Flamengo apresenta o seu melhor jogo de 2019

CHUTE CRUZADO: Por Pedro Henrique Torre

Não foram raras as vezes em que se criticou o Flamengo e, consequentemente, Abel Braga por apresentar um time baseado em individualidades. Bolas longas. Muito pelo alto, pouco pelo chão. Uma implosão do caminho trilhado até 2019. Na hora certa, o primeiro jogo em casa na Libertadores, tudo mudou. Um time solidário, com troca de passes, agressivo. Sintonizado com a arquibancada, proporcionando um Maracanã em transe em uma daquelas noites de apoteose que só a alegria de ser rubro-negro explica. Um 3 a 1 na melhor apresentação do time do ano. Não apenas o placar. Na bola.

Um indício já fora dado por Abel no empate dos reservas com o Vasco no último fim de semana. Maior troca de passes, um golaço com construção desde a defesa. O retorno do time titular manteve a ideia de jogo. O Flamengo da bola longa, do lateral na área deu lugar a um time encaixado, próximo ao que teve breve reação na reta final do Campeonato Brasileiro de 2018. Inclusive na formação. Um dos grandes méritos de Dorival Júnior no apagar das luzes da última temporada foi conseguir transformar Willian Arão, de fato, em um volante. Em 2019, o camisa 5 voltou como meia, por vezes até dublê de atacante. O Flamengo, moldado no 4-1-4-1, tinha problemas. Diante da LDU, Arão foi volante. Guardou posição, auxiliou Cuellar na cobertura de espaços. Atacou no momento certo e voltou ganhar a característica de elemento surpresa. Assim, o Flamengo entrou em campo num 4-2-3-1. E se impôs.

Gabigol e Bruno Henrique no Flamengo - Foto: Divulgação
Atendeu aos anseios da arquibancada. Desde o início um time elétrico, pressionando a saída rival, recuperando rapidamente a bola. E empurrando a LDU a seu campo. O time equatoriano até ensaiou um 4-3-3, com três volantes pelo meio e a velocidade de Ayoví e Jhojan Julio pelos lados, com Aguirre, também móvel, pelo centro. A imposição rubro-negra, no entanto, configurou a equipe de Pablo Repetto em um 4-5-1 logo nos minutos iniciais. Sem a bola, sem conseguir agir. Pois o Flamengo bufava. Explodia. E funcionava muito bem. Diego saía do centro e ocupava a faixa da esquerda. Bruno Henrique entrava na área para aumentar o poder de fogo. Arão, na primeira etapa, foi inteligente. Cobria o lado direito para liberar os avanços de Pará pelo corredor, já que Everton Ribeiro caía ao meio. E o camisa 7, em dias inspirados, é jogador para se admirar. A facilidade com que dribla e passa aliada à velocidade de raciocínio o tornam facilmente no melhor jogador da equipe. Com o entrosamento de temporadas anteriores na bagagem, o time andou.

Diego, inclusive, cumpriu boa jornada, caindo do centro à esquerda, principalmente no primeiro tempo. Acelerou o jogo mais do que usual, um mérito. Ciente do que o momento exigia. Foi o protagonista da jogadaça do primeiro gol rubro-negro. Recebeu a bola e, com um toque rápido, abriu um clarão entre os marcadores equatorianos. Lançou e recebeu de volta de Renê, sempre vertical, já na área. O desencaixe da marcação abriu um clarão pelo lado direito, onde Everton Ribeiro apenas esperou o cruzamento do camisa 10 para abrir o placar com oito minutos de jogo. De pé em pé, pelo chão, com a bola saindo da defesa. Pelo segundo jogo consecutivo. 1 a 0. Então, outra boa notícia para a torcida. O Flamengo não parou. Não deu passos atrás. Continuou imponente.

A LDU apostava simplesmente nas bolas longas para que Aguirre fizesse o pivô, ajeitando para que algum meio-campista pudesse finalizar de frente para o gol de Diego Alves. Teve sucesso logo no início da partida, quando Julio chutou forte e dificultou defesa do goleiro. Mas ficou por aí. Rodrigo Caio, uma vez mais com ótima atuação, antecipou bem várias tentativas do gênero. Léo Duarte fez o mesmo por baixo, do outro lado. Com a recuperação rápida, Cuellar acelerava a Diego, daí a Bruno Henrique. Ou, numa virada, Arão acionava Everton Ribeiro. De um lado a outro, o Flamengo atacava com qualidade, boa movimentação, vertical. Elétrico. Talvez até demais.

Daí surgiram problemas: se o time jogava bem, desenvolvia seu jogo, trocava passes e chegava à área rival, também falhou nas finalizações. Teve chances preciosíssimas de matar o jogo ainda no primeiro tempo. Everton Ribeiro, por duas vezes, caiu pelo centro e mostrou a capacidade de enxergar além. Na primeira, lançamento para Diego na área. Gabigol deixou a bola passar e o camisa 10, gol aberto, corpo ajeitado, isolou a pelota. Depois, Everton achou o próprio atacante pela direita. A batida em cima de Gabbarini lhe deu o rebote e o gol aberto. De novo, a bola rumou ao alto. Um Flamengo pilhado até demais, sem a frieza necessária para definir um jogo que era só seu. A LDU esperaria um lance fortuito, um erro rubro-negro. Aconteceu quando Diego, infantilmente, deu bote em falso em Vega dentro da área. Não houve sequer uma reclamação no Maracanã, dentro ou fora de campo. Pênalti claríssimo. E, assim como diante do San José, o Flamengo recorreu a Diego Alves. A bela defesa da penalidade justificou uma vez mais o investimento em um goleiro de alto nível. Um momento-chave do jogo.

Em um torneio tão traiçoeiro quanto a Libertadores, não basta apresentar um bom futebol. Ser fatal nas chances que se apresentam é obrigatório. O jogo era fácil. O empate em 1 a 1 antes do intervalo poderia ser um fator determinante a modificar a partida. Mas era noite de apoteose. De uma torcida que, a plenos pulmões, mais do que apoiava: festejava uma noite na qual o seu Flamengo, enfim, apresentava um bom futebol – e justamente na Libertadores. Abel Braga foi contratado, principalmente, para manter a qualidade coletiva que a equipe já tinha, tornando-a mais agressiva com ajustes finos. Mas o fundamental: ter alma. Desejo. Impôr-se, duelar, medir forças. Nesta noite, conseguiu. Por isso não foi estranho ver o time ainda aguerrido na segunda etapa. Novamente com troca de passes diante de uma LDU quase inerte. Sim, o adversário apresentou fragilidades, mas era impossível tirar o mérito do Flamengo nisso: empurrou a equipe equatoriana em seu campo, determinou de quem era o mando de campo na bola. De pé em pé.

Com o avanço do tempo, claro, as pernas começaram a falhar. O desgaste físico de um jogo de tanta movimentação rubro-negra se apresentou. Foi interessante notar que ainda assim o time manteve a posse de bola, trocava muito pelo meio, com Everton Ribeiro comandando as ações de uma ponta à outra. Mas, a partir daí, o time tentou utilizar a bola longa de forma ensaiada. Diego compôs mais o meio, Arão foi liberado para disputar a bola na área. Em uma dessas investidas, de Everton Ribeiro, Bruno Henrique tentou matar a pelota e ela sobrou, oferecida, a Gabigol. O chute rasteiro, no canto esquerdo, explodiu de vez o Maracanã. 2 a 0. O alívio foi quase palpável no estádio. O Flamengo, em ótima noite, perdia chances e mantinha apenas um gol à frente. O segundo gol dissipou qualquer dúvida. A noite seria rubro-negra. Um prêmio ao time, à arquibancada e a Gabigol.

O camisa 9 demonstra alegria genuína em estar no clube. O sorriso que abre a cada gol, a disputa a cada bola parecem longe de qualquer marketing pessoal. Incorpora o espírito da massa e contribui, claro, para manter o Flamengo elétrico, sedento por ofensividade. Constrói, instintivamente, uma ponte com arquibancada. Não foi à toa que saiu para pular no colo de Abel ao ver Uribe marcar o terceiro gol logo após entrar em campo. De novo, em bola lançada à área de forma tramada. Renê a Arão, que cabeceou nos pés do colombiano. Folgados 3 a 0 que pareciam fechar a noite e abrir espaço para celebrar. Abel pareceu entender. Sacou Cuellar – ovacionado como poucas vezes nos anos recentes de Maracanã – para colocar Arrascaeta. Diego recuou. Depois, sacou Renê, de novo em alto nível, para a entrada de Trauco, que cometeu mais um pênalti infantil na partida. Borja acionou a lei do ex para fazer o de honra de uma LDU bem frágil.

Mas não só isso explica apenas os 64% de posse de bola, os 553 passes trocados e as 12 finalizações* rubro-negras na partida. Nem mesmo os problemas apresentados: dois pênaltis infantis cometidos, de novo um gol sofrido. O Flamengo optou por chegar à vitória jogando bem. Pelo chão, aproveitando as características e as qualidades de seus jogadores. Técnicos, gostam da bola em seus pés. É assim a menor a maneira de se defender. Não há problema em aproveitar, por vezes, a velocidade fulminante de Bruno Henrique, fatal com suas passadas largas. Mas apenas um Flamengo imponente, organizado, com volante cumprindo sua função e meias criativos, promoveria a apoteose que se viu no Maracanã. O Flamengo estreou em casa na Libertadores 2019 com vitória. Mas a grande notícia vai além disso: mostrou evolução e seu melhor jogo na temporada. Promissor.

Mas a grande notícia vai além disso: mostrou evolução e seu melhor jogo na temporada. Promissor.

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