Explosão do Ninho reflete disparidade econômica entre Fla e Flu

GLOBO ESPORTE: A venda de Lucas Paquetá (35 milhões de euros) ao Milan consolidou o Flamengo como protagonista nas negociações de pratas da casa do futebol brasileiro. Antes, Vinicius Junior saiu por 45 milhões de euros e abriu caminho para o clube da Gávea - ainda distante das grandes conquistas no futebol profissional - mudar de patamar na lista de renomados vendedores tupiniquim.

O Rubro-Negro entrou em um seleto grupo que tem ainda o Tricolor. Apesar da grave crise financeira, Xerém resiste, forma e é parte da saída dos atuais problemas. Os rivais competem diante de um abismo financeiro - o Fla fechou balanço de 2017 com R$ 650 milhões de receitas contra R$ 227 milhões nas Laranjeiras - e medem forças, dentro de campo, neste sábado, às 17h, no Maracanã, pelo Brasileirão.


O aumento do investimento na base do Fla é algo sem precedentes. Em quatro anos, o orçamento saiu de R$ 8,2 milhões (2014) para R$ 19,6 milhões (2018) - crescimento de 139% de 2014 para 2018.

Os "Moleques de Xerém" representam importante fonte de renda no Fluminense. A partir da geração 1988, ou seja, 20 anos atrás, de acordo com levantamento do GloboEsporte.com, o Tricolor negociou 20 jogadores, totalizando 82,2 milhões de euros (R$ 359 milhões na cotação atual). Gerson, negociado com a Roma por 17 milhões de euros em 2015, é ainda a mais cara transação. Apesar do enfraquecimento financeiro da base nos últimos dois anos.

- O Fluminense tem valor agregado nas revelações e nos jogadores que daqui saíram. Além disso, a base permite ganho técnico ao time profissional. É algo histórico e que se mantém até hoje - resumiu Paulo Angioni, diretor executivo de futebol.

Lembra dele? Caio Rangel abre lista de vendas do Fla
Os garotos do Ninho explodiram nos últimos quatro anos, principalmente. Desde a venda do hoje desconhecido Caio Rangel até a última, que ainda não é oficial, de Lucas Paquetá, o Flamengo fez transações da ordem de 109,3 milhões de euros - R$ 372 milhões considerando a cotação atual -, sem levar em conta, porém, a parte da negociação que é destinada a outros donos de direitos econômicos. Como no exemplo de Paquetá, que, dos R$ 150 milhões, o Flamengo embolsa cerca de R$ 100 milhões.

A fragilidade econômica explica a recente dificuldade do Fluminense em resistir a investidas e vender mais caro suas promessas. O que ficou notório na perda de dois talentos não para o futebol do exterior, mas para o mercado interno. Douglas, que foi para o Corinthians, e Gustavo Scarpa, que buscou a Justiça para acertar com o Palmeiras, nomes da geração campeã brasileira sub-20 em 2015, renderam "apenas" 2,5 milhões de euros, dinheiro usado para pagar salários do elenco.

O boom de Xerém
Xerém começou a ser transformada na gestão Peter Siemsen. No início de 2012, após obras em campos, alojamentos, vestiários, departamento médico, fisiologia e estrutura administrativa, o Centro de Treinamento Vale das Laranjeiras (CTVL) foi reformado e resgatou a dignidade da base, conforme palavras do então presidente.

Ao mesmo tempo, a captação passou a ser mais agressiva. Fabinho, então desconhecido lateral-direito do Paulínia, atualmente um dos volantes brasileiros mais valorizados na Europa, foi o principal exemplo desse primeiro momento. Com a base já existente, o Flu chegou na final da Copa São Paulo, da Taça BH e da Copa RS. Perdeu as três.


Foi dada continuidade e, com Marcelo Teixeira como diretor da base, o Fluminense continuou captando e revelando. De 2013 a 2015, o clube investiu pesado na participação de torneios no exterior. A troca de experiência deu resultado, afinal, o clube foi bicampeão estadual sub-17 e sub-20 e campeão brasileiro sub-20 em 2015. Foi naquele ano que o Samorin, a filial na Europa, surgiu, como uma forma de complementar a formação dos atletas.


A partir de 2017, com o agravamento da crise financeira, Xerém passou a receber menos dinheiro. A base sofreu com atraso de salários, algo comum na categoria profissional.

A participação em torneios fora do país foi reduzida a dois (com despesas pagas pela organização). Este número não passou de zero na atual temporada, quando também não houve dinheiro para contratar: exceção ao volante Caio, adquirido do Londrina. E as últimas reformas no CTVL foram a do gramado sintético e a nova academia em 2016.


Formação continuada x clube vendedor
Antes das reformas que mudaram Xerém, o Flu também negociou jogadores da base. O meia Roger foi o primeiro de uma enorme lista. Foi a partir da geração 1988, porém, com as negociações do zagueiro Digão e do lateral-esquerdo Marcelo, que as vendas foram frequentes. O que comprova a formação continuada do Tricolor.

Foi a revelação sustentável em Xerém que amenizou a pior fase da história recente do clube: o fim da parceria de patrocínio da Unimed-Rio. Desde 2015, com diminuição no investimento em contratações, a solução foi usar a prata da casa. Não à toa o número de joves formados em casa aumentou no elenco profissional.

2015: 14
2016: 15
2017: 25
2018: 14

O problema é que as vendas não resolveram o problema financeiro. E a urgência em fazer receita impediu o jogo duro nas negociações para conseguir um valor maior. O caso de Gerson é um ótimo exemplo.

Vendido ao Roma por 17 milhões de euros, o meia é a maior transação do Tricolor. Foi negociado em 2015 aos 18 anos. É da mesma geração de Lucas Paquetá - ambos nasceram em 1997. Porém, o rubro-negro foi comprado pelo Milan três temporadas depois com 21 anos. Por 35 milhões de euros. Esta situação ocorreu no comparativo Marcelo x Renato Augusto. O tricolor saiu três anos antes do que o rubro-negro pela metade do preço.

Propostas recusadas e surgimento da excepcionalidade
Mesmo com a enorme dificuldade financeira, o Fluminense evitou de vender em 2018 três jogadores revelados em Xerém. O mais famoso foi Pedro, mas há também aquele que todos nas Laranjeiras acreditam ser uma excepcionalidade.

O Monterrey, do México, ofereceu 20 milhões de euros pelo camisa 9. O Tricolor recusou. Enquanto negociava com o Real Madrid, o jogador machucou o joelho direito. Antes disso, o Atalanta ofertou 6 milhões de euros por Ayrton Lucas. Houve o entendimento de que não era o momento de se desfazer do lateral.

E, por fim, Marcos Paulo: a Roma quis levar a promessa por 7,5 milhões de euros. Caso estes negócios tivessem sido feitos, o Tricolor ainda estaria na frente do rival no que diz respeito às receitas com vendas.

- Marcos Paulo pode entrar no caso da excepcionalidade. O Fluminense resistiu a uma necessidade de venda que não seria do tamanho que o clube entendia. Se o Vinicius Junior transitou no profissional, Marcos Paulo começa a fazer isso agora. Tudo depende do momento em que a instituição vive. Mesmo assim, o comparativo tem proximidades mesmo com a distância de receita. A gente reagiu e resistiu no caso do Marcos Paulo, um jogador que tem valor de mercado magnífico. E o Pedro não foi negociado por conta da facilidade, mas os valores eram substanciais - acrescentou Paulo Angioni.

Verdade que João Pedro, outro atacante do sub-17, está com a venda encaminhada ao Watford, da Inglaterra.

A revolução rubro-negra
Um dos grandes responsáveis pelo trabalho do Flamengo é Carlos Noval, hoje promovido a diretor de futebol do profissional rubro-negro. Ele reconhece que o trabalho do Tricolor era referência para todos no futebol carioca. Noval chegou em 2010, na gestão Patricia Amorim.

- Talvez o nosso sucesso se explique pela continuidade. Lógico que o Fluminense sempre foi referência na base na década de 2000 para cá. Objetivo nosso era entrar e tentar superar o Fluminense nesse sentido. É uma disputa muito sadia. Lá tem pessoas muito competentes também. Fomos trabalhando em cima disso, com metodologia própria do clube. Ano a ano, com investimento aumentando, infraestrutura melhorando, conseguimos crescer - lembra Noval.

Junto com o aumento do orçamento vieram o número de conquistas da base. Para citar apenas alguns títulos:

  • Três Copa São Paulo de Juniores entre 2011 e 2018;
  • 36 estaduais contra 22 do Fluminense nos últimos quatro anos;
  • De sexto lugar entre os times que mais receberam convocações em 2016 (15 jogadores) para segundo este ano (21) entre os mais chamados pela CBF nas divisões inferiores.
Revelações não completam 100 jogos. E Reinier, chega ao profissional?
Ao mesmo tempo que o caixa forte permite ao Flamengo fazer grandes aquisições - casos mais recentes são de Éverton Ribeiro e Vitinho - e pagar altos salários, há uma frustração, principalmente, para o torcedor, que tem pouco tempo para ver as pratas da casa em campo. Nenhuma das últimas revelações da Gávea completaram a marca simbólica de 100 partidas.

  • Renato Augusto fez 89 partidas.
  • Samir fez 86 partidas.
  • Jorge fez 82 partidas.
  • Vinicius Junior fez 69 partidas.
  • Felipe Vizeu fez 75 partidas.
  • Lucas Paquetá tem 87 jogos. Pode chegar a 97.
A próxima atração do Ninho é o garoto Reinier, de apenas 16 anos. Ele já está integrado aos juniores. O Flamengo ainda analisa o seu aproveitamento, mas a tendência é que o meia-atacante participe com mais frequência dos treinos do profissional, após a Copinha de 2019.

Noval pede calma para subir o garoto. Internamente, com assédio crescente do futebol europeu - rival do Milan, a Internazionale, já observa o garoto há um tempo -, os dirigentes sabem que o destino de Reinier é parecido ao das últimas revelações.

- Ainda está muito difícil no Brasil, não só no Flamengo, brigar economicamente com os clubes lá de fora. Tem a questão da independência financeira da família. A vontade de jogar com os melhores do mundo que estão lá fora - comenta Noval. - Estamos começando a pensar na montagem do elenco para o ano que vem. Vamos ver os pontos principais que temos que atacar. Logicamente que o Reinier é um jogador que temos que ter planejamento para ele, mas com muita calma para não queimar etapas. Tem apenas 16 anos.

Com eleição no fim do ano, o Flamengo se prepara para novo salto na estrutrura do Ninho. Com a inauguração do centro de treinamento dos profissionais no fim do ano, a mudança da base para a atual estrutura do profissional deve ser concluída até fevereiro.

- Hoje a base está muito bem estruturada. Ano que vem estamos vindo para esse módulo aqui, que hoje é do profissional. É um avanço. Vamos sair de um alojamento de 30 e poucos atletas para outro com 90 e poucos. Vai aumentar ainda mais nossa rede de captação - finaliza Noval.

O Flamengo fez transações da ordem de 109,3 milhões de euros - R$ 372 milhões considerando a cotação atual.


Postar um comentário

[facebook]

FlamengoResenha

{facebook#https://www.facebook.com/FlamengoSouRubroNegro} {twitter#https://twitter.com/FlamengoResenha} {google-plus#https://plus.google.com/u/0/107993712547525207446} {youtube#https://www.youtube.com/channel/UCiHkjDj2ljgIbiv_zUvdG6g/videos}

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Tecnologia do Blogger.
Javascript DisablePlease Enable Javascript To See All Widget