Sheik vai parar e, com ele, leva o espírito do futebol dos anos 1990

GOAL: “É um grande jogador que todo mundo conhece. Um cara que põe a cara à tapa mesmo. Se tiver que falar, ele não se esconde. Sempre soube muito bem provocar o adversário e poucas vezes caiu em provocações”, disse sobre o atacante, conhecido pela personalidade forte e pelo dom de decidir jogos importantes.

Se você não soubesse de antemão quem é o protagonista deste texto e se deparasse com o relato acima, possivelmente iria imaginá-lo de camisas exageradamente largas, comemorando gols decisivos antes ou depois de ter provocado o adversário. É por este, e outros motivos, que Emerson Sheik foi, entre 2009 e até a sua aposentadoria em 2018, o último representante de uma espécie que rendia gols, títulos e manchetes em abundância: o atacante dos anos 90.

Foto: Divulgação
A grande ironia é que o tempo de Emerson Sheik nos gramados profissionais, em sua maioria quase absoluta, deu-se nas décadas 2000 e 2010. Na prática, ele ficou nacionalmente conhecido em 2009, quando chegou ao Flamengo após 11 anos de sucesso no futebol japonês e qatari (com rápida passagem pela França). Teve boa participação nos jogos finais do estadual que seria conquistado pelo Rubro-Negro, mas brilhou mesmo no Brasileirão: fez sete gols em 14 jogos antes de aceitar a oferta milionária do Al Ain, dos Emirados Árabes.

Na bagagem, levou também um reconhecimento até então inédito em seu país e muitos amigos. Ibson, autor do relato exclusivo que abre este texto, foi um deles. Em 2009, o meio-campista (atualmente no Minnesota United, dos Estados Unidos) era um dos maiores destaques daquele Flamengo, e falou com a Goal Brasil sobre a convivência com um cara que, em suas palavras, “antes de tudo, é bastante amigo e muito honesto”. Juntos, eles seriam campeões brasileiros separados e longe da Gávea, porque deixaram o clube antes do título conquistado em dezembro daquele ano. Mas se reencontrariam depois, em um momento no qual o atacante já havia garantido – bem ao seu estilo – a imortalidade e gratidão eterna de uma das maiores torcidas do Brasil.

Números de Emerson Sheik pelo Flamengo em 2009:

26 Jogos (23 como titular)
11 Gols
7 Cartões Amarelos

Antes disso, porém, Emerson passaria por grandes emoções em 2010 e esteve muito perto de voltar para o lugar em que precisou deixar de ser, oficialmente, Márcio Passos de Albuquerque. Em 1996, com a maioridade das 18 primaveras perto de decretar o fim de uma história que nem tinha primeiro capítulo, a mãe resolveu falsificar a certidão de nascimento do filho. Em nome do futebol, a troca de nome: Márcio virou Emerson. E Emerson se transformou em uma das maiores sensações da base do São Paulo - mais promissor até que Kaká, diziam alguns, sem saber ainda que o atleta era mais velho. No time principal do Tricolor fez dois gols em 1999, mas foi rapidamente negociado com o Japão: assim que ficou ciente de que Emerson era Márcio, o clube quis se livrar de eventuais punições e não dificultou a transferência. Quase uma década depois, o São Paulo esteve muito perto de ter um Emerson que já havia pagado pela falsidade ideológica, mas a oferta do Fluminense (apoiado financeiramente pela Unimed) foi maior.

Nas Laranjeiras, Emerson fez história ao ter marcado o gol que sacramentou o título brasileiro de 2010 (tirando o clube de uma fila de 26 anos), o segundo conquistado por ele de forma consecutiva. É um dos momentos mais marcantes na memória do torcedor tricolor, e de Ricardo Berna, goleiro titular naquele triunfo: “Principal lembrança do Sheik? Com certeza aquele gol contra o Guarani em 2010!!!”, disse para a Goal Brasil .

“O Sheik é um cara muito brincalhão, tranquilo, de boa convivência e muito simples, mas às vezes era abusado! É um cara vencedor e creio que isso é muito por conta dessa simplicidade dele, aliado à grande qualidade como jogador. Ele fala muito em gratidão”, completa Berna, que no início de 2011 estava sozinho no quarto da concentração quando soube que o atacante havia sido dispensado por ter cantado, no ônibus do Flu, uma musica citando o Fla.

Sheik saiu do Fluminense por um excesso de sua personalidade, mas viraria ídolo no Corinthians também por causa dela. E por causa de seu futebol, é claro. O Timão viu a chance de ter o jogador e terminaria aquela temporada de 2011 comemorando título brasileiro. Emerson, autor de seis gols na campanha, entrava para um lugar único na história até hoje: foi tricampeão consecutivo (2009, 2010 e 2011) por clubes diferentes. No ano seguinte, 2012, seria um dos protagonistas na maior conquista do Timão: a tão sonhada Libertadores da América.

Apesar de nunca ter sido um artilheiro voraz (sempre foi mais um jogador do ‘último passe’), Emerson fez gol na semifinal sobre o Santos de Neymar, que defendia a taça, mordeu a mão de argentino do Boca Juniors na final e, com dois gols seus, fez o Corinthians abocanhar o título continental com a vitória por 2 a 0 . Sheik já não precisaria fazer mais nada para ter a gratidão eterna da Fiel torcida, que se via liberta das gozações de equipes rivais, mas ainda entregou o esforço de sempre no título Mundial de Clubes meses depois.

Presente na ascensão de Emerson como um dos maiores atacantes de sua época no futebol aqui jogado, Ibson reencontrou o amigo no Corinthians em 2013 e testemunhou a sua mudança de patamar, que mesmo apesar de toda aquela moral e idolatria não havia mudado em nada seu comportamento. Um estilo pouco usual, se comparado aos anos 2010, e que também faz Ibson se lembrar de ídolos dos anos 90 (como Romário, Edmundo, Túlio ou Viola) que provocavam, prometiam e faziam.

“No futebol de hoje você não pode falar mais nada, porque vira menosprezo ao adversário, dizem que você está faltando com o respeito... mas às vezes é bom você dar uma apimentada, como ele sempre fez, e falar. Ele nunca faltou com respeito, mas sempre colocava um gostinho a mais nos jogos e isso é bacana”, disse.

A arte de desafiar o tempo é uma batalha impossível de se vencer para o mortal. Márcio Passos de Albuquerque sentiu bastante isso em 2018, sua última temporada: aos 40 anos, disputou 39 jogos e fez dois gols pelo Corinthians. Mas só chegou tão longe porque Emerson Sheik sempre levou a sua profissão, o sonho de criança, a sério. “O que vocês veem no jogo, ele é no treinamento. Sempre a mil por hora”, lembra Ibson.

Não importa se o comportamento de Márcio, que dita a sua semelhança em relação a personagens do futebol dos anos 90, tenha às vezes lhe atrapalhado. Emerson Sheik foi um jogador de seu próprio tempo, que estará eternamente nos corações dos corintianos e em boas memórias de tricolores, rubro-negros (onde teve outra passagem entre 2015 e 2016) ou até mesmo das outras equipes por onde passou. Por essa razão, foi um dos grandes e fez história.

Sheik foi, também, o único atacante neste Brasileirão 2018 que, décadas atrás, jogou e fez gol na elite do nosso futebol nos anos 90. Quer você concorde que ele tenha ou não o estilão daquela época, este já é um marco.

Pode ser que demore bastante até encontrarmos um outro cara que seja tão decisivo quanto é falastrão.

Na prática, ele ficou nacionalmente conhecido em 2009, quando chegou ao Flamengo após 11 anos de sucesso no futebol japonês e qatari.

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