Vasco surpreende e expõe o esfarelar do Flamengo em Brasília

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

É usual em clássicos o choque entre rivais tão antigos causar efeitos inversos. Quem está por cima, sai por baixo. Quem está por baixo, sai por cima. Difícil, então, entender quem estaria em cada posição no duelo entre Vasco e Flamengo em Brasília. Um olhar mais apurado indicaria o Cruzmaltino em situação inferior. Quatro derrotas seguidas, zona de rebaixamento, desfalques. O 1 a 1 no Mané Garrincha, portanto, seguiu a tradição dos clássicos. Surpreendente, o Vasco jogou da melhor maneira possível e deixou o gramado em viés de alta. O Flamengo, em processo de esfarelamento de trabalho a céu aberto, em viés de baixa.

A escalação anunciada por Alberto Valentim indicava um time vascaíno talvez disposto a espelhar o Corinthians que pôs um freio no Flamengo sem maiores sustos. Um 4-1-4-1 que esperaria o rival, buscando o contra-ataque. A bola rolou e não só quem acompanhava o jogo se surpreendeu. O time rubro-negro, em campo, ficou perdido diante do Vasco. Em vez de aguardar o adversário, o time de Alberto Valentim tomou a iniciativa. Agredir o Flamengo. E Fabrício, a surpresa, esteve longe de fechar o lado esquerdo. Ele abria passagem para os avanços de Ramon e caía para dentro, povoado apenas por Piris da Motta. Por trás tinha o cinturão de três volantes. Mas dois saíam bem para o jogo: Willian Maranhão à esquerda e, principalmente, Raul à direita. Com Ríos também à direita, a vida de Renê acabou complicada, forçando a dúvida do lateral: avançar ou guardar posição? Entre uma hesitação e outra, o Vasco chegava. Rever era forçado a dar o bote fora da área. O Flamengo, de maneira até ingênua, caía na armadilha de Valentim. Estava espaçado, com buracos bem aproveitados pelos vascaínos. Uma surpresa.

Réver e Léo Duarte em Flamengo x Vasco - Foto: Staff Images
Arma impossível de ser utilizada por Mauricio Barbieri. Na rotina insistente de vazamentos de testes e escalações no Ninho do Urubu, qualquer treinador rival não é impactado por uma novidade rubro-negra. Mas além disso: o próprio técnico parece apresentar sinais de esgotamento de ideias. Estagnado em um tipo de jogo que obteve sucesso no passado, mas esfarela a cada dia, já assimilado pelos rivais e com jogadores bem menos colaborativos. Basta fechar os olhos. O Flamengo joga no 4-1-4-1, com um centroavante isolado, três meias e agora Vitinho, sempre buscando o centro para arremates de longa distância. E com o agravante de, atualmente, ser lento. Lucas Paquetá, por exemplo. Antes da Copa do Mundo era um jogador elétrico, onipresente, que conseguia compensar erros com o ímpeto. No retorno após o Mundial é blasé, insiste em dribles desnecessários e não se cansa de armar contra-ataques rivais. Sem velocidade na troca de passes, o jogo rubro-negro míngua. As mudanças, se ocorrem, são mínimas.

Barbieri iniciou a partida com Paquetá à esquerda e Diego à direita. Com a vantagem vascaína em campo, ele voltou com os meias aos seus lugares mais costumeiros. Mas o Flamengo tinha dificuldades. A saída de bola já é prejudicada com a ausência de Cuellar, no banco após o desgaste de meio de semana. Piris da Motta tem força na marcação, mas passes, em sua maioria, laterais. Não é dele a função de iniciar o jogo com o mínimo de qualidade. O retorno dos meias por dentro, Diego e Paquetá, se torna ainda mais essencial. No bote dos volantes vascaínos com o adiantar da equipe, o time rubro-negro se complicava. Era facilmente atacado, com espaços. E chegava bem próximo ao gol. Maxi López, mesmo veterano e mais pesado, dava trabalho a Léo Duarte e Rever. Em um lance, o argentino dominou após lançamento de Maranhão, invadiu a área e bateu em cima de Diego Alves. No rebote, Rever se recuperou a tempo. Era, mesmo, de surpreender: desfalcado, com quatro derrotas seguidas nas costas e dentro da zona de rebaixamento, o Vasco mandava no jogo.

O gol de Andrés Ríos com apenas 27 minutos, portanto, não foi surpresa. Estava praticamente desenhado com tantos espaços. Fabrício, livre pelo meio, achou a boa entrada de Raul no clarão entre Rever e Renê, cruzamento rasteiro, toque de Maxi Lopez após disputa com Léo Duarte e rebote para Ríos, livre, tocar para o fundo do gol. 1 a 0. Funcionava bem a estratégia de Valentim. O Flamengo se limitou a tentar arremates de longa distância e aproveitar bolas alçadas na área. Um reflexo direto da falta de ideias. Em um escanteio, Rever quase marcou de cabeça. Muito pouco para uma equipe com jogadores acima da média para padrões nacionais e que se colocava como candidata ao título. O Flamengo precisava de mudanças para sobreviver. O Vasco descia sorridente no intervalo.

O sorriso talvez tenha aumentado ao constatar, no retorno ao segundo tempo, que Mauricio Barbieri optou por manter a equipe. Nenhuma modificação. O técnico rubro-negro atravessa fase curiosa. Alçado repentinamente do cargo de auxiliar a treinador, apresentou boas ideias, oxigenou o time e fez o desempenho subir consideravelmente. Não consegue, porém, dar o passo adiante. A dificuldade em sair da fórmula que abraçou e deu certo lembra a reta final de Zé Ricardo. Diante de seus olhos, o trabalho claramente esfarela a cada jogo. A convicção nas escolhas parece ter ficado para trás. O time é mais espaçado, a troca de passes e movimentação são lentas, a escassez de ideias leva ao jogo menos apurado, mais rústico e previsível. Foram 15 bolas levantadas na área rival apenas no primeiro tempo, de acordo com o Footstats. Por mais que o Vasco, até por questão física, tivesse recuado mais na segunda etapa, o Flamengo fazia pouco. Um chute cruzado de Paquetá dentro da área, outra batida por cobertura de Vitinho por longe. Ambos defendidos por Martín Silva.

A confusa e duvidosa expulsão de Diego pelo costumeiramente fraco árbitro Luiz Flávio de Oliveira com apenas 13 minutos da etapa final parecia sacramentar o fim do clássico. A rigor, o Flamengo contou com a sorte por três vezes no duelo. Primeiro, Raul, melhor homem em campo, sentiu lesão e acabou substituído por Andrey. Em seguida, Pará cruzou na área vascaína e Luiz Gustavo, de forma atabalhoada, tocou de cabeça para o próprio gol. 1 a 1. Com um a menos, o time rubro-negro conseguiu voltar ao jogo. E Barbieri fez troca infeliz. No momento em que precisaria pressionar o rival para tentar a virada, abriu mão do centroavante. Uribe tinha as dificuldades de praxe. Pouca aproximação dos meias, desentrosamento, chances quase nulas de finalização. Mas preocupava a zaga rival, com o experiente Castán, com a sua presença. Ainda assim, acabou sacado para a entrada de Willian Arão, com Paquetá adiantado.

O terceiro sorrir da sorte ao Rubro-Negro ocorreu em episódio infeliz, com o choque de Luiz Gustavo que levou Bruno Silva a nocaute. A igualdade de jogadores a cada lado foi refeita. Àquela altura, Valentim entendeu que o empate deveria ser valorizado. Estancaria a sangria, deixaria a zona de rebaixamento, prejudicaria o rival e capitalizaria o bom desempenho na primeira etapa. Não teve dúvidas. Prendeu mais a equipe e apostou na velocidade de Marrony pela esquerda e a presença de Giovanni Augusto e Maxi López mais avançados. Barbieri fez opções um tanto quanto inusitadas. Sacou Vitinho, com poder de finalização, para a entrada Berrío. Everton Ribeiro caiu para a esquerda, com Arão por dentro. Desejava impôr velocidade e atacar em bloco para definir o jogo diante de um Vasco cansado e dedicado a se defender. A equipe, no entanto, insistia em alçar bolas à área, mesmo sem um centroavante para ocupá-la.

Seria natural que a última cartada do treinador rubro-negro fosse um homem de ataque em busca da bola salvadora. Mas Lincoln e Henrique Dourado permaneceram no banco de reservas. A troca foi de lateral por lateral. Pará por Rodinei. Não houve efeito. O Flamengo tentava trocar posições. Berrío à esquerda, Everton Ribeiro por dentro, Arão à direita. O Vasco, porém, teve a grande chance. Bola longa de Giovanni Augusto para Maxi, o centroavante, infernizar Rever, Léo Duarte, levar a bola na força, no corpo e bater cruzado, próximo à trave de Diego Alves. A chance final da partida foi rubro-negra, com uma ironia cruel: bom cruzamento de Renê à área e Arão, um volante e não centroavante, perdeu chance claríssima, com cabeçada torta, para fora.

O Vasco sorri com seu viés de alta por ter encontrado uma possibilidade de jogo após pancadas seguidas. A defesa, extremamente vazada com 79 gols em 2018, foi vazada não pelo rival, mas em lance infeliz de Luiz Gustavo. Fabrício, por dentro, passa a ser boa opção, com vitalidade. E não teve Pikachu, seu melhor jogador na temporada, em campo. Há um caminho para a luta cruel contra o rebaixamento, a amarga realidade para uma temporada que iniciou caótica para o Vasco. A tarefa é sobreviver. O contrário do rival.

Em viés de baixa, o Flamengo vive processo de esfarelamento parecido com o de 2017. Um técnico novato, com ideias esgotadas e extrema dificuldade para manter o time competitivo e com bom desempenho na reta decisiva da temporada. Difícil acreditar que, nesta batida, siga vivo na disputa por taças em curto prazo. Mauricio Barbieri teve 40 dias durante a Copa do Mundo para formular alternativas de jogo com a saída de Vinicius Junior. O Flamengo continua preso a uma fórmula já manjada por rivais. E parece lhe faltar respaldo do comando do futebol rubro-negro. Em questões básicas, como o preservar do ambiente interno com o fim de vazamentos de escalações em treinos fechados, fatais no futebol atual. E em atuações mais decisivas, como a chegada de contratações. Vitinho e Piris da Motta, por exemplo, são bons reforços que parecem ter chegado apenas para a próxima temporada. Natural, a adaptação com o carro já em plena corrida é rara. Faltam laterais para acompanhar o bom nível de outros setores da equipe. Paquetá encontra dificuldades com o sucesso repentino. O futuro rubro-negro em 2018 será jogado nesta próxima semana.

Paquetá encontra dificuldades com o sucesso repentino. O futuro rubro-negro em 2018 será jogado nesta próxima semana.

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