Corneta em dia, trejeitos de 2018

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

A pré-temporada, enxutíssima, nem bem se estendeu por 15 dias e 2019 já se apresentou oficialmente ao Flamengo. Em uma tarde escaldante no Maracanã, sem caras novas, 46 mil rubro-negros se dignaram a prestigiar a estreia de um campeonato que, dizem, nada vale. Pois se a bola rola, a arquibancada bate o martelo: vale sim. A vitória de 2 a 1 sobre o Bangu trouxe a certeza de que a corneta está em dia. Vitinho, em boa tarde, acabou vaiado de maneira até inexplicável. Rodrigo Caio, estreante, também ouviu resmungos por uma falha. Talvez tudo se explique na atuação com trejeitos de 2018: de novo, o Flamengo foi superior, comandou ações, pressionou o rival e não finalizou a partida de forma efetiva.

É uma característica latente deste elenco, já demonstrada neste ano, diante do Eintracht Frankfurt, na Florida Cup. A competição nos Estados Unidos, aliás, foi um bom parâmetro para medir o que acontecia no Maracanã. Talvez pelo clima, talvez pelo adversário menos exigente, o Flamengo esteve um tom abaixo. Não foi um jogo ruim. Abel manteve a ideia inicial da temporada, no 4-1-4-1, Vitinho e Everton Ribeiro abertos pelos lados e, por dentro, a mesma formação que encarou o Ajax: Arão à esquerda, Diego mais à direita. Talvez seja esse mero desencaixe que ainda confunda um pouco a troca constante de posições exigida pelo técnico. Os movimentos parecem menos naturais, em busca das passadas corretas.

Vitinho, camisa 11 do Flamengo - Foto: Alexandre Vidal
De início, o time mostrou falhas defensivas em bola aérea. Pingo, com um minuto de jogo, conseguiu passar por Rodrigo Caio e cabecear fácil após cruzamento. A boa defesa de Diego Alves evitou o gol. Mas Rodrigo Caio cometeu falha primária. Errou o tempo de bola após cobrança de lateral na área, deixou Anderson Lessa, fácil, cabecear na cara de Diego Alves. Dois minutos de temporada oficial e o Flamengo já atrás. A arquibancada, claro, chiou. Mas a reação do time foi até positiva, principalmente com Diego. Mais elétrico, o camisa 10 buscou o jogo, tentou passes mais curtos e rápidos e chegou a chamar a atenção de Willian Arão em alguns momentos por desatenção na marcação. Diego queria jogo. Caía à esquerda, buscava diálogo com Vitinho e Renê. Voltava à direita, se aproximava de Everton Ribeiro.

É um Flamengo já mais rápido, ansioso por chegar ao ataque, de forma aguda, acelerando pelos lados, principalmente pela esquerda. Vitinho, por ali, foi a grande arma ofensiva da equipe. A facilidade com que vence os duelos individuais impressiona. Assim como desperdiça as sequências. Um tanto quanto disperso, o camisa 11 parece viver por vezes em seu mundo particular, onde a arte do drible por si só lhe satisfaz. Diverte-se com isso. E falta o capricho para concluir de melhor maneira algumas finalizações. Ainda não aprendeu que o gol é a grande arma para seduzir a arquibancada. Nos passes, tem mostrado vasto repertório. Ambidestro, bate com facilidade de canhota para o meio da área. Já se entende bem com Renê e suas ultrapassagens. Em uma dessas, o lateral dividiu com Kelvin, a bola saiu pelo fundo. Sem nenhuma irregularidade anotada, Renê rolou ao meio, onde Diego, livre, ajeitou a pelota e bateu no canto esquerdo. Depois do desvio no goleiro e Felipe Dias, no desespero, tentou evitar o gol. Acabou espalmando a bola. Acabou, também, expulso e Diego, com categoria, empatou. 1 a 1.

O jogador a mais em campo tornou a tarefa mais fácil, mas atrapalhou uma melhor observação da equipe. Havia mais espaço para trabalhar a bola pelo meio e esticar em Vitinho. Diego e Arão circulavam pelo meio sem tanto combate. Havia menos perigo para Cuellar, sempre atento, cobrir um enorme espaço às costas do ataque. O Bangu, limitado, não buscava velocidade, um contra-ataque. Fechou-se no básico 4-4-1 e, quando muito, tentava alçar bolas na área. No primeiro tempo, debaixo do forte sol, o Flamengo também abusou do mesmo expediente em alguns momentos. Evitou jogadas mais trabalhadas pelo chão, troca de passes para entrar na área. Pará e Renê tentaram cruzamentos por vezes buscando até mesmo Rhodolfo e Rodrigo Caio, que subiam ao ataque. A rigor, Diego teve boa chance em cruzamento de Renê, mas, livre, finalizou em cima do goleiro Jefferson Paulino. O primeiro tempo, então, terminou empatado, de forma até frustrante para os torcedores que enchiam o Maracanã.

Ao voltar à segunda etapa, a frustração foi descontada em Vitinho. Como dito, o atacante, habilidoso e veloz, diverte-se com o drible, mas peca nas finalizações. Ao isolar uma bola da entrada da área, as vaias brotaram com mais ênfase. Talvez de forma até instintiva, o time passou a acionar mais o lado direito. Mais pelo chão, menos pelo alto. Triangulações entre Everton Ribeiro, Diego e Pará passaram a ser mais frequentes. E eficazes. Mas a virada, ironicamente, surgiu pelo alto, como em um treino numa tarde suave do Ninho do Urubu. Everton Ribeiro recebeu passe curto de Diego no escanteio e pôs com maestria na cabeça de Rhodolfo. A casquinha foi suficiente para determinar o resultado do jogo. 2 a 1.

Diante de um adversário já mais cansado, com um jogador a menos, o jogo permaneceu em um ataque contra a defesa. Daí surgiram os trejeitos de 2018. Bola à esquerda, Vitinho passa fácil por Kelvin e batia em cima do goleiro. Diego e Rhodolfo tabelavam e o zagueiro perdeu chance fácil de frente para o gol. Everton Ribeiro sofreu pênalti ao roubar bola de Dieyson e ser derrubado. Diego cobrou forte, à meia-altura, no canto direito. Jefferson buscou e evitou o terceiro gol. A velha dificuldade em matar uma partida. Abel percebeu e passou a realizar substituições. Primeiro, Thiago Santos no lugar de um vaiado Vitinho. Opção ruim. Sem jogo, o garoto não conseguiu dar sequência a praticamente nenhuma jogada no setor onde o camisa 11 passeava. Depois, acabou deslocado à direita quando Diego foi sacado e Everton Ribeiro deu passos para o meio, com Vitor Gabriel à esquerda. Em vão.

Em ritmo bem mais lento, o Flamengo tentava administrar o jogo com passes laterais. Decidido a sacar Everton Ribeiro, Abel deparou-se com um dilema interessante: não havia no banco um meia de origem, capaz de fazer uma função mais ofensiva. Um alerta ao elenco para a temporada caso Diego não permaneça além do fim de seu contrato, em julho, e Arrascaeta contabilize convocações pelo Uruguai. Entre Jean Lucas, Hugo Moura e Piris da Motta, a opção foi pelo paraguaio para fazer dupla Cuellar e fechar o meio, com Arão solto à frente. Sem a ligação eficaz entre meio e ataque, o jogo morreu. Há o que melhorar. Há peças a encaixar. Não foi ruim. Mas o Flamengo, sem tanto esforço, passou pela estreia oficial na temporada e deixou a sensação de que poderia mais mesmo com poucos dias de treino. Bem mais.

O Flamengo foi superior, comandou ações, pressionou o rival e não finalizou a partida de forma efetiva.

Postar um comentário

[facebook]

FlamengoResenha

{facebook#https://www.facebook.com/xresenhacrf} {twitter#https://twitter.com/FlaResenhaNews} {google-plus#https://plus.google.com/u/0/107993712547525207446} {youtube#https://www.youtube.com/channel/UCiHkjDj2ljgIbiv_zUvdG6g/videos}

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Tecnologia do Blogger.
Javascript DisablePlease Enable Javascript To See All Widget