A hipocrisia do Cruzeiro

ESPN FC: Por João Luis Jr.

“Um amor assim violento, quando torna-se mágoa, é o avesso de um sentimento, oceano sem água”, disse Caetano Veloso em “Queixa”, uma das suas mais famosas canções na década de 80, e pode-se dizer que foi exatamente isso que aconteceu entre Flamengo e Cruzeiro recentemente. Afinal, se em 2017 o Raposão e Urubu Rei eram vistos de mãos dadas em aeroportos, visitando juntos pontos turísticos no Rio e em BH e fazendo planos para passar juntos o carnaval numa casinha de praia na Bahia, nesse começo de ano não seria exagero dizer que um reencontro entre os mascotes seria mais hostil e constrangedor do que qualquer segmento do programa “De Férias com o Ex”.

E tudo isso por conta dos bizarros desdobramentos do chamado “caso Arrascaeta”. Tudo começou quando o Flamengo, atualmente precisando de um meia diante da saída de Paquetá e possível ida de Diego para a MLS, decidiu fazer uma proposta aos empresários do uruguaio, com salários que aparentemente seriam 3x maiores do que os atualmente pagos pelo Cruzeiro. Interessados na transferência, jogador e empresário abordaram a diretoria celeste, que não reagiu bem e teria não apenas rejeitado a proposta como levado seu desagrado a público e divulgado telefones pessoais do jogador e do empresário. O contato rubro-negro continuou, o atleta seguiu sem comparecer aos treinamentos e o Cruzeiro decidiu então levar o caso até a FIFA, acusando o Flamengo de aliciamento.

Cruzeiro Caloteiro - Montagem: @b_delaurentis
Mas esse Cruzeiro que está reclamando de falta de ética do Flamengo não é o mesmo que tem mais de 50 milhões de reais em dívidas na própria FIFA? Sim. Esse Cruzeiro não deve para o próprio Flamengo? Deve, claro. O método de abordar primeiro o jogador oferecendo um salário bem maior e só depois buscar a negociação com o clube não é exatamente o mesmo que o Cruzeiro usou para tirar Arrascaeta de seu clube anterior? Com certeza, como dito pelo próprio empresário do atleta. “Fechar com o jogador primeiro e sentar com o clube depois” não é na verdade a tática principal de toda contratação de atleta no futebol brasileiro e até mundial hoje em dia? Sim senhor, exatamente.

Por que então o Cruzeiro, que depois de três anos nem pagou totalmente pela vinda do meia, subitamente se tornou o bastião da moral e da ética cristã no nosso esporte? Bem, a grosso modo porque o futebol brasileiro é uma bagunça onde ninguém respeita ninguém e no final todo mundo se ferra junto, sejam os clubes, os jogadores ou as torcidas.

Clubes reclamam quando não tem suas dívidas pagas mas adoram não pagar dívidas, treinadores criticam o imenso rodízio de técnicos mas sentam pra negociar com equipes que ainda tem um profissional no cargo, times reclamam dos contratos de televisão mas não se unem para negociar porque querem aproveitar qualquer chance de ganhar um trocado a mais do que o rival.

E nesse ambiente em que temos o nível “Felipe Melo numa dividida com o Fagner dentro de um cofre de banco” de fair play financeiro, o Flamengo vem sim adotando uma postura predatória que não é exatamente a mais ética e talvez nem seja tão boa para o clube – Arrascaeta é bom mas vale mesmo todo esse dinheiro por mês? – mas que não representa nada fora do normal. Daí temos essa cena vagamente ridícula em que o mesmo Flamengo que por tantos anos mal pagava sua conta de água hoje cobra publicamente as mais diversas dívidas e o Cruzeiro, que ignora qualquer apelo da FIFA para pagar o que deve recorre à mesma FIFA porque alguém ofereceu um salário alto demais para um jogador deles.

Teríamos um futebol melhor se os clubes negociassem de forma ética entre si, as cotas de televisão fossem distribuídas de maneira mais equilibrada e a má gestão fosse realmente punida? Claro. Mas no futebol brasileiro só se reclama quando calo que aperta é o próprio, só existe assédio quando quem faz são os outros, só se lembra que a CBF é uma palhaçada e a Conmebol é uma máfia quando o time eliminado na mão grande é o que a gente torce. E assim fica complicado pro Raposão e pro Urubu Rei voltarem passear juntos pelo Mercado Central de BH.

Atualização: após possivelmente jogar muito videogame de tirinho, o vice-presidente de futebol Cruzeiro parece ter "declarado guerra" ao Flamengo e ameaça ir atrás dos pais dos jogadores da base rubro-negra.

O atleta seguiu sem comparecer aos treinamentos e o Cruzeiro decidiu então levar o caso até a FIFA, acusando o Flamengo de aliciamento.

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