O grito de uma geração

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

Poucas manifestações no futebol são mais redentoras do que o grito de uma torcida rival após um gol. O urro que varre um estádio impactado pelo silêncio do revés é um dos componentes formadores do caráter de quem frequenta a arquibancada. Assim que o campo se ofereceu a Bruno Henrique e suas passadas largas, um túnel do tempo se abriu. Memórias encharcaram rubro-negros, longe ou perto do Beira-Rio. A maioria de fracassos recentes em Libertadores, que exigiam de uma geração desconfiar sempre mesmo com a vantagem construída no Maracanã. Bruno Henrique avança, as memórias já estão mais longe. Opacas. Tudo o que interessa ali é o rolar da bola para Gabigol. Com cuidado, o Camisa 9 basicamente deixa a redonda bater no seu pé. Na rede, com carinho necessário diante do momento. Na arquibancada atrás do gol, o grito de uma geração explode. 35 anos depois, o Flamengo está de volta a uma semifinal de Libertadores. Escreveu, no 1 a 1 com o Internacional, um belo capítulo na sua própria história. Pouco importa o desdém dos rivais. Depois do libertar da alma contra o Emelec, este Flamengo rompeu uma barreira. Permitiu, enfim, o grito de uma geração.

Comemoração de Gabigol pelo Flamengo contra o Internacional - Foto: Alexandre Vidal
Um grito que, ironicamente, chegou graças a uma frieza. Sem explosão. O time que se apresentou não só no Beira-Rio, mas em todo o confronto, é amadurecido. Tática e emocionalmente. Não se desorganiza, mostra confiança no que faz. No que deve fazer. Talvez o afastamento emocional de uma comissão técnica formada por europeus de algo tão latente no espírito rubro-negro explique. Afastada, mas que compreende a vocação ofensiva. E há, claro, a competência em formar um elenco com ótimos valores em um conjunto organizado. Com imensas variações. Pois tire aí da cartola, como joga o Flamengo de Jorge Jesus? De várias maneiras. Mostra preferência pelo 4-1-3-2, passa pelo 4-4-2, esbarra no 4-1-4-1 e decidiu indicar sempre um 4-2-3-1 nos dois jogos contra o Internacional. Com jogadores em diversas funções. Arrascaeta, dono do lado esquerdo, apareceu pela direita. Por dentro, Everton Ribeiro. À esquerda, sim, Bruno Henrique. Gerson, o curinga, mostrou uma vez mais o quanto amadureceu na Europa. Deu passos atrás para quase se alinhar a Cuéllar. E o Flamengo, então, se impôs.

Passou a trocar passes com desenvoltura, iniciando o jogo com os laterais por dentro, alternando entre os meias. Girando a bola de pé em pé diante de um rival que se não era acadelado como no Maracanã, tinha imensas dificuldades para oferecer resistência. O Flamengo, avançado, não especulava com vantagem. Foge ao manual básico do futebol brasileiro que parece ditar regras no Internacional. Odair Helmmann tenteou espelhar o rival depois do baile levado no Maracanã. Saiu do 4-1-4-1 do Rio para um 4-2-3-1 com D’Alessandro mais centralizado, Sobis à direita, Patrick à esquerda, Guerrero à frente. Faltava, talvez, maior força ofensiva para assustar os laterais do Flamengo. Rafael Sobis e Patrick estão longe de qualquer velocidade ou mesmo habilidade para buscar os espaços quando os defensores avançam para iniciar o jogo. Ao tentar avançar era surpreendido por um Flamengo intenso, com botes no campo rival, como o que Everton Ribeiro fez e rolou para Cuéllar, em passe de muita qualidade, tocar no avanço de Moledo para deixar Gabigol cara a cara com Lomba. Com um minuto, o atacante perdeu a chance de praticamente sacramentar o confronto.

O Beira-Rio, nervoso, não pulsava. Obrigado a tomar a iniciativa, o Inter buscava tramar jogadas ofensivas. Era claudicante. Tentava um jogo pobre, ao avançar pelos lados até a intermediária e alçar bolas à área na esperança de uma bola salvadora de Guerrero. O peruano, como no Maracanã, era presa fácil para a defesa do Flamengo. Rodrigo Caio de novo utilizou da tática de sempre se antecipar ao peruano, evitando sua melhor característica, ao dominar e fazer o pivô. Um jogo controlado. Era curioso observar que o maior espaço ao Flamengo surgia na tentativa do Inter em ser mais ofensivo. No 4-2-3-1, o time de Odair Hellmann tinha dificuldade em fechar espaços entre o meio e a defesa. Lindoso e Edenílson saíam mais à frente, sobrando espaço para o trio Everton Ribeiro, Arrascaeta e Bruno Henrique. Por ali, às costas dos volantes, os três apareceram para finalizar diante de Marcelo Lomba, chamando sempre os zagueiros para o combate. Odair tentou corrigir ao voltar ao 4-1-4-1, fixando Lindoso e formando a linha com D’Alessandro e Sobis aos lados, Patrick e Edenílson por dentro, como no Maracanã. Pouco funcionou por um simples fato: o Inter precisava sair ao ataque, buscar o gol. Ao adiantar a equipe dava espaços que o Flamengo aproveitou acelerando ao retomar a bola. Entrava aí o papel dos zagueiros rubro-negros: a iniciativa de dar logo início às jogadas se possível.

Pablo Marí foi ótimo achado do Flamengo no mercado europeu. Sereno, de boa estatura e que não se furta a chutões quando necessário. Mas é técnico. Além da parte defensiva, sabe iniciar o jogo. Ao retomar uma bola no meio imediatamente busca esticar o passe por dentro para a velocidade de Bruno Henrique e Gabigol. Assim achou o camisa 27, explosivo, em um enorme espaço pelo centro. O gol só não saiu porque Gabigol, de novo, perdeu ótima chance cara a cara com Lomba. O intervalo chegou com o placar zerado mesmo um Flamengo amplamente superior. As expressões de angústia no Beira-Rio desenhavam o panorama do jogo: cariocas superiores, conscientes, alternando jogadas entre a farta troca de passes – a posse bateu na casa dos 70% em alguns momentos – e as rápidas esticadas rumo ao gol rival, diante de gaúchos tensos e limitados ao ter de tomar as rédeas do jogo para si.

Na volta para o segundo tempo, o Inter chamou o Beira-Rio para o jogo na tentativa de promover o abafa que acabou frustrado pelo Flamengo e seu controle no primeiro tempo. Odair usou do velho expediente de modificar o time com cinco minutos para tentar confundir o que o adversário havia estruturado no intervalo. Sacou Sobis para a entrada de Wellington Silva, uma troca até óbvia, e logo em seguida surpreendeu ao tirar Uendel, recuar Patrick à lateral esquerda e pôr Nico López pela direita. Velocidade e habilidade para tentar intimidar os laterais rubro-negros, enfim. Ao observar o momento do jogo, o Flamengo entendeu que precisava, ali, explorar os contra-ataques para tentar matar o confronto. Posicionou-se em um 4-4-2, com Everton Ribeiro e Gabigol mais à frente, deixando Arrascaeta e Bruno Henrique no suporte aos laterais. Bem organizado defensivamente, o Flamengo não é mais o de outros tempos: não permite que exista espaço na frente de sua área, principalmente para arremates. Por mais que avançasse o time e buscasse o jogo pelos lados, não havia como o Inter construir por dentro. Limitou-se, então, a um jogo de bolas alçadas na área, cavadas de falta no entorno e escanteios. Em um desses lances, Lindoso abriu o placar num gol de cabeça que o VAR, inexplicavelmente, tentou questionar. 1 a 0. E o Beira-Rio, enfim, entrou em ação.

Daí as memórias encharcaram os rubro-negros. Mesmo a vantagem no Maracanã não indicava vaga garantida. Mesmo o jogo superior na maior parte do confronto não dava certeza de que o Flamengo voltaria a uma semifinal. Há feridas a cicatrizar. Desgostos a superar. Nos 15 minutos seguintes, o Inter enfim foi superior. Empurrou o Flamengo para o campo defensivo, deu botes no meio, mas ainda tinha dificuldades para construir diante do pouco espaço cedido pelo rival. Odair se empolgou, tirou Cuesta, recuou Lindoso à defesa e abriu Sarrafiore no lado direito, deixando Nico por dentro, próximo a Guerrero. Faltavam, porém, ideias. O Inter estava mais baseado no aleatório de alçar bolas na área. Jorge Jesus, atento aos detalhes que definem confrontos, tirou Cuéllar – amarelado – e pôs Piris da Motta para não correr o risco de ter de duelar com armas a menos. Depois, deixou Everton Ribeiro fora e pôs Berrío para explorar a velocidade em cima de Patrick.

O Inter mostrava poucas forças. Sem conseguir controlar o jogo com os pés, D’Alessandro tentava controlar emocionalmente, entre pitis e convites a sururus dignos das Libertadores dos anos 90. Mas o tempo passa. Avança. E deixava os colorados em situação de desespero. Bastaria, então, um erro. Entrou aí a qualidade de Arrascaeta. O uruguaio é dotado de extrema qualidade técnica e, de perfil tímido, sem exibir a tradicional garra charrua com publicidade de socos ao vento e encaradas, ainda assim consegue ser extremamente colaborativo na marcação sob a batuta de Jorge Jesus. Fazia até então um jogo de invisível competência. Sem a plasticidade da bicicleta contra o Ceará, mas na condução do jogo, protegendo a bola, limpando jogadas, achando espaços. Fazia, ao lado de Gerson, o Flamengo fluir. É raro, principalmente no futebol sul-americano. Pois uniu o melhor de si para determinar o jogo. Deu bote em Sarrafiore e rapidamente enxergou Bruno Henrique com campo livre. A cada passada, as memórias sumiam. A esperança aumentava. O grito subia. Então, o Beira-Rio levitou. De lado a lado, as torcidas prenderam as respirações. O balançar da rede foi perfeitamente audível. Seco. Fatal. O grito de uma geração rompeu o silêncio. Atravessou décadas. Afastou fantasmas. Criou novas superstições. Abriu caminho para a primeira semifinal em 35 anos.

Há um longo caminho a percorrer até uma possível glória em Santiago. Mas não é pouco o que este Flamengo fez. Dominante, se impôs sobre o Internacional de forma absoluta no confronto. Amadurecido coletivamente em tão pouco tempo. Com defeitos a corrigir, potencial para evoluir. Rompeu, enfim, uma barreira que já parecia intransponível. Há um belo novo capítulo na história do clube em competições sul-americanas. Ganha capa dura justamente por ser o contraste dos fracassos recentes. Há uma legião de rubro-negros que vai sempre lembrar. Que só ela vai entender. Foi neste 28 de agosto de 2019 que o grito, enfim, reverberou.

Há um longo caminho a percorrer até uma possível glória em Santiago. Mas não é pouco o que este Flamengo fez.

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