Pausa da Copa cria expectativas irreais e fabrica frustrações

O GLOBO: Por Carlos Eduardo Mansur

A retomada das competições domésticas após a Copa América é uma passarela por onde o Brasil desfila a sua insensatez. No lugar de aprofundarmos a discussão sobre a quantidade de jogos disputados no país, sobre a falta de tempo para trabalhar, terminamos, sem perceber, tomando o caminho oposto: de tão habituados à rotina da irracionalidade, naturalizamos as mazelas do calendário e problematizamos o treino.

Como quem se lambuza diante da falsa sensação de fartura, olhamos para meros 20 dias em um CT como se estes fossem uma dose cavalar de preparação num país que sequer oferece pré-temporada a suas equipes. E pior, transferimos para os treinadores uma pressão gigantesca, uma geração de expectativas impossíveis de cumprir. É enorme o potencial de multiplicarmos frustrações. No Campeonato Brasileiro do ano passado, nada menos do que oito treinadores caíram durante o primeiro mês após a pausa para a Copa do Mundo da Rússia. O Santos, aliás, mandou Jair Ventura embora depois de dois empates no pós-Mundial.

Jorge Jesus - Foto: Divulgação
“Vinte dias pra isso?”. Certamente você ouvirá este comentário nos próximos dias quando um time do país jogar mal. Ele retrata a falta de entendimento do contexto em que trabalham os times daqui. Diante da única janela para ter uma mínima oportunidade de treinar sem pressão por resultados, é fato que treinadores se escoraram na parada da Copa América para prometer progressos. Mas a interpretação que se fez do discurso deles é própria do nosso menosprezo aos processos de construção de time.

Vendeu-se a ideia de que haveria “20 revoluções” no Brasileirão, ou 19, já que o Palmeiras não precisa de uma. As cobranças começaram pelos amistosos e criou-se na audiência uma expectativa irreal. E, aliás, dirigentes reproduzem tal pressão. Até que os jogos recomeçam e, estupefatos, descobrimos que continuam existindo times que ganham e outros que perdem, times melhores e times piores, times com mais e com menos dinheiro. Mas as cabeças são cortadas porque o “tempo de treinar não foi aproveitado”. Acredita-se no milagre dos 20 dias. A deturpação transforma treino em instrumento de pressão.

É como se a pausa nos transformasse numa Europa, embora haja muitos fatores a nos separar da realidade da elite do jogo. Se o poderio econômico é impossível de reproduzir, poderíamos ao menos, no lugar de distorcer o conceito de tempo de trabalho, cobrar um calendário mais saudável em que técnicos e jogadores trabalhem e sejam julgados em bases mais racionais. Um bom caminho é examinar o que acontece, neste momento, na elite europeia.

Nesta semana, começou a pré-temporada do Velho Continente. O Manchester City, atual campeão inglês, vai treinar 28 dias até a Supercopa da Inglaterra e terá tido 34 dias de preparação quando estrear na Premier League. Já o Paris Saint-Germain fará 32 dias de pré-temporada até iniciar a defesa do título francês — o número cai para 25 dias até a Supercopa. Já a Juventus vai trabalhar 39 dias até estrear no Campeonato Italiano.

É fato que os treinadores europeus argumentam que as imposições comerciais e a disputa global por mercados entupiram as pré-temporadas de viagens e amistosos: uma parte dos superclubes irá para a Ásia e outro grupo vai para os Estados Unidos. Ainda assim, é possível dosar minutos, preservar jogadores e ter um período de treinos incomparável com o Brasil. Aqui, os principais clubes de Rio e São Paulo tiveram 16 dias de preparação em janeiro.

E quando voltarem dos tão badalados 20 dias de treino, os times daqui voltarão a jogar sem parar. O que o campo de jogo mostrar de errado, o calendário não permitirá que se corrija no campo de treino. O Flamengo, clube carioca envolvido em mais competições no momento, poderá atingir 79 jogos no ano. O Manchester City, clube inglês que mais atuou, entrou em campo em 61 partidas oficiais. A diferença equivale a mais de dois meses inteiros entrando em campo às quartas e domingos.

Fabricam-se times prontos no dia a dia, no treino, na observação dos jogos e na correção de erros. Não há milagre em 20 dias.

O Flamengo, clube carioca envolvido em mais competições no momento, poderá atingir 79 jogos no ano.

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