"Flamengo é o clube que melhor se encaixa comigo", diz Rafinha

GLOBO ESPORTE: Uma luxuosa estante recheada de troféus chama a atenção logo de cara. São as boas-vindas para quem chega a casa de Rafinha em Londrina, sua terra natal. É também sinônimo de sucesso. O garoto que deixou o Brasil aos 19 anos volta agora aos 33, com muita experiência e 18 títulos na bagagem, todos pelo gigante Bayern de Munique. O lateral-direito tem muito orgulho da carreira que construiu.

- Não fiquei oito anos no Bayern por ser bonito ou outra coisa, foi mais pelo meu trabalho, porque sempre joguei bem, sempre tive regularidade, estava lá sempre que era preciso. Fiz 266 jogos pelo clube. Toda temporada, de 50 jogos que a gente tem, eu joguei de 30 a 35. Significa que joguei mais da metade todos os anos em que estive lá.

Rafinha e Márcio Sampaio, preparador físico do Flamengo - Foto: Alexandre Vidal
A realização profissional foi completa em termos de clube, onde ganhou todos os títulos possíveis (Liga dos Campeões, Mundial de Clubes, sete vezes o Campeonato Alemão...). Na seleção brasileira, no entanto, a história foi diferente.

- Nunca tive sequência na Seleção. (...) Nas Copas de 2014 e 2018, em uma das duas eu tinha que estar presente. Pelo que eu estava jogando e desempenhando no Bayern. A minha parte eu fiz, tive temporadas espetaculares. Mas não fui convocado. Fica um pouco de frustração, porque não era mais meu problema. Fiz minha parte dentro de campo.

Contratado pelo Flamengo, Rafinha está começando uma nova fase em sua vida e tem grande chance de estrear na próxima quarta-feira, contra o Athletico Paranaense, pelas quartas de final da Copa do Brasil. Ele chegou ao Rubro-Negro com aval de Leandro, maior lateral-direito da história do clube, que por sinal lhe enviou um vídeo a pedido da reportagem.

Nesta matéria do Esporte Espetacular, Rafinha também se reconectou às origens. Não conteve as lágrimas ao pisar no campinho onde cresceu e jogou peladas por mais de uma década. Brincou com os amigos de sempre. E deu show na roda de samba. Assista ao vídeo no topo da página.

A seguir, veja como foi a entrevista:


Volta para o Brasil

- Foram 14 anos de Europa, 13 de Alemanha e um de Itália, metade da minha vida fora do país. Diferente voltar para casa e saber que não vai chegar no fim do mês e vou ter que voltar para a Alemanha, arrumar as malas de novo. É um sentimento diferente, de felicidade. Claro que vou sentir muita saudade, foi um país que me acolheu muito bem, passei os melhores momentos da minha vida profissional na Alemanha. A saudade vai existir sempre. Também me tornei um alemão, tenho passaporte alemão. Mas agora é voltar para casa, ser feliz aqui no Brasil como fui no futebol europeu, e também desfrutar um pouco das coisas que curti tão pouco no Brasil.

Imaginava que ficaria tanto tempo fora?

- Não imaginava, de maneira alguma. Nem no mais otimista dos meus sonhos eu imaginei passar tanto tempo fora de casa. Saí do Coritiba em 2005, e a Alemanha é um país difícil no idioma, no clima. Muitas coisas te fazem repensar: o que estou fazendo aqui? Cheguei no verão, quando chegou dezembro, janeiro com -10, -15 graus, falei "meu Deus, o que estou fazendo aqui?". A língua é muito difícil, e os alemães são pessoas muito disciplinadas. Foi um aprendizado e tanto para minha vida, minha carreira.

- Mas foi legal. Hoje trago muita coisa que aprendi da cultura alemã. É legal porque foi uma coisa nova, uma experiência nova, foram vários momentos de felicidade, mais momentos felizes do que tristes, então isso foi o diferencial.

- Pude escrever meu nome na história de um dos maiores clubes do mundo, que é o Bayern de Munique.

O que pesou na decisão de voltar?

- Acho que a minha família. Eu já estava sentindo falta de estar mais presente aqui. Das minhas filhas, que estão crescendo, passei algum tempo distante delas por questões pessoais. É legal estar perto da minha mãe, dos meus irmãos, dos meus amigos, da minha namorada. Essa é a questão principal, estar perto daqueles que eu amo, que sempre estiveram comigo. Agora eles vão poder me acompanhar mais de perto. A questão familiar foi mais importante para mim, já que tive várias ofertas de grandes clubes do futebol europeu. Resolvi voltar para minha casa, para o meu país, acho que foi a melhor escolha.

Titular ou reserva no Bayern?

- Tive propostas de grandes clubes de Itália, Inglaterra, Alemanha, Espanha... É legal saber que o pessoal reconhece meu trabalho. Não fiquei oito anos no Bayern de Munique por ser bonito ou outra coisa, foi mais pelo meu trabalho, porque sempre joguei bem, sempre tive regularidade, estava lá sempre que era preciso. Fiz 266 jogos pelo clube. Toda temporada, de 50 jogos que a gente tem, eu joguei de 30 a 35 partidas. Significa que joguei mais da metade todos os anos em que estive lá.

- Às vezes o pessoal não conhece muito a minha carreira, não acompanha muito o futebol alemão, e não sabe do meu desempenho, da minha trajetória.

- Escuto muita gente falar "ah, mas não joga, não era titular lá"... Se uma temporada tem 50 jogos e eu jogo 30, foi mais que a metade. E no futebol europeu, em clube grande, não existe titular e reserva. Tem um plantel curto ali de 22, 23 jogadores, onde todo mundo joga. Quem acompanha minha carreira sabe que tive vários anos de sucesso no Bayern de Munique. Foi o auge da minha carreira, onde conquistei os títulos mais importantes do futebol. E jogando. Foi bacana minha passagem por lá, e deixei marcado meu nome na história.

Escolha pelo Flamengo

- Tem alguns meses que estou nessa decisão de voltar para o Brasil. Tinha a oportunidade de ficar na Europa, eu estava analisando. Mas, quando veio o Flamengo, foi uma troca de carinho com a nação rubro-negra. Também com os dirigentes do Flamengo, que me respeitaram e fizeram o maior esforço para que eu pudesse vir para o Flamengo, que é um dos maiores clubes do mundo. É conhecido não só no Brasil, mas mundialmente.

- Saindo de um gigante europeu, o maior time da Alemanha, e vindo para um dos maiores do mundo e maior do Brasil foi a melhor escolha. Claro que respeitando os outros, pois o Brasil tem vários clubes grandes. Mas o Flamengo é o clube que melhor se encaixava comigo, já que estou acostumado a ganhar títulos, a sempre disputar, jogar em clube grande. Então, o Flamengo foi a melhor escolha. É legal de ver o Maracanã lotado, às vezes acompanho pela televisão, vai ser a mesma coisa.

Ídolos

- Tenho vários. Na minha posição gosto do Cafu. Foi um lateral que marcou muito, vi ele jogar. Marcou época. Tive o prazer de jogar contra o Cafu, Schalke 04 contra o Milan pela Liga dos Campeões. Mas o meu ídolo mesmo de quando era criança... Gostava muito do Romário e do Raí. Mas o Romário foi o maior ídolo. Foi fera, fez muita coisa boa pela Seleção e no futebol brasileiro também.

Recado do Leandro, maior lateral-direito da história do Flamengo

- Pô, esse é monstro, hein (risos). Obrigado, Leandro, estamos juntos. Um apoio de um lateral desse aqui não é para qualquer um. Obrigado pelas palavras. Leandro é um monstro sagrado. Não tive o prazer de vê-lo jogando, mas já vi muito vídeo dele. Era um lateral que dispensa comentários. Espero poder chegar perto do que você fez pelo Flamengo. Com o seu aval, a gente já chega tranquilo, mais à vontade. Obrigado, Leandro! Beijo no coração.

Por que o número 13?

- Comecei a jogar com a 13 quando cheguei ao Bayern. Eu jogava com a 18 no Schalke e no Genoa. Quando cheguei ao Bayern, o Klose estava com a 18. E tinha a 13. Também sou muito amigo do Maicon, e ele sempre foi 13 na Europa. Aí pensei em pegar esse número. Os alemães me contaram que ninguém gosta do 13 na Alemanha, porque é azar. Mas eu quis. No primeiro ano com a 13 perdemos a Bundesliga, a final da Copa para o Dortmund, e a final da Champions League para o Chelsea em casa. Rapaz, não acreditei (risos). E eu com a 13... Falei "não pode ser, vamos ter que quebrar essa maldição aí".

- Aí no outro ano, 2013, graças a Deus conquistamos a tríplice coroa, foi um ano maravilhoso. Daí em diante só títulos, não fiquei um ano sem ganhar título no Bayern, foram 22 no total. E sempre com a 13. Minha filha caçula nasceu em 2013. Então, criei um namoro bom com esse número.

Samba, segunda paixão

- O samba está no sangue. Cresci vendo meu irmão tocar o pandeiro, ele tem um grupo de samba aqui em Londrina (Resenha Chic). E peguei gosto. Sou do samba, gosto demais. Mas sou um atleta de futebol. Estou vindo para competir. Quero jogar, ganhar, conquistar títulos, escrever meu nome aqui no Flamengo. Estou com fome, com vontade de ser campeão. Vai ter hora para tudo. Tomara que a gente saia campeão de algum campeonato para poder comemorar com muito samba. Primeiro vamos chegar, jogar, correr muito, e depois a gente vai ter tempo para se divertir.

Pedido de dispensa da Seleção em 2015

- Nunca tive uma sequência na Seleção. Era convocado uma vez, depois não me convocavam mais. Aí me falam que em 2015 eu não quis ir, pedi dispensa. Não é que eu pedi dispensa. Me convocaram porque havia três laterais machucados, eu era a quarta opção. Não estava concorrendo com ninguém. Fazia dois anos que eu não era convocado. Agradeci, mas falei que ia me concentrar no Bayern de Munique. Estava jogando lá, vivendo o melhor momento da minha carreira. Se eu fosse para a Seleção, jogaria aqueles dois jogos e não seria mais aproveitado.

- Não é que eu rejeitei a Seleção, eu achei que não teria sequência, por isso pedi para me desconvocar. Mas meu desejo sempre foi defender a Seleção. Tem uma pessoa que agradeço muito, é o Dunga. Ele me convocou em 2008, me deu sequência. Nesse ano tive várias convocações. E disputei as Olimpíadas com o Dunga no comando. Sou grato a ele.

Ausência em Copas do Mundo

- Depois vieram outros treinadores, mas não me deram oportunidade. O Tite me convocou em 2017, o Felipão me convocou em 2014, mas foi uma convocação antes da Copa, então é difícil, o grupo dele já estava fechado. Se tivesse me dado duas, três convocações, tenho certeza que poderia ter mostrado mais. Em 2017 o Tite me ligou, perguntou se eu tinha interesse de voltar para a Seleção. Falei "claro que quero, só não quero ir uma vez e depois não ir mais". Aí ele me convocou uma vez em 2017, depois não me levou mais. Então, é difícil esperar alguma coisa. Você vai lá, fica uma semana com a Seleção, não tem como mostrar só em um jogo. Não tive sequência.

- Se o Tite tivesse me dado mais duas ou três convocações, tenho certeza que estaria na Copa do Mundo de 2018.
- Respeito muito quem foi, Danilo e Fagner, que representaram da melhor forma. Mas, se o Tite tivesse me dado mais oportunidades, tenho certeza que eu estaria na Copa. É difícil falar de Seleção. Mas, resumindo em relação à Seleção, prefiro ser grato ao Dunga. Ele me deu oportunidade.

Mágoa em relação à Seleção?

- Mágoa não, mas fica um pouco de frustração. Você se sente frustrado. O jogo de todo jogador é disputar uma Copa do Mundo. E eu estava preparado para isso. Em 2010 o Maicon e Daniel Alves estavam no melhor momento da carreira deles, então era difícil. Agora, em 2014 e 2018, em uma das duas eu tinha que estar presente. Pelo que eu estava jogando e desempenhando no Bayern. A minha parte eu fiz, tive temporadas espetaculares. Mas não fui convocado. Fica um pouco de frustração, porque não era mais meu problema. Fiz minha parte dentro de campo. E não jogador de ficar cavando, de ficar toda hora falando de Seleção, nunca fui disso. Preferi falar com os pés, jogando. Optaram por outros jogadores, o que respeito, mas tenho certeza que, se tivessem me dado mais oportunidades, eu poderia ajudar muito.

Brasil 1x7 Alemanha

- Eu queria estar presente. Poderia ter perdido de 10, mas eu queria estar junto. Meu sonho é disputar uma Copa. Ganhei todos os campeonatos de clubes que disputei. Única coisa que não disputei foi uma Copa do Mundo. Então, fica uma frustração, mas fazer o quê? Não tem como voltar.

O garoto que deixou o Brasil aos 19 anos volta agora aos 33, com muita experiência e 18 títulos na bagagem, todos pelo gigante Bayern de Munique.

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