O gol que libertou a geração de ouro do Flamengo

EL PAÍS: BREILLER PIRES

Nunca antes na história nasceram tantos Rondinellis como entre o final dos anos 70 e o começo dos 80. Uma homenagem, na maior parte dos casos, ao nome incomum de um herói do time mais popular do país. O zagueiro que em 3 de dezembro de 1978, diante de um Maracanã com público superior a 120.000 torcedores, não só deu o título do Campeonato Carioca que o Flamengo não conquistava havia quatro anos, como também estabeleceu o marco para a era de consagração do clube.

“Um gol que valeu muito mais que um troféu”, descreve o ex-jogador rubro-negro, 40 anos depois de seu maior feito nos gramados.

Ganhar um campeonato estadual, a princípio, não soa grandioso para uma equipe do porte do Flamengo. Mas é preciso lembrar que, naquela época, o Carioca ostentava o prestígio de torneio “mais charmoso do Brasil”. As rivalidades locais tinham mais importância para os torcedores, sobretudo para um time que ainda não havia ganhado nenhum título nacional. E, nesse aspecto, os rubro-negros estavam devendo. Perderam a Taça Guanabara de 76 e o Estadual de 77 nos pênaltis, em ambas as ocasiões para o Vasco, seu maior rival. Fora do campo, não escapavam das gozações que insistiam em pregar as pechas de “time sem raça” e “freguês” numa das gerações mais talentosas formadas na Gávea.

Foto: Divulgação
“O Flamengo já foi bem melhor, metia medo quando entrava em campo. O time de hoje não tem a mesma garra”, dizia Roberto Dinamite, o goleador vascaíno. “Jogar contra o Flamengo? É ‘bicho’ certo pra gente”, provocava em referência à gratificação financeira que os jogadores recebiam após as vitórias no clássico. Outro que também gostava de apimentar o confronto era o zagueiro e hoje treinador, Abel Braga. “Torço para jogar a final contra o Flamengo. É o time que menos nos assusta. Não sei o que é perder para eles há um ano e oito meses.” De fato, a confiança de Abel na véspera da decisão se justificava pelo retrospecto recente entre as equipes. O Flamengo não batia o Vasco desde março de 77, quando venceu um amistoso por 2 a 1. Cinco partidas sem marcar um gol sequer no grande oponente. Já o time da Colina acumulava dez vitórias em dez jogos na Taça Rio. Embora os rivais tivessem ganhado a Taça Guanabara (equivalente ao primeiro turno), os cruzmaltinos jogavam pelo empate para ficar com o título do segundo turno. O Flamengo, por sua vez, levaria a taça do Carioca em caso de vitória.

Fazendo valer seu favoritismo, o Vasco jogava recuado, mas de forma segura, levando a crer que administraria a igualdade no placar e manteria intacta a sina do adversário. Mas, aos 41 minutos do segundo tempo, o Flamengo descola um escanteio. Para apressar a cobrança, o fotógrafo uruguaio Ruben Etchevarria, conhecido como Tche, que trabalhava à beira do gramado, escorou a bola com os pés na direção de Zico. Agilidade imprescindível para que a defesa vascaína não percebesse a entrada de Rondinelli pelo meio da área. O zagueiro aproveitou o vacilo de Abel e, agigantado pela magnífica impulsão de seu 1,76 metro, testou para o gol de Leão. Explosão no Maracanã. O Flamengo voltava a vencer o Vasco, a ser campeão carioca, a ser novamente temido pelos adversários.

“A gente sabia que, em questão de tempo, aquela geração do Flamengo vingaria”, diz Abel Braga. “Nosso time era expediente, sabia jogar com a provocação e o aspecto emocional deles, mas não dava pra segurar tantos talentos reunidos na mesma equipe.” Além de Rondinelli, a fornada de pratas da casa contava com os polivalentes Tita e Júnior e o suporte de um luxuoso meio-campo composto por Adílio, Carpegiani e Zico, o craque que, então com 25 anos, já havia levantado uma taça do Carioca como titular e camisa 10, em 74, mas estava marcado pelo pênalti perdido contra o Vasco na temporada anterior. “O gol do Rondinelli, seguido do título, nos deu a confiança que faltava para levar o Flamengo às grandes conquistas”, resume Zico.

Depois da redenção em cima do rival, o rubro-negro emendou uma sequência de 52 jogos sem perder, até hoje a maior invencibilidade do futebol nacional, juntamente com o Botafogo. Ainda sagrou-se tricampeão carioca e, de 1979 a 1983, alcançou as maiores façanhas de sua história ao arrebatar três títulos brasileiros, uma Copa Libertadores e o Mundial Interclubes. Rondinelli migrara para o Corinthians em 80, mas, como insígnia por ter cravado a pedra fundamental de uma arrancada que alçou o Flamengo ao patamar de potência internacional, recebeu do clube as faixas de campeão da América e do mundo. “Aquele gol foi o divisor de águas para a nossa geração”, diz Rondinelli ao recordar a cabeçada. “Se a gente não tivesse conquistado o título, o time provavelmente seria desfeito, ficaria com fama de vice, de perdedor.”

A fama que coube ao zagueiro é a de herói. Tanto que, durante uma breve passagem pelo Vasco, foi ovacionado por torcedores rubro-negros no palco em que se consagrou defendendo seu time do coração. Graças à entrega que sempre demonstrou em campo, também ganhou o apelido de “Deus da Raça”. Tamanha era sua identificação com o ideário de jogador raçudo que, dois dias depois do título de 78, jornais do Rio de Janeiro promoveram um encontro na Gávea entre Rondinelli e Agustín Valido, ex-ponta argentino que, assim como o defensor, marcou de cabeça contra o Vasco, a quatro minutos do fim, o gol do primeiro tricampeonato carioca para os flamenguistas, em 1944.

“Olha, meu filho, você não imagina a alegria que sinto por estar ao seu lado. Você é tudo o que eu fui para o Flamengo: raça, amor à camisa, paixão, febre de vitória”, declarou-se Valido ao ídolo recém-empossado, em alusão sutil ao fato de ter jogado com febre a final de 44. Hoje radicado em sua São José do Rio Pardo, no interior de São Paulo, Rondinelli segue acompanhando o clube pela televisão. Evita fazer críticas ao time, vice-campeão brasileiro, mas faz uma exigência: que o legado de dedicação ao manto rubro-negro deixado por nomes como ele e Valido seja devidamente honrado a cada partida. “Eu representava o torcedor do Flamengo dentro de campo. E o reconhecimento da torcida pelo esforço é o maior troféu que um jogador pode ganhar.”

A fama que coube ao zagueiro é a de herói. Tanto que, durante uma breve passagem pelo Vasco, foi ovacionado por torcedores rubro-negros.

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