Abel se arrepende de não ter aceitado trabalhar no Fla de Bandeira

GLOBI ESPORTE: Aos 66 anos, o treinador Abel Braga está sem clube desde o final de maio, quando deixou o Flamengo, incomodado pela certeza de que a diretoria procurava outro técnico. “Eu hoje lamento não ter aceitado o convite da direção anterior”, diz ele durante uma entrevista de duas horas e meia no Rio de Janeiro – a terceira da série Abre Aspas.

O que faria você aceitar um convite de um clube hoje? Salário, tempo de contrato, lidar com base? E quem contratar o Abel está contratando o quê?

Um treinador que só tem 27 títulos. Não é mau, né? O sucesso que consegui só ocorreu porque tive fracassos. Existem quatro jogos que foram os piores da minha carreira. Foram as duas finais de Copa do Brasil, em anos consecutivos, por Flamengo (contra o Santo André em 2004) e Fluminense (contra o Paulista em 2005). Aí teve, com o Inter, aquela semifinal contra o Olimpia (na Libertadores de 1989). O outro foi o Brasileiro de 88, que terminou em 89, contra o Bahia. As decepções foram essas. E fazem aprender. Sou um cara que não cria problemas com ninguém. Sou transparente. Costumo ser muito bom gestor. A relação é muito forte em todos os grupos onde passo. E gosto de me sentir à vontade. Eu não coloco multa no meu contrato. Da mesma maneira que (o clube) vai ter a liberdade de dizer “olha, quero trocar”, eu tenho para fazer o que fiz agora no Flamengo. Dizer: “Olha, não gostei da maneira como vocês agiram, então quero comunicá-los que amanhã estou indo pegar minhas coisas e me despedir do grupo.” É simples. Mas é simples quando se torna dessa maneira, não da maneira que foi, porque aí se torna traumático. O mais legal é quando aquele que te contratou, que veio conversar, te passe alguma coisa em que você crê. Mas depois você vê que não foi nada daquilo, foi completamente diferente.

Foi o que aconteceu no Flamengo?



Eu hoje lamento não ter aceitado o convite da direção anterior. Ela tinha tido dois anos (dois mandatos) de um trabalho para levantar o clube, e fez com brilhantismo. Agora era a hora de colher. Recebi o convite (em 2018) e não aceitei. As pessoas do atual grupo, Bap (Luiz Eduardo Baptista, vice-presidente de relações externas do Flamengo), Landim (Rodolfo Landim, presidente do Flamengo), são pessoas extremamente bem-sucedidas na vida empresarial, mas não têm a experiência que tinha a turma do Bandeira (Eduardo Bandeira de Mello, ex-presidente do Flamengo). Fiquei impressionado com a maneira muito clara com que o Lomba (Ricardo Lomba, ex-vice-presidente de futebol e candidato derrotado à presidência do Flamengo) me colocou as coisas. Claro, como tudo na vida, talvez eles (os atuais dirigentes) estejam arrependidos de terem me contratado, e estou arrependido de não ter dito sim para a direção anterior.

O Landim falou que achava normal, com você no Flamengo, sondar o mercado. Ele disse que sabia de um contato com o Jorge Jesus, mas como maneira de ter um nome alternativo. Você considera isso uma traição?

É que não foi assim como ele tá falando. Gosto muito dele, é um cara de sucesso na vida profissional. Mas não foi assim. A falta de sorte é que foi em Portugal, onde tive negócios, tive casa, morei seis anos e meio, estive em cinco clubes. Desde o jogo com o Atlético-MG já havia a presença do Jesus no estádio. Não foi bem assim. Mas o que me chateou não foi esse aspecto. Da maneira como me chamou, me convidou, me contratou, tem o mesmo direito de dizer “olha, não estou gostando”. O aproveitamento estava ótimo, 70%. Há quatro anos não classificava na Libertadores; há 11 não era o primeiro do grupo na Libertadores. Já tinha ganho o primeiro jogo da Copa do Brasil. Tinha ganho o Carioca, a Taça Rio. Independentemente disso, tinha o direito de dizer “Abel, não está dando, não estou gostando”. Acabou, cara. Não saí atirando pedra em ninguém. Não estou atirando aqui. São pessoas que entraram agora no futebol e vão chegar a um patamar, porque são grandes empresários, pessoas de índole, pessoas do bem. Mas hoje, pela maneira como foi, eu fico: “Caramba, por que não aceitei antes (o convite) de uma direção que deu esse diferencial de clube que é o Flamengo?” Depois das duas gestões do Bandeira, o Flamengo é outro.

Você tem acompanhado o trabalho do Jorge Jesus? E hoje, daria preferência a um clube brasileiro ou estrangeiro?

Fiquei seis anos em Portugal, quatro anos nos Emirados Árabes. Eu não vejo salário. Vejo a cultura, aquilo que posso proporcionar à minha família. Eu amo a Europa. Pra mim, não tem nada parecido. Um ex-jogador que trabalhou comigo em Portugal, um marroquino, me ligou, ligou pro meu filho (Fábio Braga, ex-jogador e atual empresário), e veio falar sobre a seleção do Marrocos. Não conversamos nada sobre isso. Não sei o que pensam. Recebi um convite para dirigir duas equipes. Uma é o Al-Ahly (do Egito), que enfrentei no Mundial de 2006 (com o Inter), mas não quis. O Hassan (Hassan Fadil), esse ex-jogador, ligou. Vamos aguardar, vamos ver. Tenho o hábito de não pegar as coisas no meio. Mas saí cedo (do Flamengo) e não posso dizer que não vou pegar alguma coisa se aparecer.

Você e o Jorge Jesus se falaram? Ele te ligou?

Não, não.

Você esperava que ele ligasse?

Não sei. A última vez que falei com o Jesus foi quando ele respondeu uma pergunta em Portugal para falar sobre o Wendel (ex-volante do Fluminense). Eu me dou muito bem com ele. Perguntaram por que o Wendel não estava ganhando mais minutos. Ele foi infeliz na resposta, disse “isso aqui não é Fluminense”. Eu imediatamente respondi. Ele me ligou para se desculpar e tentei passar para ele a grandeza que é o Fluminense. Ele falou que foi mal entendido. Conheço o Jesus desde 89, quando eu era treinador do Famalicão. É uma relação legal. Não somos amigos, óbvio, mas é um ótimo treinador. Não me ligou. Se me ligasse, eu seria gentil da mesma forma.

Quando você saiu do Flamengo, na sua visão, em que estágio o Flamengo estava? E como foi ver chegarem Rafinha, Filipe Luís, Gerson, Pablo Marí?

Isso é normal. No Flamengo, por ter chegado ao patamar em que chegou, é absolutamente normal. O Rafinha está mostrando o momento dele. O Filipe vai sofrer por mais três jogos, praticamente não teve férias. O Flamengo, comigo, fez alguns jogos muitíssimo bons, outros nem tão bons, mas estávamos com uma preocupação muito grande de poupar a equipe, e foi o que fizemos, tanto que jogamos a Taça Rio com equipe suplente. E vencemos. Mas o Flamengo vinha numa situação boa. Pode falar que aquele momento não era bom? Podia estar oscilando, tá bem, mas continua assim. Dentro do contexto, estava bem, até muito bem. E tinha contratado grandes jogadores, o Gabriel, o Bruno Henrique, o Arrascaeta, o Vitinho, um jogador que adoro. Agora vieram mais jogadores. Compuseram bem a parte ofensiva e agora pensaram em levar mais qualidade à parte defensiva. Eu gosto de todo mundo ali. É um time forte. Vai brigar por tudo. Vejo muito forte o Palmeiras, feliz da vida, porque hoje posso falar abertamente. Quando tive a primeira conversa com o Bap, falei que conseguiria mudar a cara do Flamengo com dois jogadores: Felipe Melo e Dedé. Depois, o Dedé ficou sem possibilidade, por causa da vinda do Arrascaeta, e o Felipe não tinha como sair do Palmeiras. Eles me atenderam com o Bruno Henrique, por quem tenho admiração muito grande.

Por que você gosta tanto desses dois (Dedé e Felipe Melo)?

O Dedé chamam de mito, mas ele é assim, cara. Eu o conheci em Volta Redonda. Ele apareceu no restaurante do hotel para jantar e conversamos um longo tempo. Ele vinha daquela contusão. Estava no Vasco. Foi a primeira contusão. E fiquei simplesmente encantado. Já estava encantado pelo que ele fazia em campo, tão jovem, saído do Volta Redonda: a personalidade, a velocidade, a impulsão. Depois de conversar com o cara, tive mais subsídios para admirar também o ser humano. E o Felipe é porque eu achava que o Flamengo estava precisando de um cara daquela capacidade, daquela liderança, daquela entrega. Eu achava que o Flamengo precisava daquilo. Ele é ídolo da torcida. Mas a maneira como ele se entrega no jogo, se bate por qualquer bola... Existem muitas pessoas contrárias ao futebol dele, mas agora, quando o Palmeiras está mais precisando, vem sendo o grande jogador do Palmeiras.

O Vasco te procurou recentemente?

Não. Quando eu não tinha acertado ainda o contrato (com o Flamengo), ele (Alexandre Campello, presidente do Vasco) me chamou quando foi o Alberto (Valentim). Mas eu já tinha dado a palavra ao Flamengo.

Abel, uma questão não ficou clara: você acha que Jorge Jesus, ao negociar com o Flamengo, falhou com você? Ele cometeu algum erro com você?

Não, não. O Jesus não tem nada a ver com isso. A direção foi procurá-lo. Saíram daqui, foram a Portugal conversar com ele, mas eu me adiantei ao processo. Poderia ter me ligado? Acho que poderia, não sei. Mas não falhou, não. Não tem culpa de nada.

Você, no lugar do Jorge Jesus, teria agido diferente?

Aqui no Brasil, fui convidado duas vezes. Liguei pro treinador e disse que não ia pegar, mas que era bom ele ficar atento. Para o Dorival mesmo, no Flamengo, liguei dizendo que fui procurado pela outra direção. A direção que estava com o Dorival no Flamengo me ligou antes de contratar o Dorival. Falei pra ele que o outro grupo tinha me telefonado e pedi que ele me falasse do Flamengo. Tudo que ele falou se encaixou perfeitamente: um grupo muito profissional, muito fechado, muito disponível, que paga um preço muito alto, uma cobrança muito alta desse tempo sem conquistar coisas importantes. A cada ano, esse tipo de pressão aumenta. Por isso que falei: “Poxa, será que não vamos dar prioridade a uma competição?” Mas não. O termo era esse: ganhar tudo, ganhar tudo, ganhar tudo. Mas ganhar tudo é muito complicado.

A direção que estava com o Dorival no Flamengo me ligou antes de contratar o Dorival.

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