Flamengo supera Santos no melhor confronto de ideias do país

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

Há no futebol brasileiro quem feche a expressão do rosto tão logo comece a ouvir elogios a Jorge Jesus e Jorge Sampaoli. Xarás estrangeiros que sacudiram a temporada com suas ideias. Natural a ansiedade em observá-los frente a frente, com ações e reações, um duelo de times bem treinados, cientes do necessário para atender aos anseios dos técnicos e superar o rival. Não houve decepção. Líder do Campeonato Brasileiro, o Flamengo de Jorge Jesus foi desafiado pela primeira vez no Maracanã. Não é coincidência que o oponente tenha sido justamente do Santos de Jorge Sampaoli. Uma batalha no campo de ideias de como jogar futebol. Há semelhanças. Pois ambos os Jorges, Jesus e Sampaoli, buscam exatamente isso: jogar futebol. Negam-se a ser coadjuvantes. No choque do pensar sobre a bola desejam sempre o protagonismo das partidas. A vitória rubro-negra por 1 a 0 comprovou a evolução e a solidez da equipe de Jorge Jesus. E não diminuiu o time de Sampaoli. Ao contrário. Houve ação e reação. Desafio e resposta.

Gabigol, Rafinha, Everton Ribeiro, Bruno Henrique e Arrascaeta no Flamengo - Foto: Divulgação
Na atmosfera envolvente que se tornou o Maracanã na temporada, a festa tem início no dissipar da fumaça rubro-negra que custa a desaparecer na entrada dos times em campo. Com o tempo forma uma parede turva, branca, inebriante, basicamente escondendo o campo. Na licença poética da bola era clara a mensagem: a cortina de um espetáculo ainda a esconder o palco e seus artistas. Quando a visibilidade foi perfeita e a cortina sumiu foi possível observar que Jorge Jesus mandou a campo elenco conhecido. Um time no 4-2-3-1, Gerson e Willian Arão como volantes, Bruno Henrique à direita, Everton Ribeiro por dentro, Arrascaeta à esquerda. Um Flamengo ofensivo, no tom da arquibancada, disposto a pôr grande intensidade na partida e pressionar o adversário na saída de bola. Havia um problema: o Santos pensava exatamente da mesma maneira. Com surpresas à la Sampaoli.

A rigor, um 4-3-3. Mas Luan Peres, o zagueiro, era lateral-esquerdo. Jorge, o lateral, virou meia ao lado de Carlos Sánchez. Alison, mais recuado, formava o triângulo do meio. À frente, Marinho à direita, Soteldo à esquerda, Eduardo Sasha pelo centro. Em princípio, esse era o Santos. Mas o que talvez mais encante nos times de Sampaoli é a característica de ser absolutamente mutável. Não termina como inicia. Não indica ao adversário o que vai fazer. Com a bola em sua posse, ficou claro: Luan Peres formava o trio defensivo com Lucas Veríssimo e Gustavo Henrique, liberando Victor Ferraz para adiantar o bloco ofensivo, indicando um 3-4-3. E uma sacada do técnico argentino que ninguém tivera diante deste Flamengo: sufocar o zagueiro Pablo Marí. O espanhol é responsável por grande parte da saída de jogo do time rubro-negro. Domina a pelota e quase nunca busca o passe lateral. Adiantado, tenta forçar a saída pelo meio, seja com Gerson ou até mesmo com Everton Ribeiro ou Bruno Henrique, ao cair pelo centro. Marí pegava na bola, seu espaço era reduzido, com a pressão forte de um santista. O Flamengo teve dificuldades para iniciar seu jogo. A bola batia e voltava.

Ao retomá-la, o Santos acelerava principalmente pelos lados, com Marinho em cima de Filipe Luís e Soteldo com Rafinha. Os laterais, outras grandes opções de desafogo para o início do jogo rubro-negro, tinham trabalho. Por vezes, o Flamengo teve de forçar uma bola longa – até mesmo em tiro de meta com Diego Alves – para se livrar da pressão santista. Não significava, porém, um amplo domínio do vice-líder. A posse de bola era dividida e o Flamengo, desafiado, tinha seus caminhos fechados. Não havia fluidez no jogo. Se a encontrava, minimamente, era também parado pelo excesso de faltas santistas. Tentava, então, encontrar soluções para sair da marcação. Uma delas era a enorme movimentação de Everton Ribeiro. Meio, esquerda, direita, voltava para fechar marcação e tentava criar por dentro. Incansável, o Camisa 7 era quem desatava nós para seus companheiros. A driblar um, dois, três e permitir o espaço. Jorge Jesus, à beira do gramado, respondeu Sampaoli. Passou Bruno Henrique ao seu habitat, pela esquerda, aproximando de Gabigol. Assim pôs um freio em um lado forte santista. Victor Ferraz subia menos e, com isso, Marinho era menos incisivo contra Filipe Luís. A estratégia de alguns momentos do Flamengo para aproveitar a velocidade de seus atacantes aos poucos desapareceu. De novo, o time avançou forte, com enorme pressão na saída de bola santista. Ação e reação.

Era um jogo difícil para os dois lados. Times mutuamente estudados, com armas para apresentar a cada sacada do adversário. De fato, poucas chances ocorreram. Sánchez conseguira escapada pela direita e bateu forte para defesa de Diego Alves. Arrascaeta aproveitou saída errada santista e avançou, batendo cruzado e fraco à esquerda de Everson. Bastaria um erro de qualquer lado. Ele aconteceu no fim da primeira etapa. Avançado em bloco, o Santos trabalhou bola para achar espaços. Mas o sistema defensivo rubro-negro está em viés de alta. Filipe Luís avança para tentar o passe por dentro. Imediatamente, Arão fecha a linha com os zagueiros à esquerda. Filipe, então, preenche por dentro para diminuir o espaço para o passe rival. Sasha, sem ter como avançar, puxou para o centro, tentando o passe. Everton Ribeiro, bem posicionado, roubou a bola e imediatamente deu passe rápido para o arranque de Gabigol. Notável inteligência, não acaso. Bruno Henrique e Gabigol, velozes, estavam postados às costas de Gustavo Henrique e Lucas Veríssimo, os únicos santistas no campo defensivo diante de um time tão avançado e que não poderia errar. No erro, tudo se desequilibrou.

Há momentos que explicam o futebol. Os segundos em que a bola viaja do pé de Gabigol, suave, são exemplos disso. Todos esperavam, depois do corte para dentro, uma batida forte. A doce delícia da surpresa. Em vez disso, ela flutua numa eternidade em que foi possível sentir o Maracanã prender o fôlego. A expectativa do torcedor rubro-negro com o destino final. A apreensão santista com a genialidade fora do script. O arrependimento imediato de Everson de estar passos à frente. O pulo de desespero de Luan Peres, espectador privilegiado dentro da área, ao entender que ela mergulharia na rede. Tudo está ali. Em meros segundos. A completar com a explosão da gente que, estupefata, mal sabe como comemorar. Uns se abraçam. Outros, atônitos, levam mãos à cabeça. Escancaram as bocas. Soltam palavrões. Gabigol, o falso marrento, para à beira do gramado. Não há placa. Mas houve gol do Gabigol pela 30ª vez em 2019. 1 a 0.

Um primeiro tempo eletrizante que chegou ao fim com leve superioridade de Sampaoli no confronto de ideias. Explica-se: seu intuito era travar as saídas do Flamengo e tentar agredi-lo com velocidade. Na maior parte do tempo, conseguiu impedir a fúria de um Flamengo sempre impositivo no Maracanã sob o comandod e Jorge Jesus. Mas uma batalha, claro, não se ganha apenas na metade. Na segunda etapa, o Flamengo de Jorge Jesus foi amplamente superior. Reiniciou a partida no campo santista, pressionando a saída e quase ampliou o placar com Gabigol e Everton Ribeiro, com finalizações perigosas. Manteve a alternância entre o 4-2-3-1 e o 4-4-2, principalmente quando Bruno Henrique se descolava e ia à esquerda para preocupar Victor Ferraz. O volume de jogo santista do primeiro tempo teve incrível redução e o Flamengo passou a controlar a partida como não fizera anteriormente. Sampaoli tirou mais ideias de sua cartola. Devolveu Jorge à lateral e pôs Uribe na vaga de Luan Peres. Sacou Sasha e pôs Cueva, mantendo sempre o 4-3-3, agora com o meia peruano centralizado. Depois, tirou Sánchez, pôs Felipe Jonatan pela esquerda alinhado com Cueva, à direita. Soteldo e Marinho ainda pelos lados. O Flamengo, no entanto, já tinha entendido o jogo. Manteve ótimo posicionamento, principalmente por dentro com Gerson e Willian Arão – importantes no coletivo e sem tanto brilho individual, desta vez.

Menos intenso, talvez por desgaste físico, o Santos já não mantinha a pressão na saída de bola rubro-negra. Everton Ribeiro, às costa de Alison, carregava a bola com maior facilidade. Em uma de suas costuradas, deixou Arrascaeta livre para marcar o segundo. A conclusão para fora indicou que era hora de sacar o uruguaio – discreto no jogo. Berrío entrou para abrir à direita e incomodar Jorge e Soteldo. Bruno Henrique à esquerda para continuar a infernizar Victor Ferraz com suas passadas largas. Filipe Luís já entendera Marinho e já não evitava o giro do atacante. Concentrado, o Flamengo não deu mais chances ao Santos. Jorge Jesus, no fim, vencera o duelo de ideias com Sampaoli. Foi desafiado e respondeu. Um teste à altura para os dois melhores técnicos do futebol brasileiro atualmente.

Jorge Jesus fecha o turno com a primeira colocação, tendo transformado o Flamengo em uma equipe segura, furiosa no ataque e dona de seu território. Encontrou dificuldades – teve menos posse de bola, 48%*, algo raro – e se finalizou apenas duas bolas no alvo das 12 tentativas, não viu uma bola santista sequer ir ao encontro da meta de Diego Alves. São seis vitórias consecutivas, com 17 gols marcados e apenas dois sofridos nestas partidas. O adversário à altura engradeceu a vitória rubro-negra e mostrou a consistência atingida para a sequência da temporada. Não foi um baile como diante do Palmeiras. O placar magro engana. O Maracanã apresentou ação e reação. Desafio e resposta no que pode ser, desde já, chamado de melhor confronto de ideias do futebol brasileiro.

Não foi um baile como diante do Palmeiras. O placar magro engana. O Maracanã apresentou ação e reação.

Postar um comentário

[facebook]

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Tecnologia do Blogger.
Javascript DisablePlease Enable Javascript To See All Widget