Um baile tricolor sobre o milionário Flamengo no Maracanã

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

O Fla-Flu nasceu com a peculiar característica de não ser trivial. Nega-se, de qualquer maneira, a ser um clássico entre tantos outros. É, desde sua criação, um confronto umbilical. Pôs à frente ex-parceiros de um lado só para traçar capítulos históricos no futebol brasileiro. Até mesmo mundial. Uma vez mais, o Fla-Flu explodiu entre travessuras, delícias e um mar de gente preta, vermelha, verde, branco e grená. Coube a ele ser o primeiro confronto depois da tragédia no Ninho do Urubu. De maneira poética, até. Dois clubes intimamente ligados desde sempre, destinados a ser rivais, em um momento de solidariedade.

Em família. Dentro de campo, claro, são postos ambos frente a frente, cada um com suas razões pela vitória. Mas o Fla-Flu, amigos, é imprevisível. Parecia fadado a cumprir o roteiro perfeito para o lado rubro-negro: o time de estrelas, ainda abalado pela tragédia íntima, classificado mesmo a duras penas. Um gol de Luciano aos 47 minutos do segundo tempo pôs tudo por terra. Fez explodir a massa tricolor, a reviver a realidade. A nos lembrar a razão pela qual cada um dos dez garotos vitimados era apaixonado por futebol e o escolheu como missão de vida. 1 a 0 sofrido, de arrancar o grito da alma, esbanjar alegria de um lado e semear ainda mais melancolia do outro. O mostrar da superioridade de um time operário e organizado que engoliu o badalado e milionário. Um Flu. Zero Fla.

Diego em Flamengo x Fluminense - Foto: Alexandre Vidal
Os dez nomes dos meninos da tragédia ecoaram no Maracanã no início do encontro. Da arquibancada, o grito “ôôô, Garotos do Ninho!” de um lado. “A bênção, João de Deus”, do outro. No telão, as imagens. Em campo, crianças com balões brancos. Impossível não se emocionar em um Fla-Flu que, respeitosamente, se trajava de branco. Cumpria o luto de alma aberta. Impactante. Quase palpável no ar. E difícil mensurar o quanto todo este clima mexeu com o time rubro-negro. A tragédia ali, em seu quintal de treinos diários. A comoção, a falta de concentração. O rito de homenagens. Óbvio, há um impacto na preparação. Talvez isto desse até um desconto inicial ao Flamengo, absorto pela atmosfera do Maracanã. Mas havia ali um jogo a jogar. Uma vaga a disputar. Futebol, a razão de todos. O sentido de tudo.

Esperava-se, portanto, que o Flamengo e suas contratações milionárias buscassem se impôr diante do rival tecnicamente muito mais limitado. Ignorar a vantagem do empate, dominar as ações em um Maracanã com condições ideais, três quartos coloridos de preto e vermelho. Em campo, a surpresa. Abel Braga mandou o time a campo no 4-1-4-1, mas de maneira conservadora. Buscou o jogo de contra-ataque, apenas. Deu a bola ao Fluminense, permitindo ao rival ficar confortável em seu estilo de jogo. Era uma ideia simples: desejava o enorme campo atrás de um Tricolor todo adiantado. Em velocidade, fulminante. Não chegou a ser uma estratégia covarde. Pois o Flamengo não abdicou do ataque. Tentava sair de seu campo, atacar. Mas era pobre de ideias. Muito limitado. Havia duas saídas: chutões diretos de Diego Alves pra Gabigol disputar a bola à frente. Ou a bola direto em Diego, que virava, observava o correr de Everton Ribeiro e Bruno Henrique e tentava a bola esticada. O Fluminense, claro, adorou.

Fernando Diniz causou estranheza na arquibancada na estreia do ano, diante do Volta Redonda. Passado quase um mês, já é possível dizer que há uma assimilação da ideia. Não há mais resmungos quando a bola retorna ao goleiro Rodolfo. Não há mais pontos de interrogações quando os zagueiros – Digão e Matheus Ferraz – abrem lado a lado com Airton no meio para iniciar seu jogo. Ezequiel e Marlon, os laterais, disparam e viram alas. Um 4-2-3-1 totalmente mutável. O Tricolor tomou conta do jogo, imponente. E engoliu o rival. A farta troca de passes, de um lado a outro, mostrou que as tramas são pensadas e muito bem executadas. Cada jogador tricolor reconhece seu espaço no campo e segue à risca a ideia de manter a posse, acelerando o jogo a partir do meio. Nada aleatório. Deu pena do Flamengo. Pareceu um time infantil, totalmente alheio, correndo de forma constrangedora atrás da bola que lhe era negada. Entre tabelas pelos lados, o time rubro-negro abria com facilidade, gerando um verdadeiro rombo no meio. Por ali, o Fluminense avançava.

Travesso que só, o Fla-Flu tem dessas. Inverte lógicas. Superior no papel, o Flamengo penava no jogo. Inferior no campo, o time rubro-negro teve duas grandes chances no primeiro tempo. Em uma delas, a estratégia do bote deu certo e Diego enxergou Gabigol disparando pela esquerda. O passe foi certeiro, assim como o cruzamento para Bruno Henrique. Livre, no meio da área, o jogador mostrou indecisão: tentou dominar uma bola que se oferecia à frente do goleiro. Digão, atento, bloqueou a finalização. Pouco depois, em escanteio de Everton Ribeiro, Rhodolfo cabeceou sozinho, para boa defesa do xará goleiro. Lances que enganavam. A organização era toda tricolor. De forma sincronizada, Yony González, Luciano e Everaldo sufocavam a saída rubro-negra. Foi constrangedor. Quando o time rubro-negro tentava sair aos toques, como em 2018, era pressionado. Cuellar, geralmente o desafogo em temporadas passadas, não sustentava a posse com tantos marcadores de uma só vez. Em determinado momento, Rhodolfo, resignado, tocou a bola para a lateral. Momento-símbolo da derrota no campo…das ideias. O primeiro tempo chegou ao fim com quase 60% de posse de bola tricolor. 211 passes certos* contra 134 do rival. Um massacre.

Estava claro que o Tricolor teve dificuldades de abrir o placar ao esbarrar na limitação técnica. Coletivamente era superior. Tocava a bola com calma, adiantava a equipe, pressionava o Flamengo, alternava a bola de um lado ao outro, triangulava e abria espaços no rival. Mas não houve perigo de fato. Próximo à área faltava-lhe a faísca de habilidade para sair do trivial. Diniz, na segunda etapa, sacou Daniel, de fato pouco inspirado, sem achar espaços para passes agudos. Colocou Dodi, volante com força e apoio. Queria dominar de vez o meio. Abel tentou devolver apenas com as trocas dos pontas. Everton Ribeiro, o sopro de inteligência no ataque o primeiro tempo, parou na esquerda. Bruno Henrique, apenas lutador, à esquerda. Pouco mudou. O Flamengo reorganizou-se um pouco melhor defensivamente apenas. Mas Diego continuou a prender excessivamente a bola, levando sempre o bote dos tricolores. Arão não conseguia sequer infiltrar. Um pálido Flamengo.

Parecendo até poupar um pouco o desgaste, o Fluminense deu passes atrás. Arrefeceu a pressão na saída de bola e tentou ele, por alguns instantes, buscar o contra-ataque. Chamou o Flamengo. Hesitante, o time rubro-negro foi. Mas sem nenhuma organização ofensiva, não chegaria próximo do gol tricolor. A tentativa tricolor foi explorar as costas de Pará. Everaldo causou problemas ao lateral. Em uma escapada, serviu Jony González, que bateu forte na esquerda para defesa de Diego Alves. Pressionado, Abel tentou lançar suas cartas. Pôs Arrascaeta na vaga de Everton Ribeiro. Recebeu a resposta imediata, dois minutos depois: Diniz sacou Ezequiel e pôs Marquinhos Calazans. Ousadia pura. E justificável: com a velocidade do garoto dificultaria o apoio de Renê e impediria Arrascaeta de se preocupar apenas com o ataque. Bruno Silva o cobriria. E o time subiu, de novo, em bloco.


E deu apenas uma brecha para o Flamengo. Poderia ter sido fatal. Arrascaeta achou ótimo lançamento do campo de defesa para Gabigol. O camisa 9 dominou a pelota, cortou os dois zagueiros tricolores para dentro e lhe faltou fôlego. O chute saiu fraco. Natural. Obrigado a correr para todos os lados, a disputar bolas dos chutões pelo alto e o único a pressionar a saída de bola tricolor, o atacante cansou. Por vezes esbravejou com a falta de auxílio na pressão do rival. Incomodado, fazia a leitura correta: o Fla-Flu era tricolor. A necessidade de vitória fez Fernando Diniz abrir ainda mais a caixa de ideias. Sacou o outro lateral, Marlon, para pôr Caio Henrique em campo. Melhoria no passe por dentro. O time ocupava praticamente todo o campo de ataque. Parecia o Fluminense o time das estrelas. Abel tentou de novo. Por duas vezes.

Primeiro Uribe substituiu o esgotado Bruno Henrique. Gabigol posicionou-se à direita. Depois, Vitinho entrou em campo no lugar de Diego. Em uma noite ruim, o camsia 10 rubro-negro parecia ser útil ao final: pressionado, o Flamengo deveria, mesmo, manter a posse, carregar a bola, evitar a subida do ataque tricolor. Cálculo mal dado de Abel, ainda apostando na velocidade para levar a vaga. Diniz esticou Marquinhos Calazans e Caio Henrique. Esgarçou o time e fez o Flamengo, apenas com Arrascaeta como jogador capaz de ter a posse, ser o único refúgio de um rubro-negro assustado com a capacidade de perder a vaga. Deu certo. Everaldo levantou bola na área, Rhodolfo rebateu. A bola caiu no pé de Arrascaeta. Gabigol, à direita, era passe óbvio, sem pressão. O uruguaio, então, decidiu desfilar talento, à la Lucas Paquetá. A puxada na bola foi fatal. Extinguiu a opção de passe e chamou dois marcadores. Caio Henrique, por dentro, rolou rápido para Airton. Dali a Yony González, à esquerda. A defesa rubro-negra desarmada foi incapaz de bloquear o passe e a finalização sem jeito de Luciano, por baixo de Rodrigo Caio. A bola morreu no fundo da rede e fez explodir o Maracanã. Sim, o Fla-Flu se recusa a ser trivial. Aos 47 minutos do segundo tempo.

Um baile tricolor sobre o milionário Flamengo no Maracanã. 61,5% de posse de bola, dez finalizações contra oito, 423 passes trocados contra 267. Coube ao rival amargar ao vexame de 38,5% de posse, com 36 lançamentos no jogo. Engolido. O Fla-Flu se nega, mesmo, a ser um clássico como os outros. Inverte lógicas. O time superior no papel caiu em campo. Derrubado na ideia. Diniz não deu chances a Abel. Obriga o rival a se reinventar mesmo com tantos talentos em mãos. Deixou-o exposto. Prepara terreno ainda para a chegada de seu maior talento, Paulo Henrique Ganso. Futebol bem jogado. Classificação no bolso. De novo, um Fla-Flu nada trivial.

61,5% de posse de bola, dez finalizações contra oito, 423 passes trocados contra 267.

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