Um libertar de alma

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

Um travessão. Redenção. A bola explode e desperta a massa do transe. A baliza ainda chacoalha enquanto jogadores dividem seus espíritos. Deixam de ser um só. Entregaram ali no gramado a alma por aquele momento. Uns choram. Outros, ajoelhados, agradecem aos céus. Reações distintas. Que talvez soem exageradas a rivais desdenhosos. Natural. Não compreendem a essência rubro-negra. O flamenguista reconheceu ali a importância do momento. O rompimento de uma barreira. Quantas não foram as decepções em anos idos justamente em momentos como esse. Se há um engasgo na alma rubro-negra, ela se chama Libertadores. É daquelas contradições que ocorrem no futebol e tornam episódios mais saboroso. Especiais. Justamente o título cantado em prosa e verso ao lado do Mundial nas arquibancadas. Que fez de Zico e companhia históricos. Um engasgo. O berro uníssono que se ouviu no bater da bola de Queiróz no travessão de Diego Alves, portanto, foi isso. Redenção. Nove anos depois, o Flamengo voltou às quartas de final da Libertadores. Um libertar de alma.

Torcida do Flamengo - Foto: Marcelo Cortes
Ledo engano de quem pensou, com o iniciar fulminante, que a classificação estaria no bolso de maneira fácil. Quase protocolar. Pois indica a alma rubro-negra que a participação em Libertadores é acompanhada de um sofrer. Foi preciso, uma vez mais, vislumbrar mais uma eliminação vexatória para tentar jogar as regras da competição. Libertadores é diferente. Leva-se na tática, na técnica. Mas, sobretudo, com a alma. Em campo e fora. O batuque no Ninho do Urubu com sinalizadores foi um apronto para o corredor a receber o time no estádio. “Jogaremos juntos”, dizia o mosaico num Maracanã em transe. Qualquer alma rubro-negra já existente se fez presente na marcha que tomou as ruas do entorno e subia a rampa do Maracanã. “Vamos virar, Mengo!”. Insistente. Latente. Presente.

A atmosfera irresistível fez o Flamengo de Jorge Jesus entrar em campo ciente que necessitaria um jogo basicamente perfeito. Um controlar de nervos difícil. Era momento de doar a alma. Everton Ribeiro compareceu ao time titular. Claramente no sacrifício. Entregou-se a um Flamengo que precisaria ir além. Entregar tudo. Deixar a alma. No 4-1-3-2, o time avançou sobre o Emelec. Arão e Cuéllar alternavam o primeiro homem à frente da defesa. O colombiano ensaiava a cobertura a Rafinha, como no clássico contra o Botafogo. A rigor, o Flamengo atacava com fúria. Em bloco. Rafinha ultrapassava pela direita, ia ao fundo ou caía por dentro. Como um verdadeiro organizador. Gerson e Everton Ribeiro avançavam à área, que já tinha Gabigol e Bruno Henrique. Com segundos, Arão finalizou de forma perigosa por cima do gol de Dreer. Em minutos, Gabigol perdeu chance clara após ótima bola de Everton Ribeiro por dentro. O Flamengo acelerava. Trocava passes. Ameaçava. Corria contra o tempo.

O Emelec, por enquanto, mantinha a postura mais defensiva. Guardava a vantagem de Guayaquil debaixo do braço em um 4-1-4-1 muito aproximado, com Angulo solitário diante dos zagueiros rubro-negros. Que jogavam no limite. Thuler e Pablo Marí, a dupla formada de última hora, tinha de se arriscar para possibilitar a equipe ir ao limite. Jogavam muito adiantados, tentando sempre antecipar qualquer bola dos equatorianos. Mas o jogo, inteiro, era rubro-negro. Desde a arquibancada pulsante ao time que, elétrico, se doava para apertar o rival. Tomava o campo de ataque. E tomou a frente do placar em um lance irregular. Everton Ribeiro cobrou escanteio para Bruno Henrique, rasteiro, que devolveu em Rafinha. O lateral tentou passar por Bagüí, mas foi ao chão. O árbitro Nestor Pitana – em mais uma atuação ruim em gramados brasileiros – concedeu o pênalti sem pestanejar. Após longa celeuma, Gabigol não perdeu a concentração e abriu o placar. 1 a 0.

Natural que o Emelec se resguardasse ainda mais, com a vantagem de Guayaquil reduzida à metade com menos de dez minutos. Mas os equatorianos surpreenderam. Adiantaram a equipe, buscaram saídas rápidas com Cabezas e Guerrero pelos lados. Aproximaram a linha do meio a Angulo. Tentavam responder. Em vão. O Flamengo, em êxtase, conseguiu não se entorpecer pelas delícias da arquibancada. Continuava a trocar passes verticais, alternando os lados, atacando em bloco. Sem dar descanso. É um jogo ao gosto de Bruno Henrique. Pressionar o rival, roubar a pelota e disparar ao ataque com campo livre. Foi o que o atacante fez com Caicedo. Roubou a redonda e disparou à esquerda. Rolou para o centro da área, onde Everton Ribeiro não alcançou. Gabigol, sempre ele, anotou seu 22º gol em 2019. E fez o Maracanã levitar em suas delícias. Era real. Menos de 20 minutos, vantagem liquidada. Almas quase livres.

Ocorre que o Emelec uma vez mais surpreendeu. Agora sem ter com o que negociar no Maracanã se pôs ainda mais à frente. Passou a pressionar a saída de bola do Flamengo a fim de diminuir o ritmo incessante do rival. Criou certa dificuldade. O Flamengo, desta vez, voltou a fazer a saída de três de seu jogo. Pablo Marí e Thuler abriam aos lados para que o primeiro volante – ora Arão, ora Cuéllar – recebessem a redonda, possibilitando que os laterais, principalmente Rafinha, avançassem para o time continuar a ocupar o campo rival em bloco. Ao pressionar a saída do Flamengo, o Emelec forçou mais os erros do rival, abaixou a temperatura do jogo e correu menos atrás da bola. Enfim, respirou no Maracanã. Ainda assim, encerrou o primeiro tempo com apenas 34% de posse de bola e uma finalização contra dez dos donos da casa. A alma rubro-negra, aflita, já via no horizonte a angústia característica de um Flamengo às voltas com a Libertadores. Com razão.

Pois o Emelec tomou o jogo para si nos minutos iniciais do segundo tempo. Mais do que o adiantar da equipe, passou a trocar passes pelo centro do gramado, buscando oportunidade para arremates de longa distância. É um dos avanços do técnico Jorge Jesus no comando do Flamengo. Antes muito vulnerável na frente da área, a equipe hoje oferece menos oportunidades aos adversários. Mas, claro, longe de perfeição. Em uma batida de Queiroz, a bola parecia ter o endereço da rede. Acabou na linha de fundo. Ciente de que o Flamengo tinha baixado a rotação, o time equatoriano entrou no jogo. Mas, com limitações técnicas, quase não ameaçou. Jorge Jesus entendeu que precisava de trocas. Sacou Everton Ribeiro e pôs Arrascaeta em campo. Gerson saiu da esquerda para a direita. O uruguaio, sem condições ideiais, tentou contribuir ao seu melhor estilo. Valorizar a posse e buscar espaços para os avanços rivais. Foi, no entanto, um desencontro. Claramente desgastados com o ritmo intenso do primeiro tempo, o Flamengo sentia demais a parte física. Gabigol mancava e já não ocupava tanto o lado direito para invadir a área em diagonal. Rafinha segurava na defesa. Gerson diminuiu a vitalidade.

A rigor, o time teve duas boas chances de definir a classificação ainda nos 90 minutos. Uma com Thuler, que perdeu gol claríssimo em um escanteio desviado por Bruno Henrique para a pequena área. Outra com o próprio atacante, o escape rubro-negro, a disparar pela direita para terror de Caicedo, cortar para o meio e perder a passada para o arremate. A arquibancada, antes tão confiante, pulsava. Mas com nervos à flor da pele. Jorge Jesus, então, apostou alto. Com Gabigol lesionado, promoveu a estreia de Reinier, aos 17 anos, entre os profissionais. Depois, sacou um extenuado Gerson para pôr Berrío em campo. Cuéllar e Arão alinharam-se pelo meio, com o atacante colombiano à direita, Reinier por dentro e Arrascaeta à esquerda. Na verdade, o time atuava já em um 4-2-4, com os três citados juntos de Bruno Henrique. Seria de passar pela cabeça rubro-negra que o roteiro da noite, maroto que só, presenteasse dos céus uma classificação heróica com o estreante menino prodígio. Não há, porém, presente dos céus ao Flamengo em Libertadores. A busca insistente do goleiro Dreer pela cera nos tiros de meta sob a conivência do apito argentino indicava que a decisão por pênaltis seria bom negócio.

O Flamengo tentava. Arrastando-se quando possível, com fiapos da alma que ali no gramado se desmanchava, esfarelando-se aos poucos. Exausta. Mas o time ainda era um só. Embora Cuéllar, em péssima fase no pós-Copa América, tenha despertado qualquer mente que já admitia a cobrança de penalidades com uma perda de bola tola que resultou em falta perigosa. Não havia, porém, espaço para mais nada além do capítulo final. Uma decisão por pênaltis logo ali, duas semanas depois da queda para o Athletico-PR. Com o histórico em Libertadores. A aflição era palpável. Surgiu, então, o grito da arquibancada. Uma vez mais a marcha. “Vamos virar, Mengo!”. Mais alto. “Vamos virar, Mengo!”. Dessa vez, a sua gente acreditava. Ansiosa, mas levava fé. Não podia falhar. E não falhou. Arrascaeta, preciso, tirou o peso das mentes sobre as pernas rubro-negras. Bruno Henrique, Renê e Rafinha, mais leves, converteram as cobranças seguintes. Exorcizaram fantasmas. Arroyo, responsável pela fratura na perna de Diego, viu Diego Alves interromper seus sonhos. Então o Maracanã prendeu o fôlego. Queiroz, mansamente, foi para a cobrança. Explodiu no travessão. Redenção. As almas, antes unidas em um só, se dissiparam. Encharcaram com distintos sentimentos uma noite que servirá por algum tempo para acalentar os corações rubro-negros. Arquibancada e time. Uma noite de um Flamengo por inteiro. A fumaça vermelha que preenchia o corredor do ônibus indicava. Era noite do libertar da alma rubro-negra.

Nove anos depois, o Flamengo voltou às quartas de final da Libertadores. Um libertar de alma.

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