Fake News não é de hoje

RENATO MAURÍCIO PRADO: Não é de hoje que convivemos com as “Fake News”. Quando comecei no jornalismo, em 1976, as chamávamos de “cascatas” e elas apareciam na imprensa com incrível (e condenável) regularidade. Tempos depois, foram rebatizadas, salvo engano pelo ex-prefeito César Maia, e passaram a se chamar factoides. Mais recentemente, como quase todas as expressões modernas, acabaram traduzidas para o inglês e chegamos ao termo atual.

É verdade que com o advento da internet, das redes sociais e de aplicativos como o Whatsapp e o Twitter, a coisa ganhou dimensão ainda maior, mas a essência continua a mesma. Espalhar mentiras, convencer alguns trouxas e, principalmente, chamar a atenção. Não vou entrar na seara política das atuais eleições, até porque, em maior ou menor escala, não se iludam, todos, vou repetir, TODOS os políticos e partidos mentem deslavadamente para obter votos. Quem acredita no contrário é ingênuo ou pateta.

Foto: Divulgação
Prefiro me ater à área esportiva onde, na ânsia de obter audiência e cliques, qualquer besteira, hoje em dia, ganha corpo e se torna assunto pretensamente relevante, gerando intermináveis discussões – e os maiores exemplos disso pode-se ver nas mesas redondas que pululam na TV a cabo, a maioria com mais de três horas de duração. Haja encheção de linguiça!

Foi assim, por exemplo, que Paolo Guerrero, quando ainda estava no Flamengo, foi “vendido” inúmeras vezes para a Rússia, a China, a Turquia e os EUA. A “fonte”, geralmente, era um obscuro jornal peruano, também em busca de qualquer coisa que ajudasse a trazer leitores.

Lembro-me de certa vez em que cheguei na redação e vi tal “cascata” no espelho do telejornal do qual eu era comentarista. Peguei, então, meu celular e disparei vários telefonemas. Para dirigentes rubro-negros, fontes na Gávea e diversos empresários. Ninguém sabia de nada. Conversei, então, com os colegas e sugeri que tal “notícia”, por mentirosa, sequer fosse ao ar. A resposta:

– Não! Isso dá audiência! A gente noticia e você comenta, contando que conversou com as suas fontes e não há nada. Pronto!

Assim eu fazia, invariavelmente, começando o comentário com uma frase bem irônica: “Isso é uma tremenda cascata”! E, vida que segue. Mas nos outros programas da casa (e dos concorrentes, também), o tema rendia horas. Terá o Flamengo condições de evitar a saída? Se ele sair, quem deverá ser o seu substituto e por aí vai. Fake News pura.

Uma das atuais diz respeito ao futuro de Neymar. Os jornais esportivos da Espanha ora o colocam no Real Madrid, ora no Barcelona. E ele segue no Paris Saint Germain, onde o príncipe, dono do clube, diz que não o venderá por preço algum. Nem há multa rescisória no seu contrato. Mas o que isso importa? O que vale é gastar tempo, elocubrando mirabolantes transações…

Em meus tempos de acompanhar a Fórmula-1, Nelson Piquet se divertia quando começava o que os pilotos chamavam de “silly season”, ou seja, a temporada das bobagens. Época em que o campeonato ia chegando ao fim e as notícias de transferências de pilotos corriam soltas pelo paddock, muitas vezes incentivadas pelos próprios, interessados em valorizar os seus “passes” ou cavar lugar em outras escuderias.

No futebol, quando eu era um jovem repórter, a época de ouro das cascatas acontecia em dezembro, quando o futebol entrava em recesso e os clubes começavam a buscar reforços para o ano seguinte. Uma divertida história desse tempo aconteceu, no final dos anos 70, quando eu era “foca” no Jornal do Brasil e, um belo dia, O Globo publicou, em letras garrafais:

“Fla quer Maradona”.

Apavorado com o “furo” que poderia ter levado, corri para a Gávea, que já encontrei lotada de repórteres de rádio, jornal e TV, para repercutir a bombástica informação. Já pensaram, Zico e Maradona, juntos no mesmo time? À época, apesar da fama, Dieguito ainda era jogador do modesto Argentino Juniors, o que fazia a transação até parecer possível.

Detalhe: o autor da matéria não estava no clube. Outro colega do Globo o substituía naquele dia e se mostrava tão atônito quanto todos nós. Conversa daqui, entrevista de lá, ninguém sabia de nada até que, finalmente, ao cair da tarde, chegou o presidente do Flamengo, Márcio Braga, que, sorrindo, desmentiu tudo.

– Não há nada disso. E o que escuto, vindo da Argentina, é que Maradona já está apalavrado com o Boca (Juniors).

Em resumo: uma tremenda cascata. Que cobrei do repórter que escrevera a reportagem, quando enfim nos encontramos, mais de uma semana depois. Resposta dele, acompanhada de uma sonora gargalhada:

– Ô, Renatinho, quem não quer o Maradona? Diz aí! Se vai conseguir contratá-lo já são outros quinhentos…

O nome do companheiro? Prefiro preservar, até porque já não está mais entre nós. Digo apenas que, anos depois, ele se tornou repórter policial e, posteriormente, apresentador de um programa sensacionalista do gênero, onde o que não faltava era… cascata! Ou, se preferirem, Fake News.

A coisa muda de nome, mas, decididamente, não é de hoje…

Foi assim, por exemplo, que Guerrero, quando ainda estava no Flamengo, foi “vendido” inúmeras vezes para a Rússia, a China, a Turquia e os EUA.

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