Nova vitória do Flamengo em Maracanã com alma acima do tom

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

É sempre difícil explicar um Fla-Flu. É clássico daqueles que pode parecer morto e, de repente, renasce. Explode. Mas, por vezes, é conduzido com eletricidade desde o seu início. Depende do nível de rivalidade entre os jogadores dos dois times. O grau atualmente é elevado. Com tantos confrontos seguidos em tão pouco tempo, o Fla-Flu em 2019 é assim. Explosivo. Quente. Na noite desta quarta-feira, da maneira mais incendiária possível. Com muita alma. E até acima do tom. Assim como no último domingo, vitória rubro-negra. Assim como na semifinal da Taça Guanabara, quem contava com a vantagem do empate para seguir viu a vagar escorrer pelos dedos nos acréscimos. Foi assim mesmo. No Fla-Flu do caos, sorrisos rubro-negros.

Sorrisos que não foram nem abertos assim desde cedo. Ao contrário. Tão logo rolou a bola, um levantamento na área, uma disputa e um chute cruzado de Léo Santos no fundo da rede de Diego Alves. Mas no meio do caminho havia o VAR. Por angustiantes cinco minutos, o Maracanã prendeu a respiração depois de abafar, parte em contragosto, o explodir de gol no lado tricolor. Mas o vídeo foi claro: Matheus Ferraz fez falta em Rodrigo Caio na disputa. A anulação do gol pelo bandeira foi confirmada corretamente. Foi a faísca do Fla-Flu.

Everton Ribeiro ajoelhado comemorando gol do Flamengo - Foto: Alexandre Vidal
Interessante notar como a rivalidade é histórica, mas subitamente se torna pulsante de acordo com os times. Há gana, vontade, desejo de vencer o rival atualmente. Até acima do tom. Não foram poucos as chegadas duras, muitas de forma até desnecessária. A alma que transborda. Com a necessidade da vitória para avançar, Abel Braga mandou o Flamengo a campo no 4-2-3-1, mas, sem Diego e Gabigol, passou Everton Ribeiro ao centro, com Vitinho pela direita e Uribe à frente. Assim como no clássico mais recente, o time postou-se à frente. Marcação feroz, na saída de bola tricolor. Sufocante. Uma vez mais, incomodou. E surtiu efeitos.

Por mais que desta vez estivesse em campo o time titular tricolor, o lance do VAR logo no início da partida pareceu ter tirado a concentração do Fluminense. A equipe caiu na pilha. E, com isso, perdeu sua maior arma: a organização. Na eletricidade do jogo, a partida parecia não ter meio-de-campo. Um vai e volta frenético, sem a farta posse de bola tão desejada pelo Fluminense. E sem campo. Pois o Flamengo beliscava, pressionava. E acelerava. Bruno Henrique, como sempre, veloz pelo lado esquerdo. Vitinho também acelerava à direita. Uribe destoava. Embora ajudasse na pressão, teve duas boas oportunidades no primeiro tempo e concluiu mal. Parece, por vezes, ficar afoito. Com um time avançado e pressionando incessantemente o Fluminense, não foi estranho o nascer do gol rubro-negro.

Vitinho pressionou Luciano na ponta direita. O atacante tocou em Caio Henrique que, também pressionado, errou passe e tocou em Everton Ribeiro. Ao tentar o bote, o tricolor deixou Vitinho livre à direita. O chute saiu forte, cheio de veneno, e Rodolfo espalmou mal. Bruno Henrique ganhou bem a dividida e rolou para Renê bater seco, no canto esquerdo de Rodolfo. 1 a 0. Funcionava assim a pressão rubro-negra: sufocar os zagueiros e, principalmente, Caio Henrique, a grande válvula de escape de Fernando Diniz. Com um rival tão avançado, o Fluminense não se sentiu à vontade para abrir os zagueiros, trazer Airton por dentro para iniciar o jogo e liberar os zagueiros para se transformar em alas, atacando em bloco. Assim, o Tricolor ficou espaçado, sem possibilidade de toques curtos. Arão, por vezes, teve grande espaço pelo centro, enquanto Everton Ribeiro caía por toda faixa central.

A vantagem, no entanto, fez o time rubro-negro arrefecer um pouco a marcação. Pressionava apenas na intermediária, dando mais campo ao Fluminense. Talvez em seu jogo mais desorganizado na temporada, o time tricolor passou a trocar passes em vão. Ganso, desaparecido entre Ronaldo e a defesa rubro-negra, era figura nula. O time dependia, então, apenas de Everaldo para acelerar e tentar triangulações com Caio Henrique em cima de Pará. Vitinho ajudava menos na marcação do que Bruno Henrique, no outro lado. A rigor, a vitória parcial esteve longe de ser injusta. Assim como a expulsão de Bruno Henrique, uma entrada criminosa em Gilberto que mereceu o vermelho direto e mexeria com a partida no segundo tempo.

Com um a menos seria natural esperar o Flamengo mais recuado, com um 4-4-1, tentando manter a posse. Mas a equipe de Abel já tem a ideia de acelerar o jogo tão logo recupera a bola. Com um a menos, a tarefa é complicada e, além disso, desgastante. O domínio, claro, foi tricolor. Passou a trocar bola na intermediária, girar o jogo de um lado ao outro, mas sem penetrar na defesa rubro-negra. Dependeu, então, da individualidade de Everaldo uma vez mais. Em um rompante, driblou Pará e levaria vantagem também sobre Léo Duarte, mas acabou derrubado. Lance que o VAR permitiu que o árbitro acertasse. No aguardo, a torcida tricolor deu o ritmo de “A bênção João de Deus” à análise do VAR. Pênalti bem assinalado e cobrado por Jhony González, com categoria. 1 a 1.

O empate trocava o lado da vaga, mas não diminui o clima elétrico. Com um árbitro incapaz de controlar a fervura da partida no Maracanã, a eletricidade já percorria a arquibancada. E o Flamengo, então, acelerou. Mesmo com um a menos buscou a vitória a qualquer custo. Por vezes de forma até desorganizada e simplória: Everton Ribeiro mais recuado, com lançamentos à área buscando Léo Duarte. Tática antiga de Abel Braga desde os tempos mais recentes de Tricolor, mas com Gustavo Scarpa lançando Henrique e Gum na área adversária. O mérito do técnico, no caso, foi buscar mesmo o tudo ou nada, avançando o Flamengo. Lucas Silva à esquerda, Vitor Gabriel na frente e Arrascaeta na vaga de Ronaldo. Ainda com o avião nas costas, o uruguaio entrou em campo e passou a assustar justamente nos lançamentos e cobranças de escanteio. Acha com facilidade os companheiros em campo. A superação rubro-negra, no entanto, encontra reflexo em três jogadores: Rodrigo Caio, Renê e Everton Ribeiro.

Fazem ótima temporada pelo clube e agregam muito ao time. Rodrigo Caio, bem nas antecipações, é ótima opção na saída de jogo, com passes agudos e precisos. Renê, presente no ataque e consistente na defesa, foi arma importante ao atacar por dentro e por fora. Everton Ribeiro sabe cumprir o papel de esconder a bola ou distribuí-la quando necessário. Passou pelos três a classificação. Rodrigo Caio avançou até o ataque com desenvoltura, rolou em Renê à esquerda. O cruzamento encontrou Lucas Silva, que dominou mal. Acima do tom, Léo Santos empurrou o garoto de forma desnecessária, dentro da área, quando a bola já ia rumo à lateral. Pênalti claro e cobrado com maestria por Everton Ribeiro. 2 a 1.

Então, o caos se consumou. Ao confundir alma com virilidade exacerbada, os times apresentaram um espetáculo triste. De tudo um pouco. Troca de empurrões entre Ganso e o quarto árbitro, bolo de jogadores ao redor do árbitro, tumulto no túnel rumo ao vestiário. E Abel Braga, infelizmente, com um contratempo na saúde. A arquibancada sorria. O Flamengo, mesmo com um a menos, buscou a vitória, mesmo, na vontade. Finalizou sete bolas no alvo contra duas do rival. Teve 41% de posse de bola com um jogador a menos durante um tempo inteiro. E colecionou 16 desarmes*. Resultado justo, mas num espetáculo brigado da pior maneira. Um Fla-Flu do caos.

Então, o caos se consumou. Ao confundir alma com virilidade exacerbada, os times apresentaram um espetáculo triste. De tudo um pouco.

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