Flamengo sofre, empata e vê bons indícios na estreia de Jesus

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

A expectativa por Jorge Jesus no Flamengo é baseada em suas ideias. Chegou para apresentá-las. Introduzi-las e, a partir daí, modificar a equipe que se perdeu em meio a caminhos tortuosos com Abel Braga nesta temporada. Trata-se, claro, de um choque. O português já tinha apresentado um tiragosto no jogo-treino contra o Madureira. Diante do Athletico-PR, o técnico ampliou a demonstração da sua maneira de pensar. Variou entre três formações, apresentou a base do que deseja formar. Mas tem apenas dias de trabalho. Natural que no empate em 1 a 1 com o Furacão em plena Arena da Baixada a equipe tenha enfrentado momentos de tensão. Tenha sido envolvida. Mas foi interessante notar: a ideia do português passa por tornar o Flamengo agressivo mesmo diante de um rival tão indigesto em condições hostis quanto o Athletico-PR em sua Arena. O Flamengo sobreviveu e ganhou o fôlego inicial para as ideias de Jorge Jesus.

Gabigol, do Flamengo, comemorando gol contra o Athletico-PR - Foto: Alexandre Vidal
Dificilmente o técnico português encontraria condições mais complexas para estrear atualmente no futebol brasileiro. Gramado sintético, muito molhado antes da partida, teto retrátil aberto permitindo que o frio encharcasse a Arena da Baixada. Fora o retrospecto catastrófico do Flamengo no estádio – uma vitória solitária em 20 anos – o Athletico utilizava suas armas para impôr o seu ritmo intenso, veloz. Fatal. Talvez por isso Jorge Jesus tenha indicado uma formação em um 4-4-2, com defesa e meio bem próximos, Gabigol e Bruno Henrique. Longe, porém, de ser defensivo. Jorge Jesus parece carregar consigo o gosto pela agressividade no jogo. Tão logo a bola rolou e o Flamengo se adiantou. Passou a perturbar o Athletico em seu campo, marcando a saída de bola. Marcação muito avançada, a ponto de manter três jogadores – Bruno Henrique, Gabigol e Vitinho – na risca da grande área em cobranças de tiro de meta do goleiro Santos. Uma tentativa de causar desconforto, evitar que o Furacão saísse de pé em pé.

A estratégia da equipe de Tiago Nunes foi esticar bolas pelos lados, aumentando a velocidade do jogo e complicando um Flamengo tão adiantado. Ao perceber que Arrascaeta, à esquerda, e Vitinho, à direita, apresentavam problemas para acompanhar a marcação pelos lados, o Athletico subiu ainda mais seus laterais. Márcio Azevedo e Jonathan praticamente se alinhavam a Cirino, Rony e Marco Ruben. A necessidade que o Flamengo voltasse rapidamente para ajustar o posicionamento defensivo era cada vez mais latente. Na verdade, o time parecia confuso para obedecer ao pedido de Jorge Jesus de uma equipe mais avançada e, ao mesmo tempo, neutralizar as ofensivas do Furacão. Assim, sofreu muito com cruzamentos e jogadas que começavam ao fundo buscando a entrada da área. Precisou igualar no pedido do técnico Jorge Jesus já em sua chegada: a intensidade sem a bola. Disputá-la a cada palmo.

Não foi raro ver Willian Arão avançando pelo meio para dar bote em Bruno Guimarães, o cérebro deste Athletico-PR de tal maneira que é surpreendente ainda vê-lo atuando on futebol brasileiro. Marca, passa, avança com desenvoltura e sabe ditar o ritmo da equipe. É interessante notar, ainda que tenha sido o primeiro jogo para valer deste novo Flamengo: a busca por troca de passes, mas a construção de jogadas de forma mais vertical, rápida. Inicia por vezes com Rodrigo Caio. Recuperação imediata da bola e saídas com passes à frente. Toques laterais, cadenciando, esperando o melhor momento de ataque. O Flamengo de Jesus tenta agredir. Mas, na Arena, foi muito agredido. Arrascaeta tentou por vezes cumprir o papel defensivo. Vitinho teve menos sorte: sofreu ainda mais com os avanços de Marcio Azevedo por ali, já que Rodinei também tem característica ofensiva, ao contrário de Renê. Em um primeiro tempo de arbitragem já confusa – Diego Alves poderia ter sido expulso por pegar bola na frente de Cirino com as mãos fora da área, além de dois gols bem anulados dos mandantes por impedimento – o Flamengo sobreviveu.

Despertava curiosidade a reação de Jorge Jesus diante da adversidade. O rival era claramente superior até então. A piorar, um “detalhe”: saiu na frente em um escanteio, com Léo Pereira desviando para o gol na segunda trave. No panorama comum dos técnicos brasileiros, seria de se esperar um Flamengo mais comedido, evitando o desgaste maior para buscar resolver no Maracanã. Jorge Jesus, de cara, já surpreendeu. Cuéllar vivia noite ruim. Sem ser o homem à frente da defesa, mais alinhado com Arão, Vitinho e Arrascaeta pelo meio, não se achou. Sua vitalidade na marcação é o diferencial. Sem a necessidade de cumprir a função de para-brisa, varrendo de um lado a outro a frente da defesa, teve dificuldades. Não busca o passe vertical e tampouco carrega a equipe à frente, como Bruno Guimarães. Deixou de ser um primeiro volante acima da média para se tornar um meio de campo comum. Não teve um desarme no jogo, por exemplo. Acabou bem sacado. Vitinho, também discreto, foi outro a sair. Jorge Jesus recuou Arão e à frente montou a linha de meias com Diego, Everton Ribeiro e Arrascaeta. Um 4-1-3-2, como no jogo-treino do Madureira.

O técnico português contou com a sorte de, imediatamente, ver o time empatar após lançamento de lateral de Renê para Gabigol, aproveitando o vacilo de Léo Pereira. O camisa 9 tocou sobre Santos. O Athletico ficou desornetado, principalmente após ter um pênalti negado em Marcelo Cirino minutos antes – Rodrigo Caio sofrera falta no início da jogada. Por minutos, o Flamengo foi superior. Voltou a fazer a saída de três, com Arão entre os zagueiros, adiantando os laterais. Mas fundamental: à frente havia meias capazes de tramar o jogo por dentro. Como Bruno Guimarães avançava junto da equipe do Athletico, Wellington teve problemas para se virar sozinho com a troca de passes de Diego, Everton e Arrascaeta. O Flamengo cresceu ao tentar agredir o Athletico em seus domínios. Bruno Henrique, de cabeça, quase virou o jogo. Mas o time carioca voltou a ficar exposto. Dar espaços generosos para o Athletico acelerar o jogo. Daí veio a sensação de perigo constante.

A rigor, apenas uma vez o Furacão, de fato, ameaçou. Bruno Nazário pegou rebote e bateu para o gol, mas Rodrigo Caio cortou a bola em cima da linha. No geral, o Flamengo continuou a forçar o Furacão a atacar pelos lados. Não à toa o time paranaense colecionou 51 lançamentos e 44 cruzamentos na partida. Para tentar diminuir os espaços do rival, Jorge Jesus passou à sua terceira formação na partida. Sacou Bruno Henrique e pôs Piris da Motta, formando um 4-1-4-1 com o paraguaio à frente da defesa. Um time muito agrupado, dando indícios de que os treinamentos no Ninho do Urubu visa um Flamengo bem mais organizado. Leva tempo. Assim como modificar a postura dos jogadores em campo. Lembremos da intensidade sem a bola. Arão, talvez, seja quem mais apresente problemas nesse sentido. Nos acréscimos foi desarmado por Bruno Guimarães, mas não abandonou a jogada. Devolveu o desarme com um carrinho preciso, no bico da grande área. Coisas de Jesus. O empate acabou muito bem-vindo.

Há, claro, muito o que melhorar. Diego Alves, por exemplo, vai ter de se adaptar ao jogo com uma defesa mais avançada, sendo mais presente com os pés. Teve problemas no início da partida nesse quesito. Cuéllar terá de aprender a ser não só um volante para-brisa. Terá de se tornar um meio-campista. Vitinho terá funções defensivas. Mas a partir de agora Jorge Jesus vai buscar trocar o pneu com o carro andando. Apenas até o fim de julho serão seis jogos. Contra o Athletico-PR, na Arena, sofreu, mas soube duelar. Teve 12 desarmes contra 13 do rival – destaque para Willian Arão, recordista do time com três roubadas de bola. Finalizou cinco vezes contra quatro do Athletico. O caminho está aberto. As ideias de Jorge Jesus estão na mesa.

O Flamengo sobreviveu e ganhou o fôlego inicial para as ideias de Jorge Jesus.

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