Lomba cita virtudes e falhas no Flamengo: "Precisa ser campeão"

O GLOBO: No mundo ideal da situação, Ricardo Lomba não era o número 1 para ser candidato à presidência. Mas as situações dentro do grupo que comanda o Flamengo atualmente convergiram para que o vice-presidente de futebol, cuja influência é crescente, fosse o escolhido para concorrer ao pleito de 8 de dezembro. Respaldado pelo grupo que deu uma guinada financeira no clube, mas carregando o peso de mais uma temporada sem títulos, Lomba reconhece que tem um problema grande para resolver: fazer o Flamengo levantar taça novamente. E ele mesmo admite que está em dívida.

O que da filosofia de trabalho desse grupo político foi a principal virtude e quais foram as falhas?

Sair de uma dívida de R$ 600 milhões para ter patrimônio líquido positivo. A administração financeira foi um sucesso. A parte administrativa do clube também. Conseguir colocar um modelo de gestão com diretores executivos remunerados, profissionais, de fato, capacitados é uma grande vitória. O clube tem instalações muito melhores. O clube, como um todo, avançou demais. Esse modelo de gestão profissional se mostrou muito acertado. Obviamente, pessoas que estão nas vice-presidências desempenharam papel fundamental, colocaram os profissionais lá. A única coisa que não avançou no mesmo patamar, em que pese enxergar avanços, foi o futebol, por causa da carência de títulos. Mas ainda assim, disputamos as primeiras posições, estamos reiteradamente na Libertadores, que é um campeonato em que temos muita dificuldade. Mas, se não ganha título, fica devendo.

Foto: Divulgação
Qual a razão para o título não ter se concretizado?

É uma pergunta complexa. Fomos para uma final de Copa do Brasil e perdemos nos pênaltis, jogando bem os dois jogos. Não conseguimos ser campeões. Contra o Independiente, no Maracanã, saímos ganhando e teve um empate em um pênalti questionado. Neste ano, tivemos uma série de problemas de arbitragem, outros jogos com totais condições de ganhar, como Flamengo x Palmeiras e São Paulo x Flamengo. Temos que continuar melhorando o elenco, contratando jogadores mais qualificados, com sede de vitória, para inverter esse quadro.

Como enxerga aquela famosa frase do ex-CEO Fred Luz: "Uma hora a gente vai ganhar"?

Foi uma frase infeliz, mas imagino que ele queria dizer é que você não consegue ver um time vencedor sem ter uma estrutura por trás. Todos os times campeões têm saúde financeira, estrutura administrativa organizada, CT de qualidade, e nisso tudo o Flamengo vem avançando. O Flamengo está muito perto de ganhar, daqui a pouco vamos conseguir tirar esse peso por vitória. Toda parte de estrutura, e mesmo o elenco, é muito qualificada. 

O que acha de quem defende a ideia de voltar à estrutura de tempos passados no Flamengo, porque se ganhou título sem estar na versão "profissionalizada"?

Temos que ter um pouco de equilíbrio. Não adianta fazer aventuras financeiras que não vai conseguir honrar porque isso gera falta de pagamento de salário, que gera ação contra o clube. Entra numa ciranda negativa em que eu espero nunca mais ver o Flamengo de novo. Claro que bate o desespero, o nervosismo, a preocupação. Mas insisto que o Flamengo está no caminho certo, se estruturando para minimizar os erros nas contratações. Vamos retomar o caminho dos títulos. Outro dia até um colega fez uma pergunta: "Lomba, você não acha que o Flamengo desaprendeu a jogar Libertadores?". Eu disse que o Flamengo aprendeu em 1981. Tinha um timaço, fez uma excepcional participação, fomos campeões e nunca mais ganhamos. Não é que desaprendeu. Teve um momento maravilhoso e nunca mais conseguiu repetir. É isso o que estamos tentando agora. Seguidamente estando na Libertadores, ter essa inspiração de 1981, sem ser um voo rápido. Que consigamos manter o time conquistando reiteradas vezes a Libertadores.

Como foi a concepção da candidatura?

A candidatura a presidente do Flamengo é no mínimo um ato ousado. Emprestar o nome para uma empreitada dessa é uma mistura de coragem com ousadia. Mas nunca considerei um projeto pessoal. Quem tem como projeto pessoal ser presidente do Flamengo já começa se equivocando na largada. Você tem que fazer parte de um grupo, de um projeto de gestão que seja sustentável e possua característica que permita enfrentar um desafio desse. Acreditamos que a gestão Bandeira tirou o clube de uma situação bem ruim e conseguiu dar uma guinada, colocando o Flamengo em outro patamar. Por acreditar nisso, acho que o grupo tem credenciais suficientes para continuar à frente do Flamengo. Meu nome não era o primeiro da lista, até porque não me colocava à disposição para isso. Mas o presidente Eduardo, vendo que algumas opções ficaram pelo caminho por razões diversas e pegando como parâmetro o presidente do Fluminense, que também trabalha na Receita Federal, insistiu muito que eu poderia ser candidato. Acreditando nesse processo, contando com a turma que lá está, aceitei essa convocação. Pelo Flamengo fazemos algumas loucuras.

Como será sua distribuição de forças políticas em caso de vitória?

O regime é presidencialista, mas não tenho vocação para ser centralizador, autoritário. É um projeto de gestão de um grupo, que teve uma curva de aprendizado. Cometeu alguns equívocos, não tenha dúvida, mas avançou demais. Se tenho o apoio deles, se eles apostam em mim, a legitimidade é total. Tenho condições de estar à frente do Flamengo no próximo triênio.

Como avalia o comportamento do SóFLA e viabilidade de um eventual governo com oposição tão forte?

Não tenho nenhuma postura beligerante. Lamento muito tudo o que vem acontecendo na política do Flamengo. Como vários repetem por aí, temos que unir o Flamengo. O Flamengo unido é muito mais forte. Pessoalmente, não tenho problema com quase ninguém. Me relaciono com várias correntes políticas dentro do clube. O SóFla é um grupo que trabalha demais pelo Flamengo, já fez muita coisa pelo clube, mas não é o grupo que governa o Flamengo. No conselho diretor, de 17, há quatro membros, apenas. É um grupo que tem representatividade grande no Conselho Deliberativo. Não consigo entender essa raiva, essa crítica que as pessoas fazem de maneira  tão contundente ao grupo. Tive oportunidade no início do processo eleitoral de ouvir de outro grupo dizendo que rompeu com o SóFla... Falei que, esquecendo a eleição, gostaria de colocar as lideranças do SóFla e do seu grupo para conversarem porque não vejo sentido nesse tipo de briga. Torço para que as correntes políticas um dia se alinhem melhor e possamos ter um processo eleitoral mais brando. O que temos visto não é digno da grandeza do Flamengo. Qualquer um que ganhar vai ter o dia seguinte, terá que governar. Como isso vai acontecer? Acho importante que o clube tenha oposição forte, mas justa e honesta, com críticas construtivas. Por isso torço e farei esforços para acabar com esse clima beligerante.

E haverá participação do Bandeira de alguma forma?

O que eu acho importante falar é que gosto bastante do Bandeira, me tornei amigo dele, mas ele não será mais o presidente do Flamengo. Então, não acho justo ficar falando "mas o Bandeira...". Ele não será presidente. Sou muito mais grupo. Acho que o governo tem que ser plural, com participação de mais pessoas, de diferentes correntes, inclusive. Falaram que eu sou o candidato do SóFla. Eu não sou candidato do SóFla. Faço parte do SóFla, mas sou candidato da situação, para continuar a gestão que ali está. E o SóFla é um grupo que apoia a candidatura. Serão gestões diferentes. O Bandeira tem as características dele e eu tenho as minhas. Minha relação com ele sempre foi boa, mas friso que ele não estará mais na presidência do clube no próximo triênio.

Concorda que houve trocas de técnico em excesso nessa gestão?

Está longe de ser o ideal, mas temos que tomar algumas ações quando as coisas não estão indo no rumo que queremos. A questão do Rueda, por exemplo, não foi opção nossa. O treinador, quando não consegue mais retirar da equipe o que se espera e apresentar resultados que torcida e diretoria almejam, não ha mais o que fazer. Tentamos segurar ao máximo, apostar no trabalho de longo prazo, mas ficamos sujeitos a resultados.  Os resultados não vêm e precisamos fazer alguma coisa para mudar. É lamentável, mas não me arrependo de nenhuma das trocas que participei.

Reconhece que o timing não foi o melhor para a saída do Barbieri?

É muito fácil olhar para trás e dizer que deveria ter trocado antes. É ser engenheiro de obra pronta. É uma delícia analisar assim. Em todos os momentos que eu tive a certeza que era hora, firmei a posição e exigi a mudança. Podia ter mexido mais cedo, podia. Mas ainda não estava convencido.

O quanto é viável vender a ideia de que o Flamengo pode ter um estádio e qual vai ser o ponto decisivo para desencanarem do Maracanã?

Acabamos de ter uma reunião com o governador reeleito, que falou que tem a intenção de abrir um processo licitatório do Maracanã com a participação dos clubes. Essa sinalização muito nos agrada. Temos plena convicção de, além de sabermos fazer a parte operacional de um jogo, temos condição financeira para isso. Isso nos dá o alento que podemos assumir o Maracanã, até porque conhecemos o governo e as coisas podem não sair do jeito que imaginamos. Por isso não estamos parados. Nosso VP de patrimônio visitou mais de 40 terrenos no Rio. Estamos conversando com três terrenos. Um deles podemos nas próximas horas ou dias assinar um termo de intenção de compra, que nos daria um prazo de oito meses para ver o que faria. Temos um projeto para construção do estádio próprio.Primeiro, temos que ganhar as eleições e vamos conversar com o governo. O Maracanã já está pronto, precisa de alguns ajustes, mas vamos entender melhor como funcionaria isso. Caso não vislumbremos segurança nesse processo, a gente parte para comprar um terreno e construção do estádio.

E o contrato atual?

Vamos ter que renegociar, por conta da concessão, ou vamos ter que alugar para jogos específicos.

Como pensa em gerir a questão da bilheteria? Há uma projeção de popularização do estádio?

Pensamos em duas coisas para mexer no Maracanã, claro que depende de autorização legislativa, da PM e dos Bombeiros: o setor de visitante ter uma entrada específica para que não se perca aquela lateral em que se coloca 2 mil, 3 mil, 5 mil pessoas e mata 10 mil, 15 mil lugares. Atrás de cada gol, retirar as cadeiras para transformar em setor popular. Isso aumentaria a capacidade do Maracanã em 22 mil. Teríamos um estádio para 100 mil. Aumenta 11 mil de cada lado. Uma correta precificação mostrou que o estádio enche, fica lotado. Não faz sentido pensar em ter um estádio, seja ele o Maracanã ou o próprio, que  não esteja lotado em todos os jogos do Flamengo. Precisa ter estádio cheio, com torcida apoiando. É a forma de melhorar a performance ainda mais.

Isso afetaria o planejamento de estádio próprio?

Acho que não faz sentido construir estádio, ter o Maracanã e ainda a Gávea para trabalhar. Já iniciamos a fase 1 da reforma da arquibancada. Há mais duas fases. Pretendemos ainda fazer uma obra na subestação elétrica para comportar refletores e placar eletrônico para trazer jogos de menor importância para a Gávea, assim como de base, futebol feminino e futebol americano.  

Como melhorar a imagem do Flamengo além das fronteiras do estado?

Isso passa por uma discussão de densidade elevada, que é calendário. Mal conseguimos administrar do jeito que está. Levar jogos para outros lugares, como no Nordeste, que sempre tem uma demanda muito grande, não se tem calendário para isso. Em 2017, jogamos 86 vezes. Não dá nem para treinar. Viaja, joga, dorme, descansa, viaja... Não treina. Mas temos que construir uma alternativa. Isso também passa pelas relações com a CBF, Ferj, Conmebol... Precisamos ajustar tudo isso para que o calendário seja melhor, contando com os outros clubes, adversários dentro de campo, mas parceiros para construir um produto melhor.  A internacionalização da marca também é muito prejudicada. Não tem como jogar lá. Vamos para a Flórida Cup de novo, temos as divisões de base participando de torneios no exterior, mas ainda é um processo muito tímido, que precisamos alavancar. 

Como avalia o trabalho do Centro de Inteligência do clube?

Isso veio passando por um processo de evolução, ajuste, erros, aprendizados e melhoramentos. Contamos com a consultoria do Sandro Orlandelli. Ele fez um diagnóstico que nos deixou satisfeitos. As ferramentas que os clubes europeus usam são as que temos aqui. Ele só pontuou que precisamos de mais gente. Estamos buscando treinar e capacitar novos funcionários para usar as ferramentas. Além de fazer a análise, sair para os países vizinhos mapear os jogadores. Os dados vêm para o Flamengo e são discutidos. Alguém do Centro de inteligência vai lá, entrevista esse jogador, para entender o modelo mental do jogador, para ver se é adequado ao flamengo. Estamos usando o máximo de informações para minimizar os erros em contratações. 

Vender o Paquetá foi inevitável?

Conseguimos segurar o Paquetá até aqui. Tratamos desde o início do ano de renovação, aumento, mas entendemos o jogador. Ele tem seus anseios, quis jogar na Europa, como todo jogador. O Flamengo não queria vender, acha que é excelente jogador, identificado com a torcida com o clube, mas não tinha como segurar. Mas isso traz recursos para que a próxima gestão consiga trabalhar com um caixa melhor. 90% da venda ficam para a próxima gestão. O próximo presidente terá uma folga financeira para fazer contratações. Apesar de não sabermos se vamos estar na próxima gestão, já iniciamos o planejamento para 2019. Temos conversas adiantadas sobre o que precisamos fazer.  

Qual sua visão sobre o trabalho de base do Flamengo?

A finalidade da base é fornecer jogadores para a equipe principal. E o Flamengo vem fazendo isso muito bem. Infelizmente vendemos Vinicius e Vizeu, e agora Paquetá. Mas ainda temos uma série de jogadores - Thuler, Léo Duarte, Jean Lucas.... - e outros que estão pedindo passagem no sub-20. Vemos isso com otimismo. Somando-se outras coisas importantes, vemos a possibilidade de retardar a venda dos garotos para o exterior. Tendo mais dinheiro para investir, o atleta pode se sentir motivado a ficar. É um caminho longo, mas achamos que é muito promissor. Temos formado jogadores extraordinários, não só no sub-20. O trabalho na base é de excelência, deve ser valorizado, e é uma maneira importante para reforçar a equipe principal.  

Como avalia a era Rodrigo Caetano na diretoria de futebol? E você se inclui nesse contexto?

A análise que se faz é a mais simplista, de resultado. Os resultados não vieram, não rendeu o esperado. Ponto. Mas tive a oportunidade de trabalhar, gosto dele, é um profissional seríssimo, mas, de verdade, não conseguimos montar um elenco do Flamengo vencedor. Nossa função no futebol é fazer o flamengo campeão. Não interessa. Temos que ser campeões. Se não formos, não atingimos o objetivo. Portanto, não entregamos o que se esperava da gente. Não adianta querer medir as palavras para falar mais bonito. No Flamengo, futebol tem que ganhar. A nação rubro-negra quer um flamengo vitorioso. O Flamengo tem que ganhar sempre e tudo. Se a gente não consegue isso, o conjunto da obra não foi satisfatório. 

Quando você diz que o elenco não é vencedor...

Eu falo da característica do elenco. Não temos resultado de expressão. Ano passado, ficamos no fio da navalha. Poderia ser espetacular, e terminamos mal. Fazendo uma análise sóbria, foi um ano interessante. Campeão carioca, perdemos nas finais Copa do Brasil e Sul-Americana. Poderia ser muito melhor? Claro. Numa análise fria, de indicadores. Diria que foi um ano bom. Mas em uma análise de torcedor, não foi. Não levantamos taça. A torcida do Flamengo se alimenta disso. Precisamos ser campeão. É isso que vamos buscar incessantemente.  Nos estruturamos, estamos chegando, no caminho certo. Hoje, estou vice de futebol e acho que estamos no caminho certo. Mas como torcedor, não estou satisfeito. O Flamengo tem que ganhar tudo? É o desejável. Vai conseguir? Provavelmente, não. Mas tem que ganhar alguma coisa. Falo também como vice de futebol: estou na gestão, e o Flamengo não ganhou? Falha minha também. 

E se você perder a eleição?

Cumprimento o adversário que ganhar, desejo sorte e volto para a arquibancada, viajando atrás do Flamengo, frequentando os jogos de basquete. Jogando meu futebol no clube e à disposição. Oposição não é para ser visto como aspecto negativo. Desde que de maneira consistente e inteligente, oposição auxilia a situação. Ela mostra uma visão que não está sendo olhada. Continuarei frequentando. Não vejo sentido em sumir do mapa. Não me sentiria à vontade de ser candidato se não conhecesse as pessoas, se não estivesse lá quase todo dia. Se não fizesse isso, não me consideraria com legitimidade para ser presidente.

Lomba reconhece que tem um problema grande para resolver: fazer o Flamengo levantar taça novamente. E ele mesmo admite que está em dívida.

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