Fragilidade mental leva o Flamengo a ver o Brasileiro distante

CHUTE CRUZADOS: Pedro Henrique Torre

Ao analisarmos os resultados de um jogo, um campeonato ou uma temporada é usual debruçarmos sobre detalhes táticos ou técnicos de determinada equipe. Buscar motivos para tentar traduzir glórias e fracassos, considerando o ambiente deste ou daquele clube. Mas há, sobretudo, a parte mental. É ela que por vezes dá rumos a campanhas, jogos e temporadas. Faz times claramente inferiores resistirem a outros mais poderosos. Faz com que poderosos confirmem todo seu potencial nos momentos decisivos. Já há algum tempo, o Flamengo tem sido derrotado exatamente na cabeça. Quando é exigido mentalmente, falha. Frustra. Decepciona. Já havia empacado diante do Palmeiras num Maracanã abarrotado, com Paquetá mandando às nuvens a chance clara de vencer o jogo e reacender o campeonato. Empacou uma vez mais contra o São Paulo, neste domingo, ao ficar apenas num empate em 2 a 2. Vitinho foi o protagonista da frustração. De novo, a bola oferecida. De novo, gol escancarado. De novo, a chance da vitória nas alturas. A distância para o líder Palmeiras aumentou e a situação é praticamente irreversível.

Time do Flamengo no Morumbi - Foto: Gilvan de Souza
A necessidade de se reinventar e transformar a reta final em uma série de decisões é óbvia consequência do péssimo trabalho realizado no Ninho do Urubu durante a paralisação para a Copa do Mundo. Ali, com o adeus sem resistência explícita a Vinicius Junior, a perda de tempo com o devaneio chamado Ryan Babel e a chegada tardia de Vitinho permitiram ao time perder a passada tão bem encaixada. No desmanchar do trabalho de Mauricio Barbieri, o Flamengo abriu mão não só de tempo, mas de qualquer possibilidade de contar com uma mínima margem de erro. Não poderia mais se dar ao luxo de negociar pontos na reta final do campeonato diante da arrancada impressionante do Palmeiras. Então, o jogo mental fica acirrado. Torna-se fundamental. Diante de um rival que tem apreço justamente por isso, o controlar dos menores detalhes e a imposição psicológica, a subida da montanha se torna ainda mais ingrata.

Diego Aguirre levou o São Paulo além de sua capacidade no Campeonato Brasileiro com muita força no jogo mental. Fez um elenco bem limitado crer em possibilidades que pareciam irreais no papel. Utiliza táticas datadas das décadas de 80 e 90. Camufla garra com um jogo bem rudimentar, de bola esticada, disputa pelo alto, choque, força, contra-ataque muito veloz. Mas não só. O perfil indica a possibilidade de ignorar regras como a que exige a divulgação da escalação da equipe uma hora antes das partidas. Faltavam apenas 15 minutos para o rolar da bola quando todos enfim souberam que o São Paulo entraria em campo com três zagueiros, os laterais Reinaldo e Bruno Peres transformados em alas, Carneiro e Diego Souza no ataque. E a tarefa na cabeça: levar o Flamengo ao seu estilo de jogo.

Sem os lesionados Everton e Rojas, os pontas que aceleram o jogo de forma eficiente, tornar a partida um embate elétrico, de constante bate e volta, com bolas pelo alto era uma maneira interessante ao São Paulo de equilibrar as chances de vitória. Nada mais do que o entendimento de que permitir ao Flamengo tramar o seu jogo mais refinado, com posse de bola e tabelas, seria fatal diante de tamanha disparidade técnica. Para isso seria necessário uma imposição mental. Forçar o Flamengo a aceitar a ideia. Dito e feito. No mesmo 4-2-3-1 desde a chegada de Dorival Júnior, o time rubro-negro topou ser um participante do jogo com o estilo são-paulino. Bastou uma rebatida de Jucilei para cima. A bola viajou e Diego Souza venceu Renê pelo alto. Carneiro pegou a sobra na direita, cortou Cuellar para dentro e bateu cruzado. Réver ameaçou cortar e recuou. Na indecisão, o desvio em Liziero na área foi percado mortal para a bola se oferecer a Diego Souza. Uma patada de esquerda, no fundo da rede de César. São Paulo, ao seu estilo, 1 a 0.

Era o mundo ideal planejado por Diego Aguirre. Forçar o jogo pelo alto, com embate físico, e sair na frente em poucos minutos. Um tempo para o time se ajustar com a formação de três zagueiros. Não deu. Na saída de bola, Réver cobrou falta rapidamente para Renê na esquerda. O bom cruzamento superou Arboleda e permitiu a Uribe se antecipar a Bruno Alves. Cabeçada certeira. 1 a 1. Caberia ao Flamengo sair do jogo idealizado pela equipe de Aguirre. Colocar mais a bola no chão, trocar passes, aproximar e, enfim, tentar a finalização. Tecnicamente, dois pilares do time rubro-negro cumpriam tarde ruim. Everton Ribeiro, ponto de desafogo, buscava o meio, mas errava passes e dribles com facilidade. Cuellar, sempre irrepreensível na cobertura e nos desarmes, falhava tanto na saída de jogo, com passes errados, como em botes em falso. O Flamengo, então, manteve a postura de minimizar a posse e acelerar o jogo, principalmente pela esquerda, com Paquetá e Vitinho.

Ocorre que o primeiro uma vez mais teve dificuldades para desenvolver o seu jogo. Se no confronto diante do Palmeiras pareceu intimidado ao buscar o canto do campo após pancada de Felipe Melo nos minutos iniciais, no Morumbi Paquetá pareceu ter uma recaída. Posicionado mais à frente, próximo da marcação rival, é essencial definir rapidamente a jogada, em busca do passe ou finalização. Ao pentear por diversas vezes a bola, diminuiu a velocidade da saída rubro-negra ou acabou desarmado. É um alerta para o jogo de marcação mais feroz que o espera na Itália. O meio de campo mais recuado do primeiro semestre, com boa visão de jogo e ditando o ritmo do time ainda parece ser o jogador pelo qual o Milan se dispôs a pagar 35 milhões de euros. Além disso, mostrou estar irritadiço, com reclamações além do tom com a arbitragem e rivais. É necessário amadurecer para buscar voos mais altos na carreira.

Pela esquerda, porém, o Flamengo tem em Vitinho um alívio neste fim de temporada. Depois do início sonolento, o atacante parece entender melhor seu setor do campo. Teve um latifúndio para explorar e invariavelmente levou perigo aos defensores rivais, em especial Arboleda, forçado a deixar a área e caçar o atacante sem o apoio de Bruno Peres, uma nulidade no ataque e nada efetivo na defesa. O São Paulo dava espaços ao Flamengo justamente por forçar o jogo de bola longa, num bate e volta insistente. Tornava o jogo elétrico, emocionante, mas de pouca qualidade técnica ou até mesmo tática. Diante de um Sidão que arranca gritos de horror na arquibancada com a sua insegurança, o Flamengo pouco arriscou finalizações de fora da área. Principalmente Vitinho, geralmente o mais calibrado. A rigor, o time rubro-negro teve mais uma ótima chance de gol no primeiro tempo. Chute cruzado de Vitinho que Everton Ribeiro tocou de cabeça para o meio da área. Renê bateu em cima de Sidão e Uribe, no rebote, bateu sobre o gol vazio, perdendo chance claríssima como já fizera diante do mesmo rival no jogo do turno, no Maracanã. Era um jogo ao feitio de Aguirre, mas o risco de entregar tantos espaços ao Flamengo já era alto demais.

O segundo tempo trouxe um São Paulo diferente. Anderson Martins saiu, o sistema de três zagueiros foi desfeito e o garoto Helinho entrou na ponta direita. Carneiro foi à esquerda, com Diego Souza na frente, Liziero centralizado. Jucilei e Luan, em boa tarde com disposição incrível para aparecer no ataque e auxiliar na perseguição a Paquetá pelo meio, como volantes. Um time mais equilibrado. De novo, o cenário dos sonhos para Diego Aguirre apareceu com minutos. Helinho, um molecote de 18 anos, recebeu pela direita, limpou Renê e Cuellar com uma simples quebrada para o meio e bateu colocado, com força, no canto de César, que colaborou ao deixar um tanto de espaço entre ele e a trave. 2 a 1.

Dorival insistiu com um Flamengo de acordo com o jogo são-paulino por mais dez minutos. E cansou. Arriscou. Jogaria em meia-hora o Campeonato Brasileiro. Sacou de uma só vez Cuellar e Everton Ribeiro, pôs Diego e Geuvânio. Tentou abrir mais o time, buscando pontas dribladores e com poder de finalização. Por dentro, o toque de bola. Um 4-1-4-1 com Willian Arão como primeiro volante, ideia arriscadíssima e que acabou por derrubar Zé Ricardo em 2017. Foi um golpe certeiro. Enfim, o Flamengo abandonou a ideia de aceitar o jogo aéreo do São Paulo, o embate físico, as bolas esticadas. Com Diego e Paquetá por dentro passou a trabalhar a posse de bola, controlar melhor o jogo e a empurrar o São Paulo para a sua área. Aguirre sentiu e tentou responder com Edimar na vaga de Carneiro, adiantando de novo Reinaldo. Encolheu ainda mais o time, o que foi ainda mais fatal ao perder Luan, lesionado. Sem força no meio, o jogo se ofereceu ao Flamengo. Bastaria calma para virá-lo, tamanha a frequência com que a bola passava pela área são-paulina.

A ideia de Dorival de valorizar o jogo mais técnico, com dribles e tabelas, funcionou. Vitinho passou por Araruna e Bruno Peres com facilidade pela esquerda e cruzou rasteiro. Sidão, atrapalhado, hesitou e tentou cortar a bola com o pé. O toque matou a defesa e a bola sobrou para Rodinei, já no lugar do ineficiente Pará, invadir a área e bater forte, no fundo da rede. 2 a 2. Ficou bem claro. Ao deixar o jogo idealizado por Diego Aguirre, o Flamengo impôs a superioridade até com certa facilidade, principalmente diante de um adversário desgastado. Restava a imposição mental. Não só controlar as ações do jogo, mas transformá-las em gol. Em vitória. A jogada saiu. Arão por dentro achou Paquetá na entrada da área, à direita. A virada para a ultrapassagem de Geuvânio foi instantânea. O cruzamento, rasteiro, chegou a Vitinho, do outro lado. Como Paquetá, com o gol escancarado. Como Paquetá, o trejeito de craque para chapar com categoria. Como Paquetá, a chapada no alto da chance da vitória. De novo, a falha.

Com 57% de posse de bola, 19 finalizações contra sete, 396 passes trocados contra 200, o Flamengo entrou num jogo de um adversário que lançou 50 bolas na partida. Convidou o time rubro-negro a um duelo que tornaria as forças equilibradas. Muitos classificarão o duelo como jogão, outros jogaço – um tanto por ingenuidade, outro meramente por preguiça. Mais técnico, o Flamengo peca na mentalidade uma vez mais em um jogo decisivo na temporada. A bola de chapa, o trejeito de craque. A dificuldade em decidir um lance com absoluta convicção. A tabela apresenta uma distância de seis pontos. E indica mais um fim de ano totalmente melancólico no Ninho do Urubu.

A tabela apresenta uma distância de seis pontos. E indica mais um fim de ano totalmente melancólico no Ninho do Urubu.

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