde e ganha que levou à vitória rubro-negra de 2 a 1 sobre o rival mineiro no Maracanã. Um triunfo que esteve sob risco até o último minuto. Não há, ainda, uma solução. Houve alívio.

Vitinho, Paquetá e Henrique Dourado no Flamengo - Foto: Gilvan de Souza
Uma das maiores críticas ao trabalho de Barbieri atinge em cheio a falta de alternativas para dificultar a vida de adversários. Embora o fogo amigo com farto vazamento de testes realizados no minado Ninho do Urubu seja um entrave, o técnico materializava em campo poucas novidades. Desta vez, tentou tirar ideias da caixinha. Willian Arão efetivado no meio de campo na vaga do suspenso Diego, Matheus Sávio no lugar de Vitinho. Trauco e Pará nas vagas de Renê e Rodinei. Paquetá um pouco mais adiantado. Até pela escalação divulgada oficialmente pelos canais de comunicação do clube, o posicionamento indicava um 4-2-3-1. Em tese. No campo, foi diferente. Um Flamengo mais no tradicional 4-1-4-1, com Cuellar à frente da defesa e Arão saindo sempre em disparada ao ataque pela direita. A calma da troca de passes, a tentativa de imposição com a posse de bola pareceu ter ficado para trás. Sedento pela vitória, o Flamengo entendeu que precisava de agressividade. Arriscar. Sair rápido rumo ao gol rival. Assim o fez.

O impacto inicial foi positivo. Nem bem os torcedores tinham sentado na arquibancada do Maracanã, o time rubro-negro envolveu o Atlético-MG, veja só, com uma bela troca de passes, saindo da direita após interceptação de Arão até a esquerda, onde Cuellar achou Trauco. O peruano avançou e driblou facilmente Emerson para dar passe açucarado ao meio da área, onde Arão, livre, chapou com categoria no fundo do gol de Victor. 1 a 0 com apenas um minuto de jogo. E, claro, uma vantagem tão precoce muda as perspectivas de ambos os lados. O plano do Atlético-MG fatalmente tinha sido soterrado tão rapidamente.

O Galo de Thiago Larghi chegou ao Maracanã em um 4-1-4-1, com Chará e Tomás Andrade pelos lados, Elias e Luan por dentro. Mas, por vezes, Luan ou Chará adiantavam ao lado de Ricardo Oliveira, deixando a equipe em um 4-4-2. Parecia mais um desajuste em busca do acerto quebrado logo com o gol inicial. A direita do Atlético-MG morria no sair do jogo. Era até simples. Tomás Andrade, canhoto e meia, buscava sempre o centro para tentar o passe ou o arremate. Um movimento natural. Com isso, abria totalmente o corredor para a passagem de Trauco, que tentava auxiliar Matheus Sávio em cima do solitário Emerson. Para sorte do time mineiro, o garoto encontrava as velhas dificuldades de sempre. O drible para trás, em vez de buscar o fundo, o nervosismo diante da pressão da arquibancada que lhe impedia de dominar bolas fáceis. O Flamengo, feroz no início, continuava acelerando o jogo.

Era curiosa a inversão de características. Sem a trinca de meias, o time não girava a bola de um lado ao outro. Era bem mais agudo, tentando esticadas para Arão. Houve também a inversão de características dos laterais. Enquanto Rodinei sempre se apresenta na frente, Pará é mais contido, vigiando bem Chará. Renê tem grande preocupação com a defesa, Trauco tem gosto pelo ataque. E Paquetá, um pouco mais avançado, tentava entrar na área com mais frequência, acionar principalmente o lado esquerdo com Matheus Sávio. Em uma dessas, o garoto cruzou para Dourado marcar, mas o gol foi bem anulado por impedimento. A agressividade aliada à euforia, no entanto, tem um preço. A quase afobação para atacar era desnecessária, principalmente com a vantagem no placar. Com as passadas à frente de Arão, Cuellar se viu uma vez mais sozinho. Seria natural, não fosse a postura diferente do time na partida. Ao arriscar o ataque a todo custo em vez de se aproximar gradativamente com a posse, o Flamengo perdia bolas seguidas e cedia o contragolpe mais facilmente. Nesse bate e volta, o time deu campo ao Atlético-MG para avançar principalmente por dentro com Elias e Luan. O Galo passou a chegar com maior frequência, com espaços. Era um muito jogo aberto.

De agressor a agredido, o Flamengo também apresentou suas fragilidades. Não só ao conceder espaços acelerando o seu estilo de “Urubu Doido”. Mas no jogo aéreo defensivo. Em escanteio batido por Luan, Leonardo Silva superou Paquetá e Arão para tocar de cabeça para o fundo da rede de Diego Alves. 1 a 1. O 13º gol de cabeça entre os 37 sofridos pelo Flamengo em jogos oficiais na temporada. Larghi percebeu o erro de deixar Tomás Andrade na direita e sacou o meia antes do intervalo, algo até surpreendente. Fez Cazares, o substituto, preencher o meio para aproveitar o espaço dado pelos mandantes e pôs Luan na direita, tentando dificultar os avanços de Trauco. De fato, o Flamengo tentou insistir no seu novo estilo. Bolas esticadas, ultrapassagens de Arão e Matheus Sávio. O garoto, já nervoso, passou a errar ainda mais com as vaias da arquibancada.

Barbieri contrariou o seu próprio estilo ao derrubar a tese de que não modifica o time no intervalo. Voltou ao segundo tempo com Vitinho na vaga de Matheus Sávio, substituição que fez o Maracanã urrar de alegria. Como dito, era um jogo franco. Havia espaço de ambos os lados, latifúndios na frente da ambas as áreas. O Flamengo insistia em trabalhar com velocidade pelos lados, com Paquetá acionado para ser o cérebro. O garoto é promissor, onipresente em seus melhores momentos. Mas sua melhor fase com a camisa do clube foi com um posicionamento um pouco mais recuado. É inteligente e enxerga o campo, buscando espaços para pegar a batuta do time e se entender com Diego e Everton Ribeiro. Mais adiantado, ele invariavelmente acaba de costas para a área ao dominar a bola. Zé Welison fez bom trabalho em sua cola, tentando minimizar o tempo para que o camisa 11 pensasse. Então, ele foi à área.

Everton Ribeiro recebeu bola na direita e tocou bola no vazio da intermediária atleticana para Trauco, na esquerda. O lateral teve tempo de olhar, escolher onde cruzar e dar um passe com o pé para Paquetá desviar de cabeça no fundo da rede de Victor. 2 a 1 para o Maracanã explodir aliviado. Um lance que dizia muito. Henrique Dourado, muito criticado, tem mesmo dificuldades de segurar a bola no ataque. Mas sua presença entre os zagueiros rivais é importante para prendê-los. Sim, o Ceifador os incomoda. Maidana, indeciso, pensou em avançar no atacante quando se deu conta de que Paquetá surgiu às suas costas para cabecear. Aí uma ótima função para ele: não jogar avançado como meia ou como atacante, mas aparecer na área como elemento surpresa, como já fizera contra o América-MG. As boas estatura e impulsão fazem de Paquetá uma arma importante caso apareça junto de um centroavante. Mas não ao fazer as vezes do próprio centroavante.

Barbieri, talvez preocupado com as consequências de um mais jogo sem vitória, pensou em efetivar Paquetá no ataque. Uma alternativa para segurar mais a bola. Um erro. Pois a saída de Henrique Dourado para a entrada de Piris da Motta oficializou o convite do Flamengo ao Atlético-MG, permitindo o adiantar da equipe, iniciando com o avançar dos zagueiros. Arão segurou os avanços e se postou à direita de Cuellar, com Piris à esquerda. Everton e Vitinho abertos, Paquetá como atacante. O meio ficou vazio. O Atlético-MG, convidado, foi à área rival. E o jogo do bate e volta no meio se fortaleceu como nunca. Bola com Atlético, acelerada. Bola com o Flamengo, acelerada. Um jogo quase sem meio de campo. Mais velocidade do que raciocínio. Um Deus nos acuda capaz de irritar qualquer rubro-negro na arquibancada do Maracanã. Ainda mais com Vitinho.

Maior contratação da história do clube, o atacante foi ótima opção da diretoria rubro-negra para reforçar o time. É jovem, tem drible, finalização e muito potencial. Mas está completamente fora de sintonia. Flerta, por vezes, com a indolência. Uma frustração. Tenta lances individuais para constar no Youtube em vez de simplificar e colaborar para o fluir do jogo rubro-negro. Por duas vezes, quebrou contra-ataques perigosos com decisões erradas. A irritação da arquibancada com o camisa 14 passou para a área técnica. Barbieri, de forma bem mais surpreendente do que Larghi no primeiro tempo, pareceu ter mandado um recado forte ao atleta e o sacou com 36 minutos de jogo. Marlos Moreno entrou em campo.

É elogiável que o Flamengo tente ser agressivo e mudar algumas de suas características, embora a ideia principal da equipe esteja estebelecida com a trinca de meia e sua farta troca de passes, sempre potencializada com uma equipe sem grande desgaste físico e um gramado decente. Para render, o Flamengo precisa de um jogo mais ágil, veloz. Mas não de maneira tão francada, no perde e ganha. O time flertou com o insucesso no Maracanã até o último instante, quando a falta cobrada por Cazares e desviada por Rever beijou o travessão de Diego Alves. Fosse um adversário mais maduro, com jogadores mais perigosos e confiança em alta, caso das equipes do alto da tabela, seria difícil resistir. Por ora, o resultado vale ser comemorado no Maracanã, mas o estilo Urubu Doido não entregou certeza alguma. Diego, por exemplo, ainda é peça importante no trabalho do meio de campo da equipe. Paquetá, mais avançado, pode render até menos, apesar da luta insistente.

O Flamengo deixou o Maracanã com uma vitória, 53% de posse de bola e menos finalizações (10 x 8) do que o Atlético-MG. Cuellar, sozinho, realizou seis desarmes na partida, de acordo com o Footstats. Para tentar aumentar sua agressividade, o time de Barbieri permitiu demais ser agredido. Esteve a um travessão de sair do Maracanã frustrado, mesmo ao apresentar características distintas. Sim, o Flamengo continua na briga pelo título brasileiro. Nunca a deixou desde o início da competição, seria ingenuidade pensar o contrário. O alívio da vitória chegou, mas o Urubu Doido também deixou claro que o time não voltou a ser confiável. Na quarta-feira, na Arena Corinthians, joga de novo as fichas da temporada. O Urubu Doido precisa ser mais equilibrado.

Paquetá, mais avançado, pode render até menos, apesar da luta insistente.


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