Fla e Palmeiras não dominam o futebol brasileiro por erros próprios

O GLOBO: Martín Fernandez

Há anos circula uma teoria segundo a qual o futebol brasileiro corre o risco de "espanholização", ou seja: dois clubes emularem Barcelona e Real Madrid e concentrarem todo o dinheiro, o poder e o talento disponíveis. Aos demais restaria disputar as migalhas dos gigantes, comemorar eventuais terceiros lugares e derrotas por placares apertados.

A tese já foi desmentida pelos fatos incontáveis vezes. A começar por sua versão original, que previa Flamengo e Corinthians (e não Palmeiras) nos papéis principais. Uma olhada nas competições em curso mostra que o cenário é — e provavelmente sempre será — muito mais complexo no Brasil.

Foto: Gilvan de Souza
Grêmio, Inter, Cruzeiro e Athletico-PR são os semifinalistas da Copa do Brasil; não se pode tirar Santos, São Paulo e Corinthians da lista de times que vão brigar pelo título do Campeonato Brasileiro. O Grêmio está na terceira semifinal seguida de Libertadores, feito que um time brasileiro não alcançava desde o São Paulo de Telê (1992-93-94).

Por defeitos próprios e méritos alheios, Palmeiras e Flamengo ainda não conseguiram levar a cabo seus planos de dominação no futebol brasileiro. É curioso: embora sejam os atuais campeão e vice da Série A, nunca estiveram em boa fase simultaneamente. A capacidade de operar quase sem restrições orçamentárias elevou a pressão por resultados a um nível atroz, que prejudica ora um, ora outro.

Nesta semana, a derrota para o Grêmio nas quartas de final da Libertadores rendeu manchetes como esta: “Após eliminação, Palmeiras reforça a segurança”. Esta foi a 18ª participação do Palmeiras no torneio continental. Número de títulos: um. Não é preciso esforço para constatar que falhar é rotina e triunfar é exceção. O técnico daquela conquista foi o mesmo Luiz Felipe Scolari, que agora não presta mais.

Há alguns anos o Palmeiras experimenta um estado que o escritor e ex-atleta olímpico espanhol Martí Perarnau chama de “bulimia de vitórias”. O clube não desfruta dos títulos porque imediatamente se obriga a ganhar o próximo. O centro de treinamento dos profissionais que ganharam o último Campeonato Brasileiro passou a semana cercado por viaturas da polícia. É insano.

O Flamengo recebe o Palmeiras neste domingo numa situação rara nos últimos anos, quando essa rivalidade se acirrou. O rubro-negro olha de cima para o rival. A volta para uma semifinal de Libertadores depois de 35 anos e as vitórias seguidas na Série A exibiram um time afiado e confiável, à altura da expectativa criada pela bonança financeira e pelos anos sem títulos relevantes.

Não parece, mas é o time que, 40 dias atrás, teve seu capitão e camisa 10 hostilizado por dezenas de “torcedores” num lamentável incidente no aeroporto Tom Jobim. Segundo o relato deste jornal, o técnico Jorge Jesus se mobilizou para tentar dialogar com os agressores, que ironizaram o fato de mais ninguém ter descido do ônibus.

Flamengo e Palmeiras não viraram Barça e Real. Mas há razões de sobra para apostar num espetáculo interessante no Maracanã, especialmente se Jesus e Scolari puderem pensar mais no que vai acontecer em campo e menos na tensão que os cerca.

Flamengo e Palmeiras não viraram Barça e Real. Mas há razões de sobra para apostar num espetáculo interessante no Maracanã.

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