Vitória rubro-negra com sentimentos distintos no Maracanã

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

O Fla-Flu guarda característica peculiar. Tem gosto pelo inverso. Fácil buscar no histórico do confronto vitórias de quem estava por baixo, e desalento de quem, em teoria, era considerado superior. Não foi o caso deste Fla-Flu da Taça Rio. O Flamengo titular, favorito, venceu os reservas do Fluminense por 3 a 2. Mas o gosto na boca dos torcedores seguiu o inverso típico do clássico. Rubro-negros com uma pulga atrás da orelha após abrir 3 a 0 e sofrer dois gols. Tricolores quase orgulhosos de um time tão limitado que conseguiu ressurgir em um jogo que parecia caminhar para um vexame histórico.

Abel Braga já tinha avisado após o jogo contra o Madureira, no meio de semana, que colocaria o máximo de titulares possíveis no clássico. Cuellar, convocado, foi o único desfalque. Ronaldo continuou na posição e o time iniciou no 4-2-3-1. A dúvida, na realidade, residia sobre a postura do Flamengo. Se na semifinal da Taça Guanabara tentou trazer os titulares tricolores a seu campo e acabou engolido no jogo, apesar do placar mínimo, desta vez Abel mudou de ideia. Pressão no campo rival, apertando a saída tricolor. Funcionou bem. Muito por conta da falta de entrosamento do adversário.

Bruno Henrique, Diego e Gabigol comemorando gol no Flamengo - Foto: Alexandre Vidal
Dos titulares, Fernando Diniz tinha apenas Ganso, não inscrito na Copa Sul-Americana e descansado, e Caio Henrique na equipe. Além disso, por mais que tentasse, a equipe não conseguia repetir o jogo da principal. Daniel, escalado mais à frente como uma espécie de Yony González, não ocupava a área em momento algum. O Fluminense, ao ter a bola, tentava sair na base dos toques, mas não incomodava os zagueiros rubro-negros. Calazans e Mateus Gonçalves diferem de Everaldo e Luciano. Não entram na área. O Flamengo, mais intenso, elétrico, incomodava. Fazia um bom jogo. Toques rápidos, curtos, buscando tabelas pelo lado do campo. E tem em Everton Ribeiro um desafogo mais do que inspirado. O camisa 7, solto, cai à direita, recua, vai ao centro, aparece na esquerda. Sempre objetivo, com passes precisos, limpando a jogada. Hoje, é ele quem faz o Flamengo jogar seus melhores momentos.

Ao ter o Fluminense adiantado, Everton soube recuar para achar espaços nas costas da defesa. Assim achou Pará, que cruzou rasteiro para Gabigol chegar atrasado na pequena área. Assim recebeu belo lançamento de Diego à direita, puxando dois marcadores. Achou Pará, livre, que cruzou para trás. Bruno Henrique, já uma presença constante na área, bateu no contrapé de Agenor. 1 a 0. Se o lado direito do ataque rubro-negro reluzia a ouro, a esquerda da defesa tricolor desesperava Diniz. Mateus Gonçalves, apagadíssimo, não acompanhava os avanços de Pará. Com Arão e Everton também pelo setor, Marlon tinha enormes dificuldades. Léo Santos, com frequência, tentava ajudar saindo da área, abrindo espaços. Por ali, Pará quase marcou de cabeça após cruzamento de Renê, mas Agenor fez bela defesa. Funcionava muito bem o Flamengo. Ritmo forte, pegada no campo rival, toques rápidos, saídas em velocidade, laterais subindo. Até o time voltar a apresentar problemas.

Manter a marcação no campo rival e correr de um lado a outro, fechando as opções de passe para o time tricolor tem um preço. Desgaste. Mas o maior pecado é a falta de atenção. Foi ela que fez Rodrigo Caio forçar passe a um Willian Arão muito marcado. O camisa 5 pecou de novo ao parecer adormecido. Olhou ao lado e mal viu quando a pelota lhe fora roubada. Caio Henrique recebeu o passe, livre, na área e caprichosamente bateu no travessão. No rebote, Mateus Gonçalves cortou Rodrigo Caio e só não empatou porque Arão salvou a bola quando Diego Alves fora vencido. Mentalmente, o lance não empatou o jogo no placar, mas colocou o Fluminense em campo. Diante de um Flamengo já sem uma marcação forte na saída de bola, passou a tocar de pé em pé. O problema, claro, era o entrosamento. A um erro de passe, a defesa estava exposta. Afoito, Nino por vezes deu bote no meio de campo e sofria para frear a velocidade de Bruno Henrique. Com um jogo mais equilibrado, o Flamengo teve outras duas chances, com Arão de cabeça, no travessão, e Diego, de bicicleta, para boa defesa de Agenor.

A volta após o intervalo trouxe um Fluminense mais consciente. Dodi entrou no lugar do apagadíssimo Mateus Gonçalves e deu mais força ao meio. Mas o Flamengo foi rápido. Allan, disperso, levou bote rápido de Everton Ribeiro pelo centro. Diego fez o que dele se espera: matou com um pé e lançou com o outro. Objetivo, veloz. Tentou ser sempre agudo no clássico. Seu jogo rende mais quando o time esperar atacar. A bola, certeira, pousou nos pés de Bruno Henrique. A boa finalização indicou 2 a 0 no placar e um baque ao Fluminense. A tarde seria dura. Com o Tricolor ainda atônito, o Flamengo manteve pressão no meio de campo. De novo, deu certo. Allan errou toque fácil e a bola parou nos pés de Bruno Henrique. Gabigol recebeu quase na área, avançou e chutou cruzado. 3 a 0 com mais de meia-hora de partida pela frente. A goleada parecia inevitável. Parecia.

Estranhamente, o Flamengo preferiu não controlar mais o jogo. Recuou e deixou o Fluminense, mesmo reserva, confortável. Troca de passes desde a defesa, avançando diante de um rival que, com 3 a 0 no placar, buscava apenas o contra-ataque para fechar o jogo. Assumiu correr riscos. Convidado, o Fluminense foi. Ganso, até então apagadíssimo, apareceu no jogo ao ter mais espaços a partir do meio de campo. Acionava as passagens de Marlon e Igor Julião. Falhava, ainda, a insistência em ter Daniel como principal homem a entrar na área. Mais próximo do campo rival, o Fluminense acelerou o jogo pelo lado com Calazans. Na ginga sobre Renê, o cruzamento para Dodi, dentro da área, diminuir. 3 a 1. Diniz entendeu. Havia como assustar o Flamengo. Faltava um homem na área. Aliás, não um homem. Um garoto.

Ao sacar Allan, Caio Henrique assumiu a saída entre os zagueiros. Daniel recuou e João Pedro, um guri de 17 anos e muita vontade, passou a entrar na área. Léo Duarte e Rodrigo Caio, enfim, tinha com o que se preocupar. Mais ainda quando Igor Julião cruzou e João Pedro, fácil, venceu Pará na cabeça para diminuir a vantagem rubro-negra para um gol. Parecia impossível. Após vencer os reservas tricolores por 3 a 0, o Flamengo vira o jogo escorrer pelas mãos. Perdeu o controle. Não buscou cadenciá-lo, ter a posse e se defender com a bola nos pés. Entregou o confronto ao Fluminense. Diniz forçou ainda mais ao sacar Igor Julião para a entrada de Pablo Dyego na ponta esquerda. Seguraria Pará e Arão, obrigatoriamente. Assustado, o Flamengo recuou. Cedeu espaços. Mas, ainda assim, venceu. Por pouco.

Classificados para a semifinal da Taça Rio, Flamengo e Fluminense têm novo encontro marcado para quarta-feira. Desta vez, provavelmente, ambos com os times titulares. O gosto rubro-negro na boca saiu um tanto quanto amargo. Menos posse de bola (47%), menos passes trocados (297 x 427)* e menos finalizações (8×9). Um futebol que funcionou bem por apenas meio tempo. Motivos que fazem, do outro lado, o torcedor tricolor sair esperançoso para o próximo embate. Ainda que derrotado, o time saiu de um 3×0 contra para assinalar dois gols e quase buscar o empate. Vitorioso contrariado. Derrotado esperançoso. O Fla-Flu do inverso.

Assustado, o Flamengo recuou. Cedeu espaços. Mas, ainda assim, venceu. Por pouco.

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