Botafogo escancara ferida do Flamengo

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

45 minutos do primeiro tempo. Lucas Paquetá, irritadiço, perde o controle e dá um rapa por trás em Brenner. O botafoguense tentava ganhar os segundos finais até o intervalo protegendo uma bola que havia saído pela lateral. O cartão amarelo ficou barato para o projeto de craque rubro-negro. Mas ali ficou claro: o Botafogo já engolira o Flamengo no Nilton Santos, o Engenhão. Não na bola. Simplesmente com a postura. Um ano depois, a justa vitória de 2 a 1 lembrou a mesma aula de competitividade dada pelos donos da casa aos rubro-negros em 2017. Nada mudou. Em domínios alvinegros, nova imposição. Novo vexame do Flamengo, justamente pela postura. Pouco mais de sete meses depois, o Botafogo repetiu a dose ao praticamente eliminar o rival da disputa pelo título e abrir a ferida na República do Ninho do Urubu.

Foto: Gilvan de Souza
Talvez por ter comandado o rival por tanto tempo, Zé Ricardo soubesse ser necessária a imposição por competitividade. Uma forma de impactar no jogo e aumentar a carga emocional como componente do duelo. No tradicional 4-2-3-1, o Botafogo entrou em campo ciente do que era necessário. Preços populares na arquibancada, mais cheia do que o usual, uma voz que vaiava constantemente os dois ex-alvinegros em campo – Vitinho e Willian Arão – e disputa ferrenha a cada dividida. Na técnica é difícil para o Botafogo igualar o adversário atualmente. Na competitividade, fácil superá-lo. Com o manual de instruções em mente, o time de Zé Ricardo buscou aplicar velocidade pelos lados, principalmente com Erik à direita. Talvez não contasse com tamanha surpresa: o Flamengo, de novo, indolente, pouco afeito a disputas, cedendo uma enormidade de espaços. Um rival que indicava, pela postura, ter desistido da briga pelo título.

Dorival Júnior teve rápido e imediato efeito no grupo rubro-negro. Efetivou Willian Arão, estipulou o 4-2-3-1 como formação oficial e bateu rivais de forma arrebatadora. Bastaram, porém, os jogos decisivos contra Palmeiras e São Paulo para acender o alerta: a mudança de postura do Flamengo parecia ser bem tímida. Se o desempenho tinha melhorado em relação à reta final melancólica de Mauricio Barbieri, o poder de decisão continuava a inexistir em momentos-chave, quadro iconizado com os gols perdidos de Paquetá e Vitinho contra os rivais paulistas. Diante do Botafogo, a última cartada para ser campeão brasileiro em 2018. Exigia-se postura. Desejo por taça. Mas o efeito de Dorival passara. Não foi suficiente para resistir à indolência que ataca há algumas temporadas o elenco rubro-negro. O resultado foi o inverso do primeiro turno. O 2 a 0 com facilidade, desta vez, chegou do lado alvinegro.

O Flamengo dava sinais claros de dispersão. Rever voltou a tentar investidas com a bola pelo meio. Por duas vezes, acabou facilmente desarmado e gerou perigosos contra-ataques ao Botafogo, sempre em velocidade com Erik, Valencia e Luiz Fernando. Como dito, sinais. Fortes sinais. O Botafogo entendeu. Deu passos atrás e permitiu o avançar indolente do Rubro-Negro. Paquetá, já sem o encanto inicial ao jogar mais avançado, girava a bola sob o pé sem nenhuma objetividade. Em um lateral de Marcinho, Brenner tentou o domínio e falhou. Rápido, Leo Valencia percebeu o arrancar de Erik diante da defesa rubro-negra totalmente avançada. Cuellar e Arão estavam no campo de ataque. Rever e Léo Duarte na linha de meio de campo. O veterano zagueiro, claro, não teve cobertura ou explosão para acompanhar a velocidade do atacante alvinegro. Cara a cara, o gol para fazer justiça ao jogo. 1 a 0.

Nem assim o Flamengo esboçou reação. Jogava já irritadiço, sem o mínimo de raciocínio, organização para voltar ao jogo. Leo Valencia, Matheus Fernandes e Erik trabalhavam bem o lado direito, em cima de Rever e Renê. Havia campo, espaço. Maior frieza. Faltava ao Flamengo até mesmo inteligência. Marcinho virou o jogo à esquerda. Luiz Fernando, tranquilo, dominou, girou e deu passe forte demais para Gilson à esquerda. Fatalmente ele teria pouco equilíbrio para o cruzamento. Pará decidiu não titubear. Buscou o corpo do rival sem cerimônia. O Flamengo irritadiço. De pouca inteligência. Ao contrário de Leo Valencia. Caprichado, ele cobrou a falta lateral direto para o gol. César, talvez desatento, chegou tarde para evitar o estufar da rede. Botafogo fácil. 2 a 0.

Dorival, em vão, tentou mexer com os brios da equipe promovendo troca ainda no primeiro tempo. Diego na vaga de Cuellar, em sequência de atuações abaixo do que pode render. Nos dois jogos anteriores, o camisa 10 fizera a equipe melhorar de rendimento com sua entrada. Desta vez, não. Na primeira participação dividiu bola com Brenner e recebeu um merecido cartão amarelo pela imprudência. A fica rubro-negra parecia cair aos poucos. E se transformava em lances de puro destempero. Paquetá, em seguida, deu a banda em Brenner e contou com a benevolência do árbitro para não ser expulso. Na descida para o intervalo, o Flamengo estava derrotado. No jogo, no Campeonato Brasileiro, na temporada.

Nem mesmo a breve reação com três minutos do segundo tempo, após bela troca de passes entre Vitinho, Paquetá, Everton Ribeiro e Pará até o cruzamento para a cabeçada do camisa 14 ao fundo da rede, foi capaz de animar. A diferença de temperatura das equipes era bem clara em campo. Vitinho fugia apenas um pouco à regra rubro-negra, tentando dribles, arremates de longe. Foi ele quem carimbou o travessão de Gatito em cobrança de falta logo em seguida. Mas, introspectivo, parece ainda ser incapaz de comandar uma mudança no brio da equipe. Acaba sugado pelo coletivo indolente, quase blasé em relação ao jogo. Lucas Paquetá vai encarar problemas no futebol italiano ao continuar com a mesma postura na reta final da temporada no Brasil. Parece contaminado por certa indiferença, com atitudes intempestivas e descompromissadas com o futuro. Será, ao lado de Renê e Willian Arão, um dos três desfalques rubro-negros por suspensão contra o Santos.

Ao fim, o jogo, pobre tecnicamente, foi marcado por disputas de velocidade. Moisés e Rodrigo Pimpão foram as apostas de Zé Ricardo para um Botafogo mais recuado que esperava apenas o golpe fatal diante de um adversário que pouco incomodava. Ao contrário. Mesmo com as mudanças de Dorival Júnior, com as entradas de Rodinei e Marlos Moreno, o Flamengo perdeu ainda mais a passada e ofereceu chances reais ao Botafogo de sacramentar o resultado. Pimpão carimbou o travessão de César em belo lance. Erik, por duas vezes, teve ótimas chances de frente para César. Nas duas, finalizou em cima do goleiro. Um clássico com trejeitos de pelada, com dois times já bem espaçados, cansados na reta final de temporada. Mas com um ainda em busca de manter o mínimo de competitividade. Disputava ali o seu pão com o rival. Tinha alma. Sabia que seria necessário evitar o rebaixamento. Trabalhou até o fim pelo objetivo.

Já diria o jornalista Lúcio de Castro, os números quando sob tortura revelam qualquer versão. Com 59% de posse, mesmo número de finalizações (13) e mais do que o dobro de passes trocados (404 x 178), de acordo com o Footstats, eles poderiam dizer que o Flamengo foi superior em campo. Passariam longe da realidade. De ponta a ponta, o Botafogo causou pesadelos ao rival em 2018. Derrubou no Campeonato Carioca e praticamente sacramentou o adeus ao título brasileiro. Em março causou um terremoto. Agora abre feridas muito mais profundas. O fim de ano será intenso no Ninho do Urubu. Uma reformulação de um projeto sem sucesso se anuncia. Um elenco acostumado a falhar em jogos decisivos. Para seu infortúnio, a queda de desempenho tornou todos os confrontos restantes no Brasileiro com este perfil. O golpe definitivo, uma vez mais, veio de General Severiano. Uma imposição de competitividade. Não é tudo. Mas muitas vezes basta.

O fim de ano será intenso no Ninho do Urubu. Uma reformulação de um projeto sem sucesso se anuncia.

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