Dorival admite frustração, mas diz: "Grupo pronto pra grandes coisas"

ANDRÉ ROCHA: 11 jogos, sete vitórias, três empates e uma derrota. 24 pontos conquistados. 72% de aproveitamento, acima dos 69,4% do campeão Palmeiras. Se contarmos o tempo em que trabalhou efetivamente, depois da estreia no empate contra o Bahia em Salvador um dia depois da confirmação como novo treinador, o aproveitamento de Dorival Júnior no Flamengo sobe para 77%. Atuações consistentes com a oscilação de desempenho no único revés, diante do Botafogo.

Contra o Atlético Paranaense no Maracanã encerra sua segunda passagem pelo clube, ao menos na gestão Bandeira de Melo. Sem a conquista almejada, porém com um novo patamar no mercado. Que corre por fora, mas com Renato Gaúcho renovando com o Grêmio e Abel Braga aberto a propostas de Santos e outros clubes, pode ser a solução ''caseira'' da chapa vencedora das eleições no dia oito de dezembro.

Dorival sorrindo - Foto: Gilvan de Souza / Flamengo
O rendimento da equipe e a gestão de grupo, recuperando jogadores como Willian Arão e a personalidade para enfrentar Diego Alves e convencer Diego Ribas, Everton Ribeiro e Lucas Paquetá a ficarem no banco e colaborarem são credenciais importantes para as metas a partir de 2019.

Esses são os principais pontos abordados nesta entrevista exclusiva para o blog, além de sua visão crítica sobre o futebol praticado no Brasil em relação aos grandes centros.

BLOG – Qual é o saldo desses dois meses de trabalho?

DORIVAL JÚNIOR – Não ficamos satisfeitos com a colocação final do campeonato. É uma frustração. Mas a alegria é grande pelo trabalho desenvolvido e a evolução dele em tão pouco tempo. Os atletas acreditaram na proposta, que já vinha com o Maurício Barbieri. Eu acrescentei um olhar de fora e dei umas pinceladas. Hoje a maior conquista, a meu ver, é eles perceberem que possuem uma qualidade superior ao que acreditavam ter. Acredito que é um grupo pronto para grandes conquistas que virão no momento certo.

BLOG – O time marcou 20 gols em 11 partidas sob seu comando, melhorando muito a média de gols – com Barbieri foram 38 em 26 partidas. Você saiu de Santos e São Paulo criticado porque seu time tinha a bola, porém infiltrava pouco. O que foi diferente agora, o time ou o Dorival?

DORIVAL JÚNIOR – O Santos em 2016, quando tive uma temporada completa de trabalho, criava de 12 a 16 chances de gol por partida. O ano seguinte foi complicado por muitas baixas num elenco que não era grande. No São Paulo o time saiu da zona de rebaixamento para a terceira melhor campanha no returno. Perdemos Hernanes e Pratto e emendamos o Paulista e estreia na Copa do Brasil com poucos treinamentos. Eu preciso do campo para trabalhar e no calendário brasileiro isso é impossível. Mas tive no Flamengo e focamos o trabalho em ajustar a última linha de defesa e, principalmente, o ataque através de tabelas, infiltrações, jogadores atacando espaços. Os atletas têm um cognitivo muito bom, pegaram rápido. Com a repetição de treinos e escalações veio a confiança.

BLOG – Você reclamou do calendário, mas quando aceita um trabalho num time grande brasileiro tem conhecimento das condições. Acaba virando um ciclo vicioso com transferência de responsabilidade. Como minimizar os problemas do excesso de jogos na prática?

DORIVAL JÚNIOR – O nosso trabalho é muito atropelado. No início do ano o jogador entra em campo longe das condições mínimas para estar atuando. É uma ciranda muito prejudicial e a gente acaba se acostumando, criando uma couraça. Entre jogos desgastantes fazemos treinos de posicionamento, sem intensidade, apenas de repetição de movimentos. O grande problema é que a maioria dos envolvidos não entende os processos e só cobram resultados imediatos. A pré-temporada ideal é de 40 a 45 dias. Tivemos um período de 28 a 30 dias e já foi bem melhor, mas agora regrediu novamente. Fica impossível trabalhar bem dessa forma.

BLOG – Uma solução seria escalar reservas e jovens da base nos estaduais, como o Atlético-PR faz durante todo o campeonato e o Flamengo com Carpegiani numa fase inicial para os titulares completarem os 30 dias de férias?

DORIVAL JÚNIOR – Seria uma adaptação. O ideal é que dirigentes, torcedores e jornalistas entendam e não pressionem por resultado já na primeira rodada. Eu sou defensor dos estaduais, acho fundamental para o surgimento de novos jogadores e sustentação dos times do interior. Mas já voltei de férias dia três de janeiro e no dia nove estava com o time disputando três pontos. Nós terminamos a temporada com 25 ou 26 jogos a mais que os principais times europeus. Aí dizem que o treinador brasileiro não tem qualidade. Precisamos debater isso melhor. Esses últimos jogos do Flamengo provam que com tempo a qualidade aparece.

BLOG – Nesses dois meses você teve um problema sério a solucionar: a insatisfação do Diego Alves com a reserva. O César virou titular contra o Paraná meio ''no susto'' e depois veio uma sequência de desentendimento com o goleiro e a pior série de resultados, com empates com Palmeiras e São Paulo e derrota para o Botafogo. Foi coincidência ou o problema disciplinar de um líder no elenco interferiu no rendimento da equipe?

DORIVAL JÚNIOR – A minha experiência diz que se tivesse que ocorrer algum problema seria no jogo contra o Paraná. Nós tivemos domínio das ações contra Palmeiras e São Paulo e criamos chances claras para vencer. Contra o Botafogo, sim, foi nosso pior momento. Honestamente não vejo nenhuma ligação. Sem contar a qualidade dos adversários, especialmente o campeão Palmeiras, time muito pragmático, que se defende muito bem e sabe acionar suas individualidades no ataque. A nossa tabela não foi fácil, com sete jogos como visitante em onze.

BLOG – Esse grupo de jogadores é muito criticado pela torcida por falhar em momentos decisivos. Que cenário você encontrou quando assumiu e qual a diferença hoje?

DORIVAL JÚNIOR – São grandes jogadores e a resposta sempre foi positiva. Posso citar o exemplo do Diego Ribas. De início discordou da minha decisão de colocá-lo no banco porque estava voltando de contusão. Expliquei meus motivos e pedi a ele que continuasse treinando e acreditasse no que estava dizendo. Era uma decisão técnica e tática, não má vontade. Ele foi leal, correto e profissional. Trabalhou, não reclamou externamente e voltou a ganhar oportunidades pelos próprios méritos. Foi fundamental nessa reta final.

BLOG – E o Paquetá, reagiu da mesma forma ao voltar da expulsão contra o Sport no banco?

DORIVAL JÚNIOR – Ele reconheceu que errou. O jogador é inteligente e sabe quando se equivoca. O Everton Ribeiro ficou no banco contra o Sport e nos ajudou demais no segundo tempo com um homem a menos. Aí entra a importância do exemplo. Como o Paquetá poderia reclamar de ficar fora depois de um erro se o Diego aceitou voltando de lesão e modificou jogos a nosso favor saindo do banco?

BLOG – Mas no geral o grupo é forte mentalmente?

DORIVAL JÚNIOR – São profissionais abertos a melhorar conceitos. No aspecto de liderança, jogadores como Réver, Rhodolfo e Rômulo dão muita sustentação ao grupo pela experiência. Todos são atletas de bom nível de concentração e que aos poucos foram acreditando no trabalho. Não ficamos satisfeitos com o segundo lugar, mas temos que reconhecer os muitos méritos do campeão. Somos o segundo melhor ataque, a segunda defesa menos vazada. Só uma derrota, recorde de pontos do clube nos pontos corridos, acima até do título que conquistou em 2009. Logicamente com muitos méritos também do Barbieri, a quem agradeço pelo trabalho que é alinhado à minha forma de pensar futebol. Repito: é um grupo pronto para grandes títulos muito em breve.

BLOG – Você é fã do Guardiola, que desde o Bayern de Munique e agora no Manchester City procura ampliar o repertório em relação ao Barcelona. Tem posse, mas agora adiciona contra-ataques e jogadas aéreas. O futebol mundial parece caminhar para a versatilidade, com treinadores intensos como Klopp e Simeone buscando mais controle do jogo com a bola quando necessário. Você também busca esse jogo mais inteligente, capaz de se adaptar às demandas de uma partida?

DORIVAL JÚNIOR – Há formas e formas de ganhar partidas e campeonatos. Eu tenho 13 anos de carreira e dez títulos conquistados. Tirei equipes de rebaixamentos praticamente certos. Meus times sempre buscaram essa versatilidade. O Santos de 2015/16 tinha posse, mas também um contra-ataque veloz que foi considerado o mais rápido do mundo, por chegar à área adversária em pouco tempo e com poucos passes. Para isso você precisa dos jogadores certos, que foi o que faltou no São Paulo. Sem velocidade tentávamos infiltrar com trocas de passes. No Flamengo eu tenho o Berrío que ataca espaços em velocidade e tento aproveitar o máximo de minutos que ele pode estar em campo com alta intensidade.

Quanto ao Guardiola é uma evolução natural. Tudo depende do grupo de atletas. Se eu fosse o Klopp também jogaria acelerando para acionar o seu trio de ataque com Salah, Firmino e Mané. No Bayern e agora no City o Guardiola coloca mais intensidade na pressão assim que a equipe perde a bola. Os jogadores estão sempre muito próximos. É uma maneira competitiva e agradável de jogar desde os tempos de Barcelona. Exatamente o que busco nos meus times. Mas para isso o tempo é essencial. Guardiola implantou seu modelo na primeira temporada na Inglaterra e só foi vencer na segunda. Aqui teria essa chance? No Brasil é utopia. Nossos contratos deveriam ser semanais e não anuais. Treinamos mais os reservas, porque os titulares quase sempre estão no regenerativo. Aqui cobram qualidade na quantidade. A grande pergunta que gostaria de deixar para refletirmos é: você está satisfeito com o nível de futebol apresentado em nosso país?

BLOG – E o futuro?

DORIVAL JÚNIOR – É o jogo contra o Atlético Paranaense no sábado para terminarmos bem o ano e deixarmos o nosso torcedor satisfeito com o rendimento, já que o resultado esperado não veio. Depois veremos.

Um dia depois da confirmação como novo treinador, o aproveitamento de Dorival Júnior no Flamengo sobe para 77%.

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