Gabriel "MiT" critica ideia do Flamengo de dividir CT com rival

ESPN: Gabriel "MiT" Souza é um dos técnicos que mais teve sucesso no Brasil. Em seu currículo constam um título de Campeonato Brasileiro de League of Legends (CBLoL) e uma participação no Campeonato Mundial da modalidade - que é considerada até hoje como a melhor passagem do País na competição. O técnico foi também o primeiro a trazer a substituição estratégica para o cenário e, mais recentemente, participou do projeto que visava colocar o Flamengo na elite brasileira.

Segundo diversas fontes ouvidas pela reportagem, o problema começou desde quando o jogador Jincheol "Jisu" Park passou por problemas ao ficar três meses sem salário por conta de uma burocracia trabalhista.

Foto: Divulgação
Insatisfeito com salário atrasado, Jisu se recusou a treinar. Clube afirma que "burocracia" atrapalhou no pagamento e que situação do jogador vai se regularizar em breve

É claro que, assim como qualquer treinador, algumas das decisões tomada foram questionadas. Desde coisas pontuais, como drafts em certas partidas, ou até as mais contundentes, quando se viu forçado ao utilizar o streamer Matheus "Picoca" Tavares como suporte da paiN na segunda etapa do CBLoL 2016, escolher Thúlio "SirT" Carlos para ser o caçador Rubro-Negro e "colocar no banco" Danniel "Evrot" Franco no na segunda etapa do CBLoL 2018 - ele conta na entrevista abaixo que sua ideia era ter 7 jogadores atuando.

Recentemente a passagem de MiT a frente do Flamengo chegou ao fim. O anúncio feito pelo treinador nas redes sociais, em 26 de outubro, veio mirrado, sem nenhuma mensagem de despedida ao clube carioca - algo que normalmente acontece quando tudo termina bem. 

"Basicamente eu tive algumas ideias que não batiam com a organização", revelou MiT em entrevista ao ESPN Esports Brasil.

"Eu já vinha tendo alguns probleminhas, por exemplo, na demora dos coreanos chegarem. Depois, na questão logística deles, que não estavam satisfeitos com o local onde estavam. Aí teve que fazer uma mudança. Algumas divergências nessa questão estrutural. Então, eu estava sempre batendo de frente. Acho que isso foi gerando bastante atrito entre eu e o clube", conta o treinador ao relembrar os seus últimos dias no Flamengo.

Semanas antes da estreia do CBLoL, o ESPN Esports Brasil publicou que o Flamengo vinha cancelando treinos por conta de problemas internos, como a falta de pagamentos ao topo Park "Jisu" Jin-cheol por "questões burocráticas", conforme informou o Rubro-Negro à época. Como resultado, o Flamengo acabou iniciando a competição com derrota.

"Na primeira semana a gente teve uma derrota contra a IDM, confronto para o qual chegamos a treinar zero dias já que teve um problema divulgado naquela época, a questão do Jisu", diz MiT.

O técnico relembra que, naquele momento, essa situação não era confortável.

"Até esse problema ser resolvido acabamos perdendo um jogo e isso afeta todos os jogadores, obviamente. Apesar de termos colocado uma estratégia legal, o time da IDM jogou muito bem, mesmo que nós não tivéssemos a preparação que eu gostaria. Foi uma coisa que, naquele momento, me deixou preocupado", conta.

Apesar da preocupação, MiT avalia que a situação era totalmente normal para qualquer equipe.

"São problemas normais, coisa que a gente vê em time mesmo, como alguma discordância de estratégia, mas nada demais. Tanto que, algum tempo depois que eu saí, alguns jogadores vieram falar comigo. Mas não teve nenhum problema contundente como rixa de jogadores, nada disso", aponta o técnico

"Não falo que foi tudo mil maravilhas", afirma.

"A gente teve problema, sim, principalmente em questões estratégicas, ainda mais que quando você está tratando com jogadores estrangeiros e que falam outra língua, acaba ficando difícil de acertar as estratégias com todo mundo. Além do mais, bati de frente cobrando para que fossem cumpridas o que tínhamos acordado", revela MiT.

"Coisas' essas que, como noticiado pelo ESPN Esports Brasil, têm mais a ver com gestão do clube. Além do caso Jisu, MiT também bateu de frente com a Go4It, empresa que coordena e gerencia o time de esports para o Flamengo. Na época, a companhia tentou usar o gaming office do Flamengo para outra equipe que também gerenciava, o Submarino Stars, mas o técnico teria impedido.

Questionei ao treinador se esse caso colaborou para a saída do time.

"Acho que isso contribuiu. Foi um dos fatores fortes para uma decisão dessas", respondeu MiT.

"Acho que, por mais que a gente fale em N detalhes, fale N coisas, a questão é que, mesmo que isso não esteja sob minha alçada, acredito que dois times diferentes não devam dividir o mesmo centro de treinamento. Na minha cabeça isso não funciona", completa.

"A questão é meio óbvia porque a gente mexe com questões de treino. Equipes que não gostariam de marcar treinos porque poderíamos ter outro time do lado e isso poderia nos prejudicar. Eu sempre preciso pensar no meu lado como treinador do Flamengo e, por isso, que eu não concordava", explica MiT

O fato de dividir o gaming office é importante ressaltar pois, segundo MiT, não é só questão de dois times dividindo um espaço. Tratava-se de uma equipe que não tinha nada a ver com o Flamengo.

"Acho que cada time deveria ter seu próprio centro de treinamento e não dividir o local. Se fosse um Flamengo A e um Flamengo B, ok. Em duas salas diferentes? Bacana. Agora se fosse o Flamengo e qualquer outro time, não", afirma o treinador.

MiT conta ainda que tentou argumentar com a Go4It. Porém, ao que parece, essa interferência foi a gota d'água para a permanência do técnico a frente do Flamengo. "Eu disse: 'não é assim. Não se coloca um centro de treinamento de um outro time aqui' e eu acho que isso poderia incomodar até os jogadores", conta.

"Fica um pouco estranho. Como é que eu trato isso numa gestão de jogadores? Acho que são tipos de coisas que não se misturam. Cada time tem sua base, cada time tem seu centro de treinamento, cada time tem sua função", aponta.

"Eu fui contra mesmo. Falei e bati o pé, deixando bem claro que pra mim aquilo não dava. E não iria misturar os dois [clubes] enquanto eu estivesse lá pois o centro de treinamento é o local de trabalho do treinador", completa MiT.

Mas bate de frente contra o próprio chefe é algo que sabemos que não funciona no mercado de trabalho. Questionei ao MiT se ele sabia que tomando essa postura poderia estar dando um fim em sua história no Flamengo.

"Eu sabia", disse o treinador que completou falando que fez isso porque "sempre segui minha visão do cenário".

"Desde 2010, quando entrei no cenário, sempre tentei o ajudar para deixá-lo mais desenvolvido possível", conta o técnico.

"Participei da chegada da Riot no Brasil, quando o servidor estava com ping de 160. Lutei e até fiz uma música que acabou se tornando um meme, quando a fila ranqueada não estava legal. Fui lá e disse a empresa: 'olha, a fila não tá legal, tem que melhorar", afirma. A música a qual MiT se refere é "Solo queue pra eu e pra você", que você pode escutar clicando aqui.

"Como treinador eu acho que, infelizmente no Brasil, a gente não tem uma posição para intermediar os assuntos entre a chefia e a classe. Por exemplo, na fnatic tem YoungBuck e na Misfits tem o InnerFlame, que são os Chiefs of Gaming Office, que é mais ou menos o que seria o manager aqui no Brasil. Mas o manager tem um papel diferente", avalia.

MiT continua dizendo:

"O manager é o cara que vai trabalhar com o treinador na questão de gestão. Esse Chief of Gaming Office foi o que eu tive na paiN, em 2015, que é o cara que fazia a ponte com as cobranças intermediárias e passava para cima, que era o papel do Gari e do Vex. E isso foi uma coisa que funcionou bem na época porque faltava nada naquele momento e a gente conseguia fazer esse bate bola o tempo inteiro", conta.

Ao trazer essa experiência da paiN para o Flamengo, MiT se orgulha em dizer:

"Acho que tive uma participação bem grande ao mostrar 'ó é assim que se faz um time de esports', porque na ocasião eu era a única pessoa que entrou ali, naquele momento, com experiência de esports e isso falo com tranquilidade".

O técnico justifica a forte declaração relembrando "pontos-chave":

"Quando eu falo da experiência de trazer coreanos [para o Brasil] e o coreano pode ter uma adaptação diferenciada, como ficar triste nos primeiros momentos, eu sabia disso e foi uma coisa alertada. Trabalhei com seis dos dez coreanos que passaram por aqui. Trabalhei com o ReSet, com o Crown. Trabalhei um pouquinho com o Olleh, com o Lactea. Tive experiência com os dois da Keyd - DayDream e Emperor -, assim como também um pouquinho com o SuNo. Com toda essa experiência que tive com coreanos no Brasil, eu sabia como era o processo", aponta.

Voltando ao cerne da questão, se sabia que bater de frente com a organização poderia levá-lo a sair do Flamengo, MiT disse que "sabia que meu emprego estava em jogo nesse momento porque eu estava batendo de frente com alguns conflitos de interesse, mas acho que certas coisas temos que fazer. Que em algum momento a gente tem que pensar em questões estruturais porque, para fazer meu trabalho, preciso estar bem comigo mesmo", aponta.

SHRIMP E GOKU NOS LUGARES DE SIRT E EVROT

Aproveitando a ocasião, questionei MiT sobre as contratações de Lee "Shrimp" Byeong-hoon e Bruno "Goku" Miyaguchu e as dispensas de SirT e Evrot, dois jogadores que participaram da campanha que levou o Flamengo ao CBLoL, mas que não puderam voltar ao palco da principal competição do País.

MiT deixa claro que seu plano sempre foi contar com sete jogadores. "O motivo para trazer o Shrimp foi para que Jisu ampliasse seu potencial. Trazer duas pessoas da mesma região é melhor para adaptação. Mas eu não queria que o Thúlio saísse do time. Não fazia parte da minha visão. Acho que a gente conseguiria trabalhar tranquilamente com sete jogadores, sete jogadores de qualidade, explica.

O treinador continua:

"O time precisaria de um revezamento de caçador ou um outro caçador. Sempre tive muita confiança no trabalho. do Thúlio e tanto ele, quanto o Evrot acrescentariam muito em um time formado com sete jogadores. Isso é proveitoso", avalia. Com isso, MiT deixa a entender que a opção de dispensar SirT e Evrot não foi uma decisão de sua.

Fiel as próprias convicções, MiT continua dizendo porquê acredita que jogadores reservas, com capacidade de entrar no palco, é importante para um time.

"Por mais que eu via que tinha que ter algumas mudanças técnicas para o time ter uma melhora, você tem que entender o esforço que as pessoas tiveram. As pessoas fizeram um grande esforço na primeira etapa. Por mais que exista uma mudança, acho que deve existir uma competição", aponta.

O treinador conta ainda que a ideia não era escolher um caçador, mas sim um jogador sul-coreano para a rota do meio.

"A minha ideia era trazer um meio. Quando o agente coreano passou os nomes, ele apresentou alguns jogadores bons para a posição - inclusive alguns que estão disputando a LCK e indo muito bem. Jogadores de nível absurdo, mas que não estavam encaixando muito com as questões financeiras e as necessidades do time", revela.

Quanto o revezamento de jogadores, MiT dá o exemplo dos esportes tradicionais.

"Em um time de futebol, as vezes existe um jogador que não está lá de fato para jogar, mas está fazendo um papel importante que é o de controle. As vezes o jogador titular [se incentiva] a treinar mais [para manter sua posição]. Acho que isso gera um fator de evolução muito bom e e estão começando a aplicar isso no Brasil com a chegada de reservas. E tem que construir mais", opina.

FUTURO

Neste momento sem vínculos com o Flamengo, MiT está livre para procurar outros clubes. Enquanto isso, o treinador segue como um dos comandantes do reality "Gilette Ult", que está em fase de produção.

Ao lado do treinador da paiN Gaming, Thiago "Djoko" Maia, MiT está no programa que terá o objetivo de mostrar os bastidores de um time de League of Legends e o resultado disso será um draft de dois jogadores para serem contratados por grandes times do cenário: INTZ e paiN.

"A gente quer revelar novos talentos e mostrar como são essas pessoas jogando. Como é a rotina dentro de uma gaming house. A gente quer mostrar um pouco do nosso mundo", revela MiT.

"Vamos mostrar como os jogadores agem sob pressão, sobre competição entre eles mesmos - que é o que acontece no CBLoL", completa.

Sobre a participação no reality, MiT diz que "está sendo uma experiência bem legal. O pessoal que está dirigindo tem uma grande exériência pois são os mesmos que dirigiram ou produziram o Bake Off e Master Chef, grandes reality shows. Estou recebendo uma experiência muito grande de aprendizado, de como me portar na TV. Estou aprendendo um pouco mais a me comunicar e a segunda coisa é que estou conseguindo ver, pela amostragem, que a gente teve, pelos desafios que propomos, quem realmente quer entrar no competitivo", aponta.

MiT fala ainda que essa oportunidade de revelar talentos é algo que ele está gostando muito.

"Sempre tive a chance de escolher jogadores de carreira para trazer para meu time. Nunca tive uma chance de fato de ver pessoas que têm uma nota de corte legal e escolher entre 20 jogadores, prepará-los e aprimorá-los para transformá-los em profissionais. É incrível", revela.

"Não é propaganda", afirma MiT.

"É uma experiência que está adicionando muito à minha vida, de conhecer gente nova e que eu acho que pode render frutos para o cenário e para mim, como profissional", finaliza.

O fato de dividir o gaming office é importante ressaltar pois, segundo MiT, não é só questão de dois times dividindo um espaço.

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