Qual é o verdadeiro abismo entre o futebol brasileiro e o europeu?

PAINEL TÁTICO: Por Leonardo Miranda

Vinícius Júnior já viveu de tudo em um ano de Real Madrid: foi titular, decisivo, criticado, ficou no banco, teve três diferentes e sofreu uma lesão que o afastou do fim da temporada. Nesta segunda-feira, em entrevista ao O Globo, ele repassou esse turbilhão dizendo que o fez evoluir como jogador.

Quando cheguei era um jogador totalmente diferente do que sou. Aprendi bastante com o pessoal do clube e com cada treinador. Na parte tática, evoluí bastante. Perder menos a bola, ter mais tranquilidade de definir jogadas. A maioria dos treinos lá é melhor do que o jogo aqui.

Impossível não ficar com a pergunta na cabeça: um ano de Real Madrid significa tanto mais que muitos anos de Flamengo, um dos maiores clubes do Brasil e da América Latina? Vini não estaria exagerando, afinal, todos os eventos para alguém de 18 anos parecem maiores do que são. A diferença entre o futebol europeu e o brasileiro é, acima de tudo, cultural. Uma diferença de discursos e modos de vida, o que sempre atrapalha saber onde está a real diferença em campo.

Foto: Divulgação
Olhando apenas para o dia-a-dia do jogador e os eventos relacionados ao jogo, como o treino, as preleções, a preparação e o jogo em si, a diferença é imensa. O futebol europeu é taticamente, tecnicamente e psicologicamente diferente do brasileiro, e o primeiro passo para mudar essa realidade é aceitá-la. É fácil reclamar que Vini “não sabe do que fala”, “tem o discurso da colônia” ou aceitar a diferença e colocar a culpa nos técnicos. Discursos assim são perigosos, porque apontam para soluções que já se provaram fracassadas - como ignorar o que é feito lá fora ou trazer um técnico estrangeiro para resolver, sozinho, problemas estruturais do jogo.

A chave está na estrutura. Tudo começa - e termina nela.

Distâncias, clima e tempo de trabalho

Num espaço de dez dias em março, o Real Madrid foi para Barcelona jogar o clássico, depois retornou para Madrid para receber o Ajax e depois rumou para Valladolid. São viagens simples que podem ser feitas de trem. Barcelona está a 607km de Madrid e pode ser percorrida em três horas. Valladolid está a uma hora. No mesmo período, o Flamengo foi até Montevideo enfrentar o Peñarol, depois retornou ao Rio e pegou mais um voo para enfrentar o Corinthians, indo direto de São Paulo para Belo Horizonte enfrentar o Galo. Tudo por avião.

Percorrer longas distâncias tem dois efeitos no jogo: o torna mais lento, uma vez que jogadores têm menos tempo de descanso e recuperação - um atleta de alto nível precisa de ao menos 48h de plena recuperação. A lentidão não é só na circulação da bola, o que mais salta aos olhos num duelo de Liga com os daqui, mas também torna os times coletivamente mais separados. Um atacante terá muito mais dificuldade de preencher espaços durante 60 minutos num calor de 40º como faz o ano todo no Rio de Janeiro do que nos 20º de Madrid.

O jogo fica dividido: zagueiros avançam menos, atacantes voltam menos e o meio-campo vira um buraco, preenchendo normalmente com bolas longas. Nos momentos em que se perde a bola, é mais difícil correr para recuperá-la com o cansaço. O cansaço físico leva ao mental, os times psicologicamente oscilam mais aqui.

(Na Espanha) o time fica mais com a bola e os adversários jogam mais juntos. Se ficar só na ponta não tem muito o que fazer, se a bola não chegar.

Treinadores geralmente são expostos a todos os tipos de ofensas e cobranças, mas eles conseguem controla muito pouco essa estrutura. Mora aí outra diferença: a estrutura. Porque enquanto a Europa aposta em gestões profissionais e racionais, o Brasil segue cada vez mais fiel aos salvadores da pátria e a família que se perpetuam no poder.

Tottenham e Liverpool fizeram a final da Liga dos Campeões com técnicos que estavam há pelo menos quatro anos no cargo. Eles nunca ganharam nada, e suas primeiras temporadas foram ruins - o Liverpool foi vice da Liga Europa e perdeu vários jogos para médios em casa, e o Tottenham jogou mal. A verdade é que Klopp e Pochettino não durariam nem seis meses no Brasil. Seriam taxados de ruins ou retranqueiros na primeira crise.

Acho que na Espanha dão mais espaço do que aqui. Aqui os adversários não deixam virar de frente. Lá eles são muito certinhos (taticamente), fazem o que o técnico manda.

Sem tempo de trabalho não há time. É uma relação lógica, tão simples…mas tão pouco utilizada no Brasil. Equipes que joguem pra frente, tenham coragem, saibam tocar a bola. Tudo isso depende de movimentos mecanizados que demoram meses, ou até anos para serem formados numa equipe. Momentos de instabilidade dentro desse trabalho são normais, e servem como alertas, não como fins do processo. É um erro gritante e grave, de pura ignorância, achar que uma derrota é sinal de um trabalho ruim. Nunca é.

O outro abismo é o financeiro. E esse talvez seja o mais forte. Vinícius Júnior foi vendido por € 45 milhões ao Real Madrid. Na cotação atual, dá R$ 193,5 milhões de reais, um valor maior do que o faturamento de 724 clubes de futebol no Brasil. Isso mesmo: dos 736 clubes profissionais no Brasil, apenas 12 faturam, por ano, mais do que R$ 193,5 milhões. O problema não está no valor, está no clube: se o Real Madrid consegue pagar isso, logo consegue oferecer um salário muito mais alto ao que Vinicius ganhava no Flamengo. Faz o mesmo com Hazard, Jovic, Cristiano e tantos outros.

Um clube rico consegue naturalmente se impor sobre os outros e concentrar os melhores talentos, o que aumenta seus ganhos em marketing, receita e retorno em campo. Ninguém liga a TV pra ver o Madureira jogando num calor de 45º, todo mundo quer ver craques e um duelo bem disputado, e hoje essa condição está nos poucos clubes europeus que conseguem reunir esses jogadores. Se o jogo é bom, a relação afetiva se desenvolve. O torcedor se cria. A paixão começa em campo,

Mesmo no treino ninguém quer perder, quer evoluir todo dia. Jogadores como Sergio Ramos e Benzema, acima dos 30 anos, trabalham mais do que os demais. A inspiração de estar ao lado dos melhores também faz crescer. E como são jogadores diferentes, saem mais gols. Por isso é o maior clássico do mundo.

Onde está a mudança?
Temos a resposta para o abismo: ele é estrutural, tático e financeiro. E o que estamos fazendo para mudar esse cenário? O que fazemos para melhorar nosso futebol?

A resposta é um sonoro nada. Pelo contrário. A realidade que cada vez mais bate a porta tenta ser negada o tempo todo. Primeiro com o discurso do exagero. “O futebol europeu não é tão bom assim, é marketing”. “Isso é discurso de explorado, de colônia”. Depois, com a negação da ciência. “Muita ciência faz mal”, ou “precisamos sentir mais o jogo”. Pensamentos simplistas, que vendem uma falsa ilusão de solução por respostas simples, de curto prazo. O time joga mal? Troca treinador, muda escalação. O craque foi embora? Falta amor ao jogo, bom mesmo era antigamente.

Enquanto isso, clubes médios como o Watford já conseguem tirar uma revelação como Richarlison de um clube quatro vezes campeão brasileiro.

O Brasil não precisa de mesas redondas reclamando sobre a qualidade do nosso futebol ou discutindo qual treinador é pior ou mais ultrapassado. O Brasil precisa de ação. Precisamos de gestões racionais que consigam enfrentar a disparidade financeira com trabalhos de longo prazo e formação de jogadores atrelada a retorno financeiro. Precisamos de técnicos que tenham formação na mesma proporção que tenham tempo de trabalho para desenvolver uma ideia de jogo. Precisamos de soluções locais, que respeitem a cultura do torcedor e a cultura de jogo, e desenvolvam soluções para nosso contexto. Importar não vai adiantar, negar o abismo também não.

Estamos há 40 anos reclamando que nossos craques vão embora e nossos treinadores são ruins. Já deu para ver que reclamar não vai levar a nada a não ser mais Vinícius Júnios colocando a realidade na nossa frente.

Um ano de Real Madrid significa tanto mais que muitos anos de Flamengo, um dos maiores clubes do Brasil e da América Latina?

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