Bom futebol de Gabigol no Flamengo de Jesus impõe uma reflexão

O GLOBO: Por Carlos Eduardo Mansur

Considerando aspectos técnicos, táticos e anímicos, não é simples definir, num jogo de futebol, o peso de cada um desses fatores no resultado final. Mas é fato que o jogo pertence, essencialmente, aos jogadores. E o Vasco x Flamengo de sábado deixou isso muito claro.

Se a imposição rubro-negra no segundo tempo foi enorme, os primeiros 25 minutos de jogo tiveram um Vasco melhor. Ocorre que, se de um lado as chances criadas esbarraram em imprecisão, do outro lado a combinação entre Bruno Henrique e Arrascaeta terminou num belíssimo gol. Em seguida, veio a bela tabela entre Bruno Henrique e Cuéllar para gerar o segundo, depois o grande passe de Gérson na origem do gol de Gabriel. Entre um lance e outro, o Vasco desperdiçou dois pênaltis que apenas disfarçariam o quanto se via dominado.

Gabigol com cartaz da torcida do Flamengo - Foto: Alexandre Vidal
Mas o mesmo jogo que premiou a imposição técnica também teve uma guinada saída da prancheta de um dos treinadores. Jorge Jesus tentou aplicar de início a manobra que funcionara uma semana antes, contra o Grêmio. Colocou o time no 4-3-3, com Gérson ao lado de Willian Arão como meias. Desta vez, no entanto, seu camisa 9 foi Gabigol, enquanto Bruno Henrique ficava na direita e Arrascaeta na esquerda. Contra o Grêmio,fora o uruguaio o falso 9, no meio do ataque, usando sua técnica para jogar entre as linhas rivais e atuar de costas para o gol. Nas pontas, estavam Berrío e Bruno Henrique.

No sábado, o fim do domínio do Vasco coincide com a volta do Flamengo ao 4-4-2. Na linha de quatro meias, Gérson passou a jogar pela direita, Cuéllar e Willian Arão ficaram à frente da zaga — tendo Arão mais liberdade para chegar à frente — e, fundamental, Gabigol ganhou companhia de Arrascaeta como numa dupla de ataque. Tudo isso seria apenas um sinal de que Jorge Jesus ainda busca criar variações e entender como tirar o melhor de seus jogadores. Mas, acima de tudo, a mudança de cara no jogo e, fundamentalmente, a mudança de rendimento de Gabigol permitem uma importante reflexão.

É fato que já estamos na segunda temporada seguida em que os números do atacante merecem atenção. Mas seus onze gols neste Brasileiro vêm, neste segundo semestre, acompanhados por um rendimento muito superior ao da primeira etapa da temporada. Porque, cada vez mais, Gabigol parece ser o mais recente exemplo de atacantes brasileiros que precisaram se livrar de rótulos: diante do absoluto predomínio dos sistemas com dois pontas e um centroavantes, viam-se obrigados a definir uma das duas funções quando, na verdade, não se identificavam com nenhuma delas.

O Brasil produziu, ao longo da história, ótimos pontas e ótimos centroavantes. Mas tem uma linhagem de atacantes que precisam ampliar a área de ação: por vezes estar na área e, em outras, chegar a ela; ter mobilidade para surpreender, ter espaços menos delimitados que os tornem imprevisíveis.

Não se trata de comparar qualidades técnicas, mas características. E, neste sentido, vale lembrar que Bebeto não era ponta, tampouco um centroavante; assim como Edílson, ou mesmo Edmundo. Todos foram brilhantes numa época em que predominavam sistemas com duplas de ataque. Não que esta seja a melhor forma, apenas que cabe a cada treinador entender como seu jogador se expressa melhor.

E se há um benefício que a chegada de Jorge Jesus deu ao Flamengo, este foi tirar o melhor de Gabigol. Buscar a área para finalizar, surpreender pelo lado, mover-se para buscar tabelas curtas... Além do número de gols, ele contribui com o jogo rubro-negro de forma mais ampla.

E se há um benefício que a chegada de Jorge Jesus deu ao Flamengo, este foi tirar o melhor de Gabigol.

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