Entrosado, Flamengo fulminante amassa o Vasco

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

Na loucura do calendário brasileiro as três semanas livres que Jorge Jesus teve para iniciar seu trabalho no Flamengo acabaram consideradas como tempo quase suficiente para que apresentasse novidades profundas. Ledo engano. A maturação de uma equipe requer não apenas treinamentos, mas ideias postas à prova em jogos. Sequência. Encaixes e ajustes necessários diante dos obstáculos, análises das reações dos atletas. Neste sábado, em Brasília, o Flamengo amassou o Vasco e mostrou que o técnico, em seu décimo jogo, apresenta maior domínio sobre a equipe. Uma goleada de 4 a 1 que indicou, claro, um caminho pavimentado já com resultados promissores. O diálogo entre banco e campo aumentou no Ninho do Urubu. Tempo, tempo, tempo.

A diferença técnica entre Vasco e Flamengo é óbvia. A necessidade de igualar de alguma maneira passa pela estratégia de jogo. Vanderlei Luxemburgo, inteligente, demonstrou entender o momento da bandeira que defende. Mandou a campo um Vasco num 4-1-4-1 muito agrupado, com marcação agressiva, alternando a pressão no campo adversário ou a partir da intermediária com o trio Richard, Marquinho e Lucas Mineiro. Aposta ofensiva na bola longa com Yago Pikachu e Talles Magno, ambos às costas dos laterais rubro-negros. Criou dificuldades, principalmente com o desacerto de Filipe Luís em uma defesa diferente da organização montada por Simeone em seus anos de Atlético de Madrid. Falta entrosamento, por exemplo, com Pablo Marí, o que gerou um espaço considerável e quase deu origem a um gol de Raul, muito bem defendido por Diego Alves. E deu chance também à ótima jogada de Pikachu, que resvalou o travessão e agitou vascaínos no Mané Garrincha. Sim, o Vasco jogava de maneira eficiente diante de sua estratégia. E gerava dificuldades ao rival.

Bruno Henrique e Arrascaeta, do Flamengo - Foto: Alexandre Vidal
Jorge Jesus decidiu mandar o Flamengo a campo em um 4-3-3, fórmula atingida com o jogo em andamento que deu certo diante da dificuldade contra o Grêmio, uma semana antes. Tinha de volta Gabigol à frente. O camisa 9 não é, mesmo, um centroavante. Busca o entorno da área. Como Bruno Henrique abriu à direita, o miolo de zaga vascaína tinha pouco o que vigiar dentro da área. Arrascaeta à esquerda, com Arão mais próximo ao uruguaio por dentro e Gerson no lado oposto. Cuéllar como primeiro volante. Ao avançar os laterais, o Flamengo buscava atacar em bloco. Sem Rafinha, suspenso, Rodinei se dedicava ao corredor. Filipe Luís, sim, buscava o meio. Mas faltava troca de passes, aproximação diante de um meio congestionado pelos vascaínos. Jorge Jesus, então, novamente fez do Flamengo uma equipe mutante. Transformou-a, de novo, com o jogo em andamento. Fez o inverso da partida contra o Grêmio.

Voltou ao 4-1-3-2 preferido, com Arão por dentro, Gerson à direita e Arrascaeta à esquerda na frente da linha dos atacantes. E um detalhe fundamental: Bruno Henrique saiu da direita para o lado oposto. Ali o entendimento com Arrascaeta é de arco com flecha: o uruguaio acha os espaços que a movimentação do camisa 27 gera. No lado oposto, Gerson e Gabigol dialogam com facilidade, entre dribles e tabelas. Até mesmo a dificuldade de Rodinei com Talles Magno, insinuante diante do lateral partindo para o meio, dando trabalho dobrado a Thuler, diminuiu. Jorge Jesus, por vezes, cobrou o camisa 2 a diminuir o espaço do garoto, o grande desafogo técnico do Vasco. O Flamengo, campo dominado, empurrou o rival para a defesa. Passou a trocar passes, de um lado a outro. Girar o jogo e acelerar. À la Jorge Jesus. O primeiro gol nasceu daí. Imposição no campo rival, um longo girar de bola que Filipe Luís passou à defesa, recebeu de volta e achou Bruno Henrique à esquerda. Na velocidade, tocou para Arrascaeta e recebeu de primeira de frente para a o gol de Fernando Miguel. Arco e flecha. No talento, o atacante puxou para dentro e bateu lindamente no canto esquerdo do goleiro. 1 a 0. Sim, o Vasco foi mais efetivo – e melhor – na maior parte do primeiro tempo. Mas a disparidade técnica do Flamengo moldou o clássico num estalar de dedos de Jorge Jesus.

O técnico português trouxe caracterísica importante ao Flamengo também na parte mental. Após um primeiro tempo difícil, conseguiu mudar a equipe para abrir vantagem. No segundo tempo manteve a postura ofensiva para ampliar o placar. Conseguiu rapidamente. Ainda com o mesmo posicionamento, o Flamengo avançou ainda mais o campo. Pablo Marí e Thuler, com ótimas saídas de jogo, passaram a avançar mais ao campo rival. E Cuéllar, depois de errar passes por displicência em frente à área no primeiro tempo, mostrou face que deveria explorar mais: participar, também, do jogo ofensivo. Assim o fez. Filipe Luís ao retomar a bola para Bruno Henrique. O atacante ao volante, na risca da grande área, que devolveu com belo passe por cima da defesa. Bruno Henrique, explosivo, tocou por cima de Fernando Miguel. Gabigol chegou junto da bola e, na súmula, faturou o gol. 2 a 0.

O clássico parecia já dominante pelo Flamengo diante de um Vasco que, ao contrário do primeiro tempo, oferecia fartos espaços, principalmente no meio. Luxemburgo sacou Marquinho e pôs Tiago Reis como referência na área, abrindo Talles Magno de fato à esquerda. Funcionou inicialmente pelo fato de o atacante ter cruzado bola e Thuler, de braço aberto, ter permitido o pênalti assinalado pelo VAR. Pikachu cobrou mal e Diego Alves, atento, mandou a escanteio. O Flamengo, então, mostrou que ainda tem ajustes a fazer: a bola cobrada pelo próprio Pikachu viajou até a área rubro-negra para um Leandro Castán, sem combate, tocar de cabeça para o fundo da rede. O Vasco, franco, diminuía a vantagem. O erro, fatal, foi ter acredito que poderia continuar com espaços abertos para agredir o Flamengo.

Como dito, os rubro-negros adiantaram ainda mais a equipe. E têm em Pablo Marí uma ótima saída de jogo. O zagueiro espanhol já se mostrou bom achado de mercado: joga de forma refinada, com passes e lançamentos precisos, quando necessário. Antecipa bem nos defensores, evitando o combate na velocidade. Mas não se furta de dar chutões para afastar a pelota em lance que pode resultar perigo. Ao tomar o meio de campo, Pablo Marí achou Gerson na direita. A matada do camisa 15 condiz com a classe que dita o ritmo do time desde que chegou. Peça fundamental de Jorge Jesus, Gerson puxou ao meio e, com a mão, tocou na cabeça de Bruno Henrique, que ultrapassava facilmente por Cáceres. A cabeçada só não foi fatal por defesa importante de Fernando Miguel. No rebote, Gabigol, sempre preciso, anotou seu 24º na temporada. Um belo gol. 3 a 1.

Os técnicos, então, agiram com suas armas. Luxemburgo sacou Cáceres, recuou Pikachu – com mais velocidade para acompanhar Bruno Henrique – e pôs Bruno César. Andrey substituiu Lucas Mineiro. O Vasco, mais ofensivo, ficou ainda mais exposto. Foi ao tudo ou nada. Leandro Castán, de cabeça, quase marcou de novo, com boa defesa de Diego Alves. A facilidade com que o zagueiro subia em bolas aéreas, provavelmente, foi determinante para Arrascaeta tentar impedir novo voo perigoso. E, com isso, derrubá-lo. Pênalti bem marcado que Bruno César chutou com violência para boa defesa de Diego Alves, iniciando daqueles lances que vão passar por tempos na memória dos rubro-negros. No bate-rebate, o Flamengo pôs a bola ao chão e disparou em contra-ataque. Vasco aberto, rival em velocidade, com Berrío já na vaga de Gabigol à direita. O cruzamento do colombiano encontrou Arrascaeta do outro lado, mas no meio da área – talvez alarmado com a fúria do Flamengo – Henríquez puxou e derrubrou Bruno Henrique. Arrascaeta, com categoria, fechou a goleada. 4 a 1.

Jorge Jesus, aos poucos, girou o elenco já de olho no confronto com o Internacional. Berrío, como dito, na vaga de Gabigol. Everton Ribeiro no lugar de Gerson. Piris da Motta substituindo Arrascaeta, fazendo o time finalizar o clássico em um 4-1-4-1 valorizando a bola, curtindo a superioridade diante do rival e os gritos de olé da arquibancada abarrotada do Mané Garrincha. Os números finais apontaram um Flamengo com 49% de posse de bola, 15 finalizações, 425 passes trocados e incríveis 19 desarmes*. Willian Arão, com quatro, e Filipe Luís e Pablo Marí, três cada, destacados no quesito. Um time que encontrou dificuldades, novamente se ajustou novamente aos pedidos do técnico com o jogo em andamento. Fulminante para bater o rival com facilidade. Jogadores decisivos, até no gol. A diferença entre os rivais nunca foi tão grande. Dentro e fora de campo. Sinais de um Flamengo que evolui. Tempo, tempo, tempo.

O diálogo entre banco e campo aumentou no Ninho do Urubu. Tempo, tempo, tempo.

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