Marí diz que, no Maracanã, Flamengo se equipara a Real e Barça

GLOBO ESPORTE: Se tudo isto for um sonho, não acorde Pablo Marí. O zagueiro espanhol de 26 anos, que até há pouco tempo estava jogando a Segunda Divisão de seu país pelo Deportivo La Coruña, cruzou o Oceano Atlântico no contra-fluxo para levar o Flamengo à liderança do Campeonato Brasileiro e de volta a uma semifinal de Libertadores depois de 35 anos.

Nem mesmo a questão do idioma é problema. Marí pode ainda ter dificuldade para falar o português e precisar de ajuda dos companheiros bilíngues, mas para ouvir entende tudo perfeitamente. Inclusive as músicas que a torcida rubro-negra entoa no Maracanã. E ele já está até aprendendo e se arriscando a cantar junto (veja no vídeo abaixo).



Marí está apaixonado pelo Rio de Janeiro, pelo Maracanã lotado, pelo Flamengo. Em entrevista ao "Jornal AS", da Espanha, pouco depois de sua chegada ao Brasil, o defensor comparou a grandeza do clube a dos gigantes Real Madrid e Barcelona. Foi muito questionado pelos amigos espanhóis depois da declaração, mas rebateu argumentando:

– Eu disse: "Não é capaz de enxergar porque não veio viver um dia aqui. No momento em que vier e acompanhar um jogo no Maracanã, depois terá a ideia do que é comparar uma coisa com outra".

Bastaram 10 jogos e dois gols para o zagueiro conquistar a Nação e ganhar o apelido de "xerife", que ele não conhecia, mas curtiu e aprovou. E para o sonho ficar completo, nos últimos dias chegaram de mudança a esposa espanhola, Verónica, e seu filho, Pablo, de um ano e meio.

Com sorriso de orelha a orelha, Marí recebeu o Globo Esporte em sua casa na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio. Deu detalhes de sua adaptação à cultura e futebol brasileiros; relembrou o drama no início da carreira que quase o fez desistir de ser jogador; enalteceu o dia a dia com Jorge Jesus e sonhou alto no Flamengo... E por que não na sua seleção?

Confira a entrevista completa:

Globo Esporte: como está o seu "portunhol"?

Pablo Marí: – Acho que já consigo me comunicar bem com meus companheiros. Entendo o português perfeito praticamente. Para falar ainda me falta um pouco para aprender, mas está bom (risos).

Já passou por alguma situação que não conseguiu se comunicar?

– Sim, já tive situações em que o Rafinha, Diego Alves ou Filipe Luís me ajudaram com algum companheiro ou árbitro, que também não conseguia falar com ele. Mas agora, com um mês e meio, creio que isso já está solucionado (risos).

Filipe Luís morou muitos anos na Espanha. Ele te ajuda com a questão do idioma?

– Sim, nós falamos muito de futebol, ele é uma pessoa que entende muito. Para mim, é como um treinador dentro de campo (risos). Gosto de aprender com ele, jogou em grandes clubes da Espanha, da Inglaterra... Para mim é uma referência e um orgulho poder jogar ao lado dele.

O que está achando da cultura brasileira?

– Creio que a vida aqui... As pessoas são muito tranquilas. Era algo que eu não conhecia, e essa tranquilidade favorece que concentre só no futebol. Isso para nós, que somos profissionais, é ótimo para se dedicar ao futebol. Na Espanha as pessoas têm muito estresse.

Tem algum lugar da cidade que já conseguiu visitar?

– Fui ver o Cristo (Redentor), é espetacular. Fui no fim do dia, estava no pôr do sol, foi uma imagem muito bonita. As praias aqui também são maravilhosas.

Depois de 10 jogos, a torcida já vai te conhecendo melhor em campo. Mas como é o Pablo Marí fora dos gramados?

– As pessoas que me conhecem já sabem: sou muito tranquilo, que desfruta estar com a minha família, com minha mulher e meu filho nos dias de folgas, durante as tardes... Sou muito família. E dentro do vestiário sou aquele que ajuda qualquer companheiro, gosto do relacionamento com as pessoas. E, sobretudo, rir. Gosto muito de rir durante o dia, do treino, é importante que goste do trabalho que faz. Sou muito feliz.

E como está sentindo o carinho do torcedor?

– É muito grande. Desde o primeiro dia me recebeu muito bem. Obviamente, ter 40 milhões de pessoas que te aceitem não é fácil. Tem que ganhar. Fazendo meu trabalho no dia a dia e sendo a pessoa que sou, acho que estou conseguindo. Espero continuar fazendo o meu melhor e não falhar com eles.

Nas ruas as pessoas já te reconhecem?

– Agora sim, nos primeiros dias não (risos). Agora já tem mais gente me conhecendo. Sempre me pedem foto, autógrafo, o que for, é algo muito fácil de fazer feliz uma pessoa e não me custa nada.

Você fala muito com os amigos de lá da Europa? O que mais eles te perguntam?

– O que mais eles me perguntam é sobre o futebol. É a primeira coisa. A distância faz com que não tenha muita noção de como é o Campeonato Brasileiro. E eu lhes digo que estou muito contente. Aqui o nível é muito bom, e para mim estar aqui vindo da Espanha é um autêntico prazer.

Você recentemente deu uma entrevista para o "AS", da Espanha, e comparou o Flamengo em termos de grandeza a Real Madrid e Barcelona. Sabe como essa entrevista repercutiu por lá?

– Repercutiu muito porque todos me perguntavam: "Como pode comparar Real Madrid e Barcelona com o Flamengo?" E eu disse: "Não é capaz de enxergar porque não veio viver um dia aqui. No momento em que vier e acompanhar um jogo no Maracanã, depois terá a ideia do que é comparar uma coisa com a outra". Eu continuo pensando o mesmo.

Seus olhos chegam a brilhar quando fala do Maracanã. Como é o sentimento de estar no estádio?

– Para mim, o momento em que sinto a pele arrepiar é quando entro em campo de mãos dadas com as crianças, e o Maracanã começa a cantar. Esse momento é incrível. Já entra com vontade de correr 95 minutos por eles.

A Verónica, sua esposa, chegou há poucos dias ao Brasil, mas já postou foto no Maracanã e tudo. O que ele está achando?

– Quando terminou o jogo contra o Palmeiras, ela ficou umas três horas sem saber me descrever o Maracanã. Para qualquer pessoa que vem ver um jogo no Maracanã já não há nada comparável no futebol. É algo inexplicável, não tenho palavras para descrevê-lo. E eu já sabia que minha mulher não poderia me dizer nada porque eu vivi o mesmo contra o Goiás. Ganhamos de 6 a 1 e eu não tinha palavras para descrever para ela no telefone o que vivi (na primeira vez) no Maracanã. Disse para toda a família que tem que vir aqui para viver isso.

E seus pais, não virão visitá-lo?

– Sim, eles virão. Mas acontece que minha irmã agora está grávida, em breve vai ser mãe, e eles estão ajudando ela. Mas depois que nascer em dezembro creio que eles já virão para me visitar.

Qual era o seu time de infância? Barcelona? Real Madrid?...

– O Valencia. É a equipe da minha cidade, onde comecei a jogar futebol. É um time que sempre gostei de ver pela televisão.

Como foi esse seu começou no futebol?

– Quando era pequeno jogava no parque de casa com meus amigos. Oficialmente não tinha time. Um dia meu pai disse: "Vamos para o time da cidade". E oficialmente eu comecei a jogar. Fiquei um ano, depois fui para o Valencia, que é um clube muito grande da região onde vivo. Fiquei lá de quatro a cinco anos em formação.

– Na segunda equipe do Valencia, que se chama Levante, também fiquei de dois a três anos. Com 14 anos, tomei a decisão de sair de casa e mudar de cidade sozinho, fui para o Mallorca para me profissionalizar. Fiquei com outra família, que eu não conhecia, mas me ajudaram muito também. E quando fiz 18 anos, e fiquei maior de idade, fui morar sozinho.

Muitos jogadores brasileiros vêm de origem humilde. Você vem de um país rico, alguma vez enfrentou dificuldade financeira quando pequeno?

– Não, tive uma vida normal na Espanha. Uma família humilde, não venho de nenhuma família rica. Mas uma família normal, de casa, com muitos amigos... Uma vida normal na Espanha.

Mas teve um momento nessa época que quase o fez desistir da carreira, não é?

– Sim, mas foi antes. Foi com 11 anos. Por causa de muitas lesões no quadril, creio que quatro ou cinco vezes com o mesmo problema, um dia falei para o meu pai: "Papai, esta vai ser a última (tentativa). Se me reincorporo ao time e voltar a me lesionar, deixarei o futebol porque não poderei mais, não quero seguir tendo dores todos os dias". Falei que era a última vez, e não aconteceu mais.

Quem era, ou ainda é, sua referência no futebol?

– Sergio Ramos, Piqué, Kompany... São zagueiros que para mim têm sido referências durante muitos anos.

O Kompany estava no Manchester City quando você era do clube. Como foi o período lá?

– Minha contratação pelo Manchester City sempre foi com ambição de me emprestar para equipes que eles tinham comprado. Com o objetivo de eu ajudar a manter essa equipe em sua categoria ou em outros casos a subir de divisão. Se houvesse a possibilidade de estar com a primeira equipe seria um prazer, mas desde o primeiro momento sabia que o objetivo era outro. Apesar disso, fiquei muito contente por ter passado pelo Manchester City.

Aprendeu com o Guardiola também?

– Não cheguei a conhecer o Guardiola, nunca falei com ele. É uma pena não ter podido conversar com ele um pouco. Mas são coisas da vida, espero em algum momento falar com ele.

Qual foi a sua primeira reação quando soube do interesse do Flamengo?

– Claro que conhecia o que era o Flamengo, então eu pensava que era mentira, uma brincadeira. "Como o Flamengo vem me buscar?" Tem que ser realista, eu estava jogando na Segunda Divisão, essa era a realidade. E não me envergonho de dizer isso.

– E vem o Flamengo, que quer competir por ganhar a Libertadores, o Brasileiro, naquele momento estava também disputando a Copa do Brasil. Para mim era um desafio muito importante. Em praticamente dois dias o contrato estava pronto. Em cinco minutos, estava tudo decidido (risos).

São poucos europeus jogando aqui, geralmente o caminho é inverso. O que te atraiu?

– Creio que tudo. Como clube, Flamengo está a nível mundial, muito grande; a cidade, o Rio é muito bonito... É verdade que as notícias que chegam à Europa não são boas, mas acho que é algo que tem que vir para ver e viver. Uma vez que venha e fique um tempo, o Rio apaixona. Estou muito feliz de estar aqui e espero ficar muito tempo.

O último espanhol que jogou por aqui, se não estamos enganados, foi o Fran Mérida no Athetico-PR, entre 2013 e 2014. Conhece ele? Chegou a perguntá-lo como era o Brasil antes de vir?

– Joguei muito contra ele na Espanha, muito bom jogador. Mas não tenho relação com ele fora de campo.

E como está sendo a adaptação ao futebol brasileiro?

– Estou muito contente. Desde o primeiro dia que cheguei, tanto os meus companheiros, que são uma maravilha, quanto à torcida, que me recebeu muito bem. Vir para o Flamengo era um desafio muito grande. É uma equipe a nível mundial, e estou com muita vontade de conseguir coisas importantes.

Qual a característica espanhola que você trouxe para o futebol brasileiro?

– Acho que algo importante foi um pouco da mentalidade tática de jogo. Creio que na Espanha somos mais rigorosos taticamente. O bloqueio sempre sabe o que tem que fazer, não há nenhum jogador que se destaque por fazer as coisas mal feitas taticamente, são muito bem organizados. Aqui, devido ao grande talento técnico dos jogadores, acho que há um pouco mais de desordem. Quando uma equipe consegue estar bem organizada defensivamente, melhora muitíssimo.

Como é trabalhar com Jorge Jesus?

– Creio que trabalhar com um treinador a nível do Mister, para mim, é aprender algo novo todos os dias. Treinador que tira o melhor de cada um, o que é algo muito difícil hoje em dia no futebol. Poucos estão em um nível para conseguir isso, e creio que o Mister está obtendo o máximo de rendimento do time.

Que tipo de conselho ele já te deu?

– Ele entrou no tema de que tenho que ser dominante na parte defensiva dos jogos. Até agora, ninguém tinha me dito que teria que manter uma linha, que teria que estar pendente de meus companheiros, ou uma bola... Jogava com a minha intuição e com quatro ou cinco normas que o treinador me dava. Mas agora com o Mister me dá ferramentas para dominar minha parte defensiva.

Como ele é no dia a dia? Também é agitado igual na beira do campo?

– É igual. Para ser intenso no jogo também precisa ser no treino conosco. Creio que isso é uma das chaves para o Flamengo estar no nível em que está.

Mas ele dá espaço para momentos de brincadeira?

– Sim, isso sempre. O Mister sabe quando rir, quando trabalhar, quando ser intenso ou dar um pouco mais de tranquilidade. Sabe equilibrar muito bem o ânimo.

O que está achando de ser chamado de xerife?

– Feliz porque a palavra tem uma descrição que creio ser importante dentro de um time. E estou contente que a torcida gostou de mim. Quer dizer que estou fazendo bem o meu trabalho, mas tenho que continuar. Agora virá algo muito importante que é a semifinal da Libertadores, e brigar pelo Brasileirão é algo grandioso.

Já teve algum outro apelido antes?

– Não, primeira vez. Está bom (risos).

Você já marcou dois gols em 10 jogos no Flamengo. Sempre foi de fazer muitos gols?

– Por ano, sou de fazer quatro ou cinco mais ou menos.

Qual foi o mais bonito?

– Foram muitos, mas gols de um jogo normal. Espero aqui fazer algum que vai dar em título.

Por falar em título, a Libertadores está entrando em sua reta final. Apenas três europeus já foram campeões do torneio: o checo Christian Rudzki, o italiano Dante Mircoli e o croata Mirko Jozic. Você pode se tornar o primeiro espanhol, já pensou?

– E estamos perto. A equipe está em um nível ótimo para brigar pela Libertadores e Brasileiro. Com o Mister, podemos fazer coisas muito grandes no Brasil.

E sendo campeão aqui, acredita que possa chegar à seleção espanhola?

– Não sei. Se Deus quiser. Para mim, seria algo incrível. Vestir algum dia a camisa do meu país seria muito bonito para mim. Mas estou muito longe, creio que os jogadores que estão na seleção espanhola são os melhores da Espanha. Mas vamos trabalhar para isso, nada é impossível nesta vida. Para mim seria um autêntico prazer. Espero que eles estejam vendo. Mas é algo difícil.

Ele deu detalhes de sua adaptação à cultura e futebol brasileiros; relembrou o drama no início da carreira que quase o fez desistir de ser jogador.

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