"Eu não sentia dificuldade de jogar no Flamengo", afirma Muralha

GLOBO ESPORTE: Alex Roberto Santana, goleiro do Coritiba, tem uma vida recheada de reviravoltas. Se em 2010 ele ainda enfrentava campos esburacados no interior de São Paulo, seis anos depois vestia a camisa do clube de maior torcida do Brasil e integrava o elenco da seleção brasileira em um jogo de eliminatórias.

No meio deste caminho, foi apelidado de Muralha.

No Flamengo, enfrentou a ira da torcida, que não perdoou falhas, e a ironia de jornalistas, que se recusaram a chamá-lo pelo apelido.

Após um ano de exílio na segunda divisão do Japão, Alex Muralha, 29 anos, recolhe as pedras para reconstruir a carreira no Coritiba, vice-líder na Série B.



– Já passei por tantas tempestades, que não tenho mais medo da chuva – afirma o goleiro, o quarto entrevistado da série Abre Aspas.

Muralha, você voltou a jogar bem, é titular do Coritiba, tem sido elogiado. Como está se sentindo?

É um momento que já vivi muito. As pessoas costumam olhar só as coisas ruins, mas desde que comecei, por onde passei, fui regular. Sempre fiz bons jogos. Sempre pude ajudar meus companheiros. Consegui chegar a um grande clube, jogar no Figueirense, depois cheguei ao Flamengo. Fui para o Japão, voltei, hoje estou aqui no Coritiba. É um momento a que já estou acostumado.

O que faltava, na sua carreira e na sua vida, para voltar a viver esse momento?

Acho que era questão de tempo. Passei um momento um pouco turbulento no Rio, mas tudo tem altos e baixos. Depende de como a gente lida com isso. Eu soube lidar e hoje sou uma pessoa melhor. Fiquei uma pessoa muito mais forte, muito mais centrada.

Qual o papel do Coritiba nesta retomada?

O Coritiba é um novo capítulo da história de vida do Alex. Quando voltei para o Brasil, não tinha tantas propostas dos clubes daqui. E o Coritiba abriu as portas para mim. Sou muito grato. O Coritiba está sendo uma parte especial da minha carreira.

Você foi para o Coritiba com um contrato em que o Flamengo pode te negociar a qualquer momento. Como é isso para você?

Quando cheguei aqui, disse que daria a vida por esse clube, que faria de tudo para termos um bom ano e conseguirmos o acesso. Estou consciente de que o contrato tem cláusulas de que eu posso sair para qualquer clube a qualquer momento. Mas vou honrar minha palavra e ficar até o final.

Você sente um pé atrás dos torcedores por toda a sua história?

Acho que é uma responsabilidade muito grande. O Alex Muralha é uma marca muito grande. Quando cheguei aqui, disse que talvez eu não chegaria com bons olhos ao Coritiba, mas iria dar a minha vida para mostrar que poderia contribuir. Hoje eu me sinto mais tranquilo, os torcedores viram que posso fazer bons jogos, posso ajudar meus companheiros. Está muito mais tranquilo do que no início.

Você começou no Paraná. Como foi parar lá?

Na minha cidade existia uma escolinha que fazia torneios pelo Brasil todo. Fomos para um torneio no Paraná, em Ourizona, uma cidadezinha pequena. Tem uma igreja, uma praça e um campo de futebol. Ali tinha um clube chamado Águia, que estava no torneio também. Esse clube me chamou para ficar um tempo lá. Acabou que todo o time foi embora, chegou em casa, chegou o ônibus, e minha mãe puta da vida, chorando: “Cadê meu filho?” Naquela época, não existia celular. Eu tinha de 13 para 14 anos. Achei um orelhão e liguei para a minha mãe, ela desesperada, e o professor explicou para ela. Meu pai já é mais tranquilão. É mais xucro, mais bruto, então é mais tranquilo. Ele entendeu no momento. Fiquei um tempo nesse time, fiz a base, tive a sorte de pegar grandes preparadores de goleiros. Um olheiro do Paraná foi olhar outro jogador em um amistoso. Ele me viu, gostou e chamou. Fui para o Paraná, fiquei um bom tempo ali fazendo as categorias de base, onde me profissionalizei. É um lugar que respeito, tenho carinho. Foi um clube que me deu uma oportunidade muito grande.

Mas antes disso você decidiu ser goleiro. Qual o momento em que você viu que gostava de jogar no gol?

Como no meu bairro eu era o maior, falavam “vai para o gol, cara, te vira”. Ali, com 10 anos, fui tomando gosto por jogar no gol. Não pensava ainda em jogar profissionalmente. Fui trabalhando bastante, treinando, e com o tempo fui vendo que eu tinha dom, talento. Eu ia numa boa, não era tão bom na linha quanto os outros. Não cheguei a arriscar (na linha), tanto que quando tem os rachões eu sempre vou para a zaga, fico ali, do lado do gol, só dando chutão.

Quando você era pequeno, queria ser quem?

Eu lembro do Taffarel jogando. Lembro muito. Minha mãe diz que às vezes me pegava brincando e gritando “Taffarel, Taffarel”, ouvindo as narrações do Galvão (Bueno). Foi uma coisa marcante. Quando cheguei na Seleção e me deparei com o Taffarel, foi assim: “Puxa, olha aonde eu consegui chegar. Um ídolo que eu tinha desde pequeno, estou aqui hoje trabalhando com ele”. É uma excelente pessoa, excelente profissional. É uma coisa que me deixou muito feliz.

Você nos disse que o Alex Muralha virou uma marca. Por quê?

Acho que por toda a história, por tudo que passei. As pessoas perguntam por que o apelido é Muralha. Recebi uma bandeira de torcedores do Comercial, de Ribeirão Preto, e quando fui jogar no Figueirense a imprensa revirou minha vida e viu que tinha uma bandeira. Eles vincularam o Alex Muralha porque fiz um excelente estadual, fui campeão em Santa Catarina. Dali em diante, meu nome foi crescendo cada vez mais, e esse vínculo foi ficando muito grande. Cheguei ao Flamengo, cheguei à Seleção, e acabou se tornando muito grande.

O apelido coloca muita pressão?

Sinceramente, coloca muita pressão. Muralha, como goleiro, é uma responsabilidade muito grande. Carrego uma responsabilidade muito grande de não poder errar, de estar sempre perfeito, de um lance que eu erro as pessoas já começarem a pegar no pé. Mas hoje sei lidar muito bem com isso. Já está normal na minha vida esse apelido.

Você sente que a imprensa pegou pesado por causa desse apelido?

De um modo geral, sim. Uma parte acabou, sim, pegando pesado. Críticas construtivas a gente sempre vai aceitar, não só no futebol. Mas de algum modo, em algum ponto, pegaram pesado, sim.

Teve o caso do jornal Extra (que disse que não usaria mais o apelido para se referir ao goleiro). Isso te machucou?

No momento, naquela situação, de fato magoou bastante. Porém, com o tempo... eu não conhecia o jornal. Eu sou um pouco alienado com relação a imprensa, essas coisas todas. Depois de um tempo vi que eles vivem disso, é uma forma de eles aparecerem na mídia. Acabou que eu entendi aquilo, ficou por terra.

O que passou na sua cabeça quando você leu aquilo?

É uma coisa meio desrespeitosa. Alguém tentar mudar seu nome por alguma coisa que você faz. É igual você estar fazendo uma entrevista, você errar alguma coisa, e a pessoa vai querer mudar aquela situação, mudar o seu nome. Acho que foi uma coisa atípica, tanto que acabou repercutindo bastante pelo Brasil. Porém, eu soube lidar com aquilo, e hoje não tenho mágoa nenhuma, estou bem tranquilo com relação a isso.



Qual foi o melhor jogo da sua vida?

Tive bastante jogo assim. Teve um jogo contra o Atlético-MG, pela Copa do Brasil, no Horto. Foi um jogo em que fiz muitas defesas pelo Figueirense. Contra o Palmeiras, pelo Flamengo, lá no estádio deles, foi o jogo em que fui convocado para a Seleção. Foi o que mais me marcou.

E o pior jogo?

O último que joguei pelo Flamengo. Quando a gente está no momento bom, qualquer coisa que a gente faz acaba dando certo. E no momento em que a gente está sobrecarregado a gente acaba fazendo coisas que não dão certo. Foi o jogo contra o Santos, se não me engano...

Que você tentou sair jogando...

Isso, acabou não dando certo, a gente saiu com a derrota. Claro que o jogo em si não se resume àquele lance, mas foi um jogo que foi muito ruim para mim.

Ali foi uma tentativa de demonstrar mais confiança do que você estava sentindo?

Acho que não. Naquele momento, eu tinha pouco tempo para pensar, reagir naquela situação, e tentei fazer de uma forma que seria um pouco mais fácil. Mas acabei sendo infeliz na jogada, poderia ter jogado para escanteio, ou qualquer outra coisa, ninguém ia lembrar. Mas acabou não dando certo. Não fui o primeiro, não fui o último, é uma coisa que acontece corriqueiramente. A gente está ali numa área de risco, a gente tem que estar ali, não pode errar, tem que ser perfeito os 90 minutos.

Você arriscaria de novo?

Dependendo do lance, sim. No Japão, fiz jogadas assim. Lá a gente era muito exigido para jogar com os pés, e em alguns momentos acabei fazendo. Claro que hoje os jogadores acabam estudando os goleiros, todo o time, então a gente tem que estar sempre ligado, mas com responsabilidade.

Você disse que um goleiro precisa ser perfeito os 90 minutos. É mais difícil ser perfeito os 90 minutos num time como o Flamengo?

O Flamengo é um time atípico, né? Um clube de expressão muito grande. Ali, você tem que estar sempre jogando bem. Você sabe que vai ter alguns reveses, mas tem que estar sempre concentrado, fazendo coisas boas. A mídia é muito grande, acima da média, e tem que estar sempre jogando em alto nível.

Qual a parte mais difícil de jogar no Flamengo?

Sinceramente, eu não sentia dificuldade de jogar lá. É uma coisa muito boa jogar com aquela torcida, com aquele clima. Onde quer que a gente ia, era sempre bem recepcionado, com casa cheia. Era bom desfrutar daqueles momentos.

Mas, pelo que você citou, o melhor momento da sua carreira foi no Figueirense?

O Flamengo também foi muito bom. Cheguei à Seleção, era um sonho de criança. O Figueirense foi o começo, aí tive a oportunidade de chegar ao Flamengo, fui para a Seleção, campeão carioca, campeão invicto, foi uma passagem muito boa também.

E do que você se arrepende da sua passagem pelo Flamengo?

Acho que não me arrependo de nada. Tudo o que esteve no meu alcance, eu procurei fazer da melhor maneira possível. Fui o primeiro a chegar ao CT, sempre trabalhei muito, muito focado.

Você disse que seu pior jogo na carreira foi o último pelo Flamengo. Independentemente de ser o Flamengo, fica uma vontade de voltar para apagar essa impressão?

Todo jogador quer jogar no Flamengo. Tive o prazer de jogar ali. Acho que hoje não preciso provar mais nada para ninguém. Tenho que provar para mim, da minha capacidade, sendo aqui no Coritiba ou em qualquer outro clube. Claro que não queria que terminasse daquela maneira, porém, como eu disse, a maior provação tem que ser para mim mesmo.

Você quer voltar?

No momento, não. Meu momento é aqui no Coritiba, estou muito feliz aqui.

Você considera o Flamengo uma página virada?

Tenho mais um ano de contrato com o Flamengo. Se eu tiver a oportunidade de voltar, vou ser feliz. Meu contrato acaba ano que vem. Não tem ainda nada certo, vai depender muito deste ano

Não é algo que fica te martelando? Que você precisa voltar ao Flamengo para provar que é capaz?

Não. Sinceramente, não. Foi uma coisa que passou na minha vida, somou muito como profissional, como pessoa. Ali eu vi o quanto era forte de poder superar tantas coisas ruins.

Você apontou como turbulento o momento no Flamengo. A que você credita isso?

Era um ano de política no clube, que estava trocando toda a gestão. Quando a gente chegou, sabia que ia carregar um peso muito grande. Na nossa reunião, entre os jogadores, a gente falou: “Vamos focar, vamos ter que buscar um título de expressão, porque vai ser um ano mais pressionado do que os outros”. A gente foi campeão carioca, porém, nas finais dos outros campeonatos a gente não conseguiu chegar ao título. A gente foi vice-campeão da Copa do Brasil, Sul-Americana, chegamos a brigar pelo título brasileiro. Mas começou nas disputas de pênaltis (contra o Cruzeiro, na final da Copa do Brasil de 2017). A partir dali as pessoas achavam que eu não era tão bom naquela função. Naquele momento, o peso se tornou maior para mim.

Você acha injusto te avaliarem por causa de pênaltis?

Acho que sim. Na história, sou o único goleiro cobrado por não defender um pênalti. É uma responsabilidade muito grande. Mesmo a gente estudando os batedores, é muito difícil, é muito rápido. Acho que, de algum modo, sim (é injusto).

Você tem duas passagens pelo Japão. Deve ser uma experiência muito diferente.

No Japão, eu gostava de ver sumô. Eu ligava a TV só para ver sumô. Era a coisa que eu entendia, o cara tinha que tirar o cara de dentro do círculo. Os jogadores têm costume de se reunir uma vez por mês e fazer uma confraternização. A gente foi em um restaurante de um ex-lutador de sumô. O cara era gigante. Eles comiam um prato que a gente dividia em seis pessoas. Mas foi uma experiência muito boa, um povo muito educado, um país onde tudo funciona. É uma educação milenar para criar o filho. É excepcional. E o futebol diferente, que agregou muito na minha vida. A gente acaba tendo que aprender uma nova língua, uma nova cultura, aprender os costumes.

Você aprendeu a falar japonês?

Poucas coisas. Por ser goleiro, na minha primeira passagem, quando cheguei no clube já peguei um caderninho e comecei a tentar decorar o nome de todo mundo. É muito difícil, os rostos são muito parecidos, apanhei bastante. Mas tive um amigo que jogou lá, ele me deu uma apostila. Aquilo acabou me ajudando. Por ser goleiro, tive que aprender algumas coisas para comunicar com os companheiros.

Você levou família?

Na primeira passagem, fui sozinho. Nessa segunda, fui com a minha esposa. Meu filho, Benjamim, acabou nascendo lá no final do ano passado. A gente teve que esperar ele completar um mês para voltar para o Brasil.

Por falar em família, no Flamengo você sofreu uma baita pressão. Jogador está acostumado a sofrer pressão de arquibancada, de dirigente. Mas agora tem um componente novo, que são as redes sociais. Sua esposa até precisou sair delas. Como você lida com essa pressão das redes sociais?

Já passei por tantas tempestades, que não tenho mais medo da chuva. São pessoas covardes. Às vezes, pessoas que nem colocam o rosto, não colocam nada, e entram com críticas. Mas não sou muito ligado em internet. Já não gostava antes. E justamente por isso, e não só comigo, as pessoas acham que têm o direito de te agredir de alguma forma. Acaba afetando a família, que não tem a mesma estrutura que a gente, porque a gente está acostumado a lidar com pressão, com cobrança. Da hora que a gente acorda até a hora em que vai dormir, a gente sempre sabe lidar com esse tipo de situação. Hoje, para mim, isso está superado. Não tenho mágoa de ninguém. Procuro estar focado no meu trabalho e não ligo para rede social.

Você acha que essas críticas se limitam ao seu desempenho ou elas carregam algum outro componente, talvez racial?

Acho que são pessoas pobres de espírito. O mundo precisa de um pouco mais de amor. Temos que nos apegar um pouco mais a Deus, ter um pouco mais de fé, se tornar uma pessoa melhor, fazer a diferença na vida das pessoas. Já tem muitas pessoas que criticam. Por que não fazer coisas boas, ajudar o próximo? Isso vai agregar muito para todos nós.

O Japão te ajudou a dar uma desligada do Brasil? Foi importante ter ido para o Japão, em vez de outro clube do Brasil, depois do Flamengo?

Cara, sinceramente, sim. Ali era o momento em que eu precisava dar uma espairecida, sair um pouco daquele turbilhão, ficar um pouco mais tranquilo com minha esposa, um pouco mais em paz. Foi o momento certo de ir para lá. Já gostava muito daquele país. Fiquei muito feliz com a oportunidade de ir para lá. Normalmente, o Japão não contrata goleiro. Foi o momento certo.

Você ou sua esposa ainda recebem mensagens de ódio?

A gente sempre recebe. Mas hoje é muito mais mensagem de apoio do que de ódio.

Qual o teor dessas mensagens?

As pessoas xingam, falam coisas indevidas. Mas estou um pouco mais por fora. Normalmente, é minha mulher que comenta comigo, e falo para ela não dar tanta importância. Ela também entendeu um pouco isso. Hoje a gente fica um pouco mais alienado. Hoje, tudo gira em torno das mídias sociais, e a gente procura ficar um pouco mais afastado disso.

Quando você chegou à Seleção, faltavam dois anos para a Copa do Mundo. Você chegou a pensar na Copa? Achou que a Seleção ia durar muito?

Foi um sonho realizado. Em um país com tantos grandes goleiros, você se sente lisonjeado. Claro que eu queria participar de uma Copa do Mundo. Era o segundo sonho. Foi uma passagem boa, uma experiência muito boa na minha vida, na minha carreira. Ali me mostrou como sou capaz de conquistar meus sonhos, meus objetivos.

Você acha possível voltar para a Seleção?

A caminhada é muito longa. Vou ter que correr o dobro, o triplo do que corri para poder chegar. Acho que talvez sim. Se eu tiver a oportunidade, vou ser muito feliz.

Como foi ser convocado?

É uma coisa meio surreal. Eu estava dirigindo meu carro, resolvendo um documento que estava com um problema, e aí chegou uma mensagem pra mim: “Pô, parabéns”. E eu nem tchum... Pensei: “Pô, não é dia do meu aniversário. O que tá acontecendo? Será que eu vou ser pai?” Aí chegou outra mensagem, parabéns e não sei mais o quê. Foi chegando uma mensagem atrás da outra. Aí, por fim, minha esposa me ligou, toda eufórica, e eu perguntei: “O que tá acontecendo?” Ela falou: “Você foi convocado.” E eu: “Sério?” Fui para casa, passei na padaria do condomínio e tinha uns amigos lá. Aí cheguei em casa, liguei a TV e vi que aquilo realmente era verdade. No momento, eu não estava acreditando, porque era um sonho que eu tinha desde os dez anos, e conseguir realizar é muito especial.

Onde você tem que jogar para voltar à Seleção?

Acho que aqui no Coritiba, jogando em alto nível, voltando para a primeira divisão, pode ser uma possibilidade.

Mesmo na Série B?

Não, subindo. Mas acho que na Série B também, a gente acabou de ver aí o Ivan, que foi convocado jogando pela Ponte Preta. Tem que estar sempre sonhando, sempre preparado, independentemente do que aconteça.

Jogar na Série B é um problema para quem esteve na Seleção?

Sinceramente, não. Fui ao Japão para jogar uma segunda divisão também. É um campeonato muito difícil. Estou na Série B com o Coritiba, mas o objetivo é voltar para a Série A. Tem grandes jogadores na Série B.

Você planeja o fim da carreira? Sabe até quando pretende jogar?

Eu me cuido bastante. Quero prolongar o máximo que eu puder minha carreira. Jogador tem uma carreira muito curta. Quando chega aos 30, todo mundo vê que está chegando a hora de parar. Mas eu me cuido bastante. Quanto mais eu prolongar essa carreira, mais feliz eu vou me sentir, então quero jogar no mínimo mais uns dez anos.

Tem algum clube que você faz muita questão de defender?

Talvez daqui a uns anos, quando estiver perto do fim da minha carreira, eu tenha vontade de voltar para o Figueirense, um lugar especial, onde fiz muitos amigos. E minha esposa é de lá. É uma terra que me acolheu muito bem no início da minha carreira.

Como você vê essa situação do Figueirense na Série B? Os jogadores fizeram algo histórico (ao se negar a jogar por atrasos de salários). Como você vê esse movimento?

Não é só no Figueirense. Em nenhum clube do Brasil pode acontecer esse tipo de situação. São profissionais, trabalhadores. Alguns, pelo que a gente escuta pela mídia, estão há quase um ano sem receber. Isso não deve acontecer. A gente fica muito triste pela situação. Em relação ao WO, é uma coisa que vai mexer muito, repercutir muito, porque não é uma coisa normal, corriqueira. Espero que os dirigentes possam resolver da melhor maneira possível. É um clube de tradição, com muita história, e vou torcer para que se resolva da melhor maneira.

Você acha que a greve é um instrumento válido? Em uma situação parecida com essa, você apoiaria?

Olha, é difícil dizer, porque a gente não está no lugar deles. Teria que pensar bastante. A greve é, sim, válida. Mas tem que ter muita sabedoria para fazer.

Você já passou por isso? Já teve salários atrasados?

Já passei. Quando comecei minha carreira, cheguei a ficar sete, oito meses sem receber. É muito difícil, porque você tem família, tem pessoas que dependem de você. É uma coisa que acaba refletindo dentro de campo. Você fica preocupado de ter o que levar de comer para seus filhos, sua esposa. Isso não pode acontecer. Nós, jogadores, somos trabalhadores, acordamos cedo todos os dias. É uma profissão atípica, sem fim de semana, sem feriado. É uma profissão diferente. Isso não pode acontecer em nenhum clube.

Como você fazia nessa época dos salários atrasados?

A gente se virava. A esposa saía, trabalhava, fazia uns bicos. A sogra ajudava. É chato. Mas nesses momentos você vê quem está do seu lado, com quem você pode contar.

Teve algum momento em que tua família te pediu para largar o futebol?

No começo, teve, sim. Passei por alguns lugares que às vezes a mãe, pela minha voz, sentia o que eu estava passando. Ela dizia: “Filho, vem para cá, fica aqui, depois você vai para outro lugar, descansa um pouco.” E eu dizia: “Não, mãe, vou ficar aqui, vou continuar, vamos ver no que vai dar.”

Teve algum momento em que a ideia de desistir partiu de você mesmo?

Olha, no começo a gente pensa, sim. Como te disse, é muito fácil ver o Muralha pronto, mas já passei por lugares em que a gente não tinha o que comer. A gente tinha que dividir o pouco de comida com os companheiros. Passei por lugares em que a gente não tinha o cobertor para cobrir. Em um time do interior, a gente foi fazer um teste, e eles não disponibilizavam cobertores pra gente. A gente ia fazer o teste na manhã seguinte, e as janelas do nosso quarto estavam quebradas. Era uma época de muito frio. A gente vestiu as poucas roupas que levou, porque seriam poucos dias, e aquilo tudo não matava nosso frio. E o que a gente fez? A gente entrou no chuveiro, ligou um pouco e deixou o vapor. A cada hora, iam dois ou três para aquecer. São coisas que a gente leva de experiência, que fortalecem cada vez mais, e quando a gente chega ao profissional, vê que tudo que passou lá atrás foi muito válido.

Nem no momento em que você falou sobre dividir comida ou passar frio você se abalou. O que te faz chorar?

Ver a tristeza da minha mãe, ou do meu pai. Naquele momento do Flamengo, minha mãe ficou um pouco doente, teve que tomar alguns remédios. Aquilo... quando afeta sua família, afeta você também. Enquanto você recebe críticas, você consegue lidar. Quando toca em algum membro da sua família, machuca bastante.

Seus pais perceberam isso como? Eles saíam na rua e ouviam piadas? Viam na televisão?

Foi mais por conta da mídia. Minha cidade, Três Corações, em Minas Gerais, é uma cidade do interior, muito pequena, tradicional, com seus costumes. Acompanhava mais pela televisão, pelos jornais.

Você sabia que é o único jogador de Três Corações convocado para a Seleção depois do Pelé?

Soube depois de um tempo. Tem uma casa da cultura lá, eles me pediram uma camisa da Seleção para assinar, deixar no museu, junto às coisas que têm lá, lembranças do Pelé. Reconstruíram uma casa da infância dele.

O que você faz nas férias? Você vê futebol? Ou desliga?

Cara, na minha folga eu vou para um sítio onde não pega nem celular. Eu fico quietinho lá. Saio para pescar, saio para caçar com meu pai. Trato dos bichos. A coisa que eu mais gosto de fazer nas férias é desligar de tudo, ficar quietinho num canto, só curtindo meus pais. A gente fica a maior parte do tempo longe deles.

É isso que você vai fazer quando parar?

Com certeza. Vou para o meio do mato, ficar no meio dos bichos. Gosto muito dos animais. Minha esposa está meio relutante ainda. “Eu vou sozinho, então”. Estamos nessa briga ainda, mas tem tempo para pensar, para fazer ela gostar cada vez mais.

Uma última pergunta, Muralha: como você gostaria de ser lembrado no futuro?

Eu queria ser lembrado como um atleta que superou grandes dificuldades, um atleta que seja um exemplo para algumas pessoas. Gostaria de ser lembrado como uma pessoa do bem, uma pessoa que sempre faz de tudo para ajudar quem está do meu lado.

No Flamengo, enfrentou a ira da torcida, que não perdoou falhas, e a ironia de jornalistas, que se recusaram a chamá-lo pelo apelido.

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