Protocolar, Flamengo não toma conhecimento do Vasco na decisão

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

Talvez um desavisado que tivesse adentrado no Engenhão por mera curiosidade imaginaria se tratar ali de um jogo comum. Um duelo sem rivalidade importante, com um time superior ao outro e uma vitória apenas protocolar. Ficaria ele surpreso ao ser informado que ali no estádio estava em disputava uma final de campeonato entre dois dos maiores rivais do futebol brasileiro. A decantada disparidade entre Flamengo e Vasco além dos campos se materializou no gramado numa chuvosa tarde de domingo. E com um requinte de crueldade aos cruzmaltinos. Não foi um daqueles dias inspirados do rival, com atuação soberba, sem nenhum erro cometido. Ao contrário. O 2 a 0 da vitória rubro-negra foi alcançado em contornos de trivialidade. Protocolar. Uma partida correta. Um jogo de um time só.

Não foi nem mesmo a melhor atuação do time de Abel Braga na temporada. Ficou a uma boa distância do jogo contra a LDU pela Libertadores, por exemplo. A imposição ocorreu de forma natural, com um reconhecimento rival. Abel mandou a campo o Flamengo no 4-2-3-1, mas com uma novidade crucial: Arrascaeta na vaga de Diego. Seria de pensar que o técnico colocaria cada peça em seu lugar. Mas a entrada do camisa 14 forçou o técnico a pensar além. Tornou o ponta – Bruno Henrique – uma vez mais centroavante. Transformou o centroavante – Gabigol – em ponta. Passou o ponta direita – Everton Ribeiro – em homem centralizador. E pôs Arrascaeta em seu habitat, da esquerda ao centro. Isso, na teoria. Com a velocidade e troca de posições, o Flamengo se modificava. Arrascaeta por dentro, Everton por fora. Bruno Henrique na área com Gabigol. Confundia. Pressionava. Um time só.

Lincoln em Flamengo x Vasco - Foto: Alexandre Vidal
Pois o Vasco, do outro lado, tentou tornar o time mais cascudo com Maxi López no comando do ataque. Um 4-4-2, com o camisa 11 ao lado de Bruno Cesar, o restante da equipe mais recuada, mais sem fechar os espaços ao Flamengo. Ao contrário. O time rubro-negro, ao pressionar a saída de bola do Vasco, complicou demais a vida do rival. Restavam aos comandados de Alberto Valentim chutões em busca do pivô salvador de Maxi. Muito pouco. Marrony por vezes tinha sucesso ao combater Pará, mas nenhuma companhia. O Vasco, receoso, entricheirado no próprio campo, aceitava o rival como se tivesse em mãos um atestado de inferioridade técnica incapaz de superar. O Flamengo, então, jogou solto. Quase 60% do tempo no primeiro tempo a bola parou em seus pés.

Foi confortável deixar Cuellar responsável pela vigília de um inexpressivo ataque vascaíno. Tímido com Bruno Cesar e Maxi por dentro, insuficiente com Pikachu à direita e baseado muito na tentativa de força e velocidade de Marrony à esquerda. Era por ali, do lado do garoto vascaíno, que o Flamengo tinha força. Everton Ribeiro, Arão, Gabigol, Pará. O Flamengo tabelava, saía ao fundo e…cruzava. Até exageradamente. Bateu em 25 cruzamentos na primeira etapa. Cercava, movimentada, cruzava…e foi incapaz de finalizar o jogo, tamanho volume que apresentava. Com os zagueiros posicionados ao menos na risca do meio de campo, o único risco seria sofrer um contra-ataque fulminante. Em um lance, quase aconteceu. Casquinha de Marrony para Maxi entrar na área em boa condição. Mas, lento, o atacante não foi páreo para a ótima recuperação de Léo Duarte, que travou o chute cruzado. E o clássico, incrivelmente, terminou sem gols no primeiro tempo.

Parecia impossível que, a continuar assim, o Vasco resistisse. Bastaria uma conclusão bem feita, uma jogada um pouco mais trabalhada do Flamengo. A rigor, o time rubro-negro voltou da mesma maneira. Pressão no campo rival, ataque em bloco, triangulações. Mas houve uma diferença: Arrascaeta caiu mais por dentro. Quando Everton Ribeiro abria à esquerda, o meia uruguaio teve espaço às costas de Raul e Lucas Mineiro para desfilar sua melhor qualidade: a capacidade de enxergar espaços para os companheiros. Ainda mais com os velocistas. Com um toque simples, direto, objetivo, pôs Bruno Henrique e depois Gabigol frente a frente com Fernando Miguel. Sabe achar brechas nas defesas. Dá maior fluidez ao jogo. Ainda mais diante de um Vasco incapaz de oferecer resistência.

Valentim tentou a troca de Bruno Cesar pelo garoto Lucas Santos. Baixinho, veloz, tem qualidade. Mas diante de um Flamengo mais atento na defesa, buscando o bote seguro para adiantar o jogo, encontrou dificuldades. Raul e, principalmente, Lucas Mineiro não conseguiam iniciar o jogo vascaíno, sufocado. Ao perder a consistência defensiva no jogo aéreo, o Vasco sucumbiu. Espaçado, o time viu o Flamengo tramar jogadas com tranquilidade até a intermediária e, dali, alçar bolas. Em uma delas, o gol chegou. Danilo Barcelos cortou mal o cruzamento de Everton Ribeiro. Bruno Henrique, atento na segunda trave, bateu de primeira. 1 a 0. A aposta da Abel funcionava.

Se diante do San José o ponta mostrou dificuldades em encarar o jogo como centroavante, contra do Vasco foi diferente. Incomodou no jogo área, apareceu para concluir e soube alternar os passos na área com Gabigol. Difícil contestar seu aproveitamento por ali. Mostrou oportunismo, como no gol mal anulado pelo árbitro Rodrigo Nunes de Sá mesmo, pasmem, com a revisão por meio do VAR. Werley iniciou nova jogada e deu outra direção à bola. Rumo à direita, foi à esquerda e encontrou os pés de Bruno Henrique, que marcou. Mas não valeu. Ainda assim, apenas reforçou a impressão: o Vasco, já mais desgastado, abria espaços. Era um jogo de um time só.

Tão logo Alberto Valentim tentou suas últimas fichas, com Yan Sasse na vaga de Marrony e Tiago Reis no lugar de Maxi López, o Flamengo praticamente sepultou o ânimo vascaíno. Demonstrou ser melhor técnica, tática e mentalmente. Renê esticou bola pela esquerda, Cáceres protegia a bola e, distraído, não viu Arrascaeta roubar a bola e acelerar. Pela esquerda, em seu habitat, o uruguaio foi à linha de fundo e cruzou para o meio, onde Fernando Miguel espalmou nos pés de Bruno Henrique. O rebote terminou no segundo gol rubro-negro. 2 a 0.

Abel promoveu trocas. Poupou desgaste físico e evitou possíveis suspensões. Pôs Vitinho, Diego e Lincoln. Sacou Gabigol, Everton Ribeiro e Arrascaeta. Trocas que demonstraram a diferença abissal entre os elencos. O Flamengo, então, fez o tempo andar, pôs a bola a girar. De um lado a outro, trocou passes. Foram 488 contra 243 do Vasco. Teve a bola por quase 61%* do tempo. Finalizou 23 vezes contra seis do rival. Ainda que com defeitos – foram 43 cruzamentos – o Flamengo foi amplamente superior. Embora protocolar, os números mesmo indicaram: o jogo de ida da final do Campeonato Carioca foi de um time só.

O 2 a 0 da vitória rubro-negra foi alcançado em contornos de trivialidade. Protocolar. Uma partida correta. Um jogo de um time só.

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