O que é ataque rápido e como ele explica o Flamengo de Jesus

PAINEL TÁTICO: Por Leonardo Miranda

Um dos grandes equívocos do futebol brasileiro é a ideia de que apenas o talento e a técnica, representados na figura do drible, são responsáveis pela qualidade e organização ofensiva de um time. É tudo o que o Flamengo de Jorge Jesus, semifinalista da Libertadores após 35 anos, não faz. O time tem talento, mas também tem organização para que esse talento apareça em campo.

Primeiro, precisamos entender que existem várias formas de se atacar no futebol. Podemos dividir em três formas “macro”, cada uma com suas organizações: você pode fazer gols contra-atacando (como o 1º gol do Fla), com a bola viajando enquanto o adversário está desorganizado, pode fazer um ataque apoiado, que é trabalhar mais a bola, com passes mais curtos, como o Fluminense do Diniz fazia, ou pode atacar rápido: bola trabalhada, mas para frente, com jogadores se deslocando no espaço.

O ataque rápido não é o que costumamos chamar de posse de bola - leia mais aqui. Ele é mais direto e rápido, e por isso envolvente. Faz o campo parecer maior, e por ser sempre para frente, faz o time chegar e criar chances num ritmo muito maior do que normalmente criaria. Vamos entender como funciona a mecânica dessa ideia.

Quarteto ofensivo sempre no espaço entrelinhas
O quarteto ofensivo do Flamengo se movimenta de forma incessante, quase frenética. Gabigol, Ribeiro, Bruno Henrique e Arrascaeta, muitas vezes Gérson ou Arão, sempre buscam estar acima da linha da bola e na lacuna entre a defesa e o meio do adversário. Esse é o chamado espaço entrelinha. É um posicionamento até rígido: eles sempre buscam estar no meio do caminho entre o zagueiro e o volante, como você vê na imagem.

As muitas linhas de passe que Rafinha tem — Foto: Leonardo Miranda

A consequência dessa organização é que o Fla sempre tem muitas opções de passe pelos lados. Contra o Inter, Rafinha (61) foi o jogador com mais passes feitos. Os laterais são os grandes criadores desses times, porque enxergam de frente e conectam quem estiver melhor colocado. Rafinha tem três opções acima, e se a marcação aperta, Cuellar está por perto. Além disso, a troca de posição gera dúvidas na marcação do adversário. Arrascaeta trocou com Gabigol aqui, e Bruno Henrique trocou com Éverton.

Jogar sem a bola é fundamental para atacar
Essa organização entrelinhas cria condições para que o time crie o tempo todo. Gabigol perde muitas chances, mas se perde, é porque cria bastante. Taticamente, o que produz essa criação são as projeções de quem está livre nos espaços vazios. A posição faz toda a diferença: quem recebe está num espaço vazio, e os jogadores devem novamente se mover para passar da linha da bola e criar ainda mais condições de trocar passes. Na imagem abaixo, o Fla começa a atacar com a bola na defesa. Cuellar afunda na linha dos zagueiros e faz a saída de três.

Agora observe como Filipe Luís, Bruno Henrique e Arrascaeta se movimentam: eles se deslocaram no espaço vazio, entrelinha. É muito difícil fazer isso, porque a bola está longe, lá na zaga, e o atacante sempre quer ficar perto do gol. É instintivo, até. O mais confortável pro time seria tocar no Gérson, ou no máximo, no Éverton Ribeiro.

Saída de bola do Flamengo: muitos jogadores se posicionando para receber — Foto: Leonardo Miranda

Por isso que é rápido: o Fla quer agredir mais. Sai da zona de conforto e sempre, sempre escolhe o passe mais vertical. Quem recebe a bola aqui é Bruno Henrique, que rapidamente toca para Filipe Luís. Esse movimento da bola viajar aos jogadores posicionados cria uma bagunça imensa no adversário, porque ele sempre tem que correr atrás da jogada e o Fla sempre terá jogadores livres para chegar ao gol.

Ataques ao espaço: muitos jogadores livres e em direção ao gol — Foto: Leonardo Miranda

O passe sempre é pra frente (e pouco pro lado)
Toda essa organização cria condições e confiança para que os jogadores consigam passar sempre para frente. E é isso que torna o time tão gostoso de ver: há sempre uma tentativa de chegar ao ataque, ao jogador mais bem colocado e sempre de forma rápida. O Flamengo é um time agressivo, que toca pouco para trás. O mapa de passes dos dois laterais contra o Inter é um exemplo: dos 100 passes que Filipe Luís e Rafinha deram na partida, apenas OITO foram PARA TRÁS. Oito!

Mapa de passes dos laterais Rafinha e Filipe Luís — Foto: Leonardo Miranda

Outro exemplo: dos 94 passes que Mari e Rodrigo Caio deram, impressionantes 38 foram para o campo de ataque do Fla. São zagueiros armadores, sobretudo, com grande capacidade de acertar uma bola rasteira e direcionada para quem busca lá no espaço entrelinha. Rodrigo Caio fazia muito isso no São Paulo, algo que nossa visão de futebol, muitas vezes bruta, não entende. Zagueiros são armadores sim, e o Fla mostra o quanto isso é benéfico ao time.

Mapa de passes de Rodrigo Caio e Pablo Mari — Foto: Leonardo Miranda

O diagnóstico de Abel Braga, lá no início do ano, foi preciso: o Flamengo precisava ser mais direto. Se Abel não conseguiu organizar o time para ser mais direto, Jesus recebeu reforços de peso e deu um toque mais racional para que a movimentação e o jogo fosse mais pautado no coletivo e não tanto na iniciativa individual.

Times que trocam passes à exaustão sempre foram alvo de críticas dos brasileiros. O América de 1949 era chamado de “tico tico no fubá” pelos toques sem sentido no ataque, muitas vezes alvo de vaias. Raí conta que Telê cobrava que os jogadores do São Paulo sempre dessem ou dois toques na bola, e que o toque de primeira sempre era o melhor. O Brasil sempre foi o país dos ataques diretos e rápidos, nunca o país da posse de bola. Para entender isso, é preciso entender o que é e como funciona os ataques rápidos do envolve Flamengo de Jorge Jesus.

É tudo o que o Flamengo de Jorge Jesus, semifinalista da Libertadores após 35 anos, não faz.

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