Flamengo tem que definir estilo de jogo antes de buscar um técnico

O GLOBO: Por Carlos Eduardo Mansur

É legítimo ter as mais diversas avaliações sobre o trabalho de Abel Braga no Flamengo. Mas ainda que os sinais não fossem de evolução, o mais racional é dizer que um treinador que deixa o clube ao final do quarto mês da temporada não fez um trabalho nem bom, nem ruim: fez um trabalho interrompido.

O mais útil, agora, é ir além de discutir erros e acertos do treinador em tão pouco tempo. Construtivo mesmo é discutir o ambiente em que se transformou este Flamengo, e que serve como metáfora para tantos clubes brasileiros. Diante de determinadas trocas de comando, tornou-se comum afirmar, de maneira conformada, que “a situação ficara insustentável”. Hoje foi Abel com as circunstâncias específicas que cercaram a sua saída. Mas, se o Flamengo não responder as perguntas sem resposta, seu próximo contratado será apenas outra vítima da máquina de gerar situações insustentáveis.

Jorge Jesus treinando o Benfica - Foto: Christof Koepsel/Getty Images
Títulos devem ser a meta de um clube, mas são um fim, só atingido quando se define um meio, um método. Ao contratar Abel, o Flamengo tentou contratar taças em vez de um modelo de futebol. Jamais se ouviu um dirigente discorrer sobre o tipo de jogo que o clube pretendia adotar sob o comando do treinador, ou quanto tempo a adoção do modelo exigiria. O discurso recorrente era a exaltação do “currículo vitorioso”, da “gestão de elenco”, do “comando”. O Flamengo que sorrateiramente se aproximou de Jorge Jesus certamente o fez movido por princípios semelhantes. Os perfis distintos dos últimos técnicos mantêm sem resposta o questionamento: que tipo de futebol o Flamengo quer jogar? No fundo, o clube se move pela ansiedade de quem ainda aprende a conviver com seu próprio poderio financeiro.

Se o projeto de futebol estivesse à frente da pauta, quem contratou Abel saberia que se tratava de um falso atalho: suas ideias são tão opostas às de Zé Ricardo, Barbieri e Dorival que não seriam implantadas tão cedo, por melhor que Abel trabalhasse. E tudo isso num clube com pressa, angustiado por taças. É paradoxal, o que só realça a responsabilidade de quem dirige. É fato que, sob Abel, o Flamengo fez mais jogos ruins do que bons; mas não era racional a intenção de demiti-lo após quatro meses. Abel apenas se antecipou, afinal já fora sentenciado.

O futebol brasileiro evoluiria mais se, a cada mudança precoce, usasse o rigor com que julga técnicos para cobrar os responsáveis pela contratação e pela dispensa. É verdade que, no Brasil, criou-se uma ciranda por vezes alimentada pelos próprios treinadores. Mas quem escolhe e descarta tão depressa passa atestado de empirismo, alternando tentativas e erros. Hoje, o Flamengo deveria analisar o seu modelo.

Antes de um projeto de clube, a sensação é que a gestão atual tinha um projeto eleitoral. Atraiu grupos políticos, criou e dividiu cargos e gerou um clube fragmentado. Em pleno 2019, o Flamengo elevou a níveis alarmantes o protagonismo dos dirigentes amadores, rumo oposto a tudo que este grupo político pregou desde que chegou ao poder no fim de 2012. Observa-se um modelo de muitas cabeças e vozes, mas de pouco protagonismo dos executivos profissionais.

Abel percebeu cada um dos sintomas de um clube desordenado. O mais recente é a traição — e chega a ser primário comparar a conversa na surdina com um novo técnico a uma reposição de funcionário numa empresa, de tão diversos que são os dois ambientes e a exposição dos personagens.

Num terreno de disputa política, o treinador percebeu a pichação do muro da Gávea, a elevação do tom da arquibancada e o vazamento de uma suposta interferência na escalação do time. Fritura em fogo brando. Se Abel não era o nome para um clube tão ansioso por vencer e se seu trabalho nem evoluía, o ambiente ao seu redor tampouco era saudável.

Por fim, o próprio Flamengo criou, novamente, o tal “ambiente insustentável". Agora, busca alguém com bons trabalhos e experiência, mas que só será avaliado racionalmente se o clube souber, enfim, que tipo de futebol quer jogar. O Flamengo ainda pode ser vencedor em 2019: tem elenco forte e parece próximo de um bom treinador. Mas não basta querer taças; é preciso saber como pretende buscá-las. É tarefa para amadores?

Mas não basta querer taças; é preciso saber como pretende buscá-las. É tarefa para amadores?

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