Análise: A defesa alta que faz o Flamengo sufocar os adversários

PAINEL TÁTICO: Por Leonardo Miranda

Um time ofensivo, que encanta, toca bem a bola e....quase não sofre perigos. O Flamengo de Jorge Jesus parece não ter limites para quebrar velhos conceitos no Brasil. Um deles vem sendo desafiado jogo a jogo: a de que um time ofensivo demais desprotege a defesa. Nos últimos dez jogos, o Fla tomou apenas quatro gols, sendo dois de pênalti. Com bola rolando, apenas Internacional e o Atlético-MG vazaram a meta de Diego Alves.

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Um dos muitos conceitos responsáveis por essa segurança defensiva é a "linha alta". A ideia é que os quatro defensores estejam sempre alinhados e avançados no campo. No início do Fla-Flu, Rodinei, Rodrigo Caio, Pablo Mari e Filipe Luís estão dentro do círculo central! Eles estão muito mais perto de Gérson (que está marcando o volante do Flu que tenta escapar pela esquerda) do que do goleiro Diego Alves.

Linha de defesa alta contra o Fluminense — Foto: Leonardo Miranda

A primeira coisa que você pode pensar é: mas isso não deixa o time exposto!? Na verdade, o Flamengo é um time cada vez mais seguro, e muito por conta da linha alta. Nos últimos quinze jogos foram apenas 5 gols tomados, sendo três oriundos da bola parada. Um cenário bem diferente dos dez primeiros jogos com JJ, no qual o Fla foi vazado tomou 13 gols e saiu vazado em nove oportunidades.

Pressão constante na bola e impedimento do adversário
O posicionamento da defesa é combinado a um trabalho incansável de marcação no meio-campo, sempre com o intuito de atrapalhar e causar atraso no jogo do adversário. A linha de defesa tem outras funções, como fechar o espaço que o adversário tem e colocar alguns jogadores em impedimento. Um exemplo abaixo: Ganso está totalmente livre. A linha de defesa do Flamengo, marcada em amarelo, mal se move.

Linha do Flamengo sempre alta — Foto: Leonardo Miranda

Na sequência do lance, Ganso toca para trás e dá um passe para o ponta. Nesse momento, muitos times apenas começariam a recuar e marcar individualmente os jogadores, como Filipe Luís esbola fazer com Wellington Nem. Mas veja que Pablo Mari dá um passe para frente assim que percebe que ele está ficando longe de Rodrigo Caio. O diferencial é o espaço, não o jogador. Por isso é mais importante manter o alinhamento do que cercar individualmente o adversário.

Essa referência no espaço faz com que o adversário sempre passe para trás! Éverton Ribeiro volta e ajuda Rodinei a marcar o ponta do Fluminense, que sem alternativa, dá um passe para trás. Isso aconteceu direto no jogo. Se o time diminui o tempo e o espaço de ação do companheiro, o espaço que ele terá vai ser inútil, porque a bola jamais vai encontrar alguém livre. Veja que há um bom espaço entre as linhas do Flamengo, o famoso espaço entrelinhas. Mas não tem ninguém lá, porque a pressão que se faz em quem está com a bola é tão grande e sempre com dois ou mais jogadores que esse espaço sempre está morto no jogo.

Linha do Flamengo sempre alta — Foto: Leonardo Miranda

A sequência do lance ilustra muito bem essa pressão constante na bola: o Fluminense escapou! Allan apareceu livre perto de Nenê, por dentro. E agora!? A linha de defesa continua alta e alinhada. O meio-campo se colocou todo atrás da linha da bola, e até Bruno Henrique voltou. De novo, ninguém sai do alinhamento indo pressionar que nem doido...porque sabe que proteger o espaço significa tirar o raio de ação do adversário, e mais ainda, deixar alguns jogadores em impedimento.

Allan está livre, mas não consegue fazer nada de útil. Nem está impedido, e Yony, lá na esquerda, está a um passo de tal. Nenê, o mais perto dele, é um passe que nada vai adiantar, porque está mais longe do gol e também não terá ninguém na frente. Resultado? O jogador tenta jogar e o Fla intercepta naturalmente a jogada.

Fluminense escapa: linha de defesa continua alta — Foto: Leonardo Miranda

É engraçado ver que a estratégia do Fluminense, com Ganso e Nenê na faixa central e pontas muito velozes, foi bem pensada. Marcão queria que os meias dessem passes, parassem a bola e chamassem os zagueiros do Fla, abrindo espaço para as corridas dos pontas. Esqueceu que o Flamengo não faz isso nem nos momentos que corre perigo. A linha de defesa está sempre alta e sufocando os adversários.

A equipe do Flamengo veio marcando muito forte e fizeram um gol no início. Não encaixamos nosso jogo de apoiar e furar a linha alta deles. Montamos uma estratégia, tivemos algumas chances, mas foi aquém do que imaginávamos. Eles marcaram muito forte e foram muito felizes. Não fomos eficientes - Marcão, após o jogo

Defensores perto do círculo central significa também mais gente perto do ataque

O mais comum no futebol é ter uma defesa que suba em dois momentos: quando o time está atacando, portanto, com a bola; e quando o time avança suas linhas para tentar roubar a bola na saída do adversário. Esse momento, normalmente chamado de marcação alta, envolve bastante sincronia: os defensores devem identificar o momento que o adversário está saindo e correr para frente. O resultado é um time mais compacto - veja que, na imagem abaixo, os dez de linha do Fla estão no campo do Fluminense.

Linha alta do Flamengo: mais gente tentando roubar a bola do adversário — Foto: Leonardo Miranda

A primeira consequência de ter os defensores perto do ataque é que, com a bola, eles viram...atacantes. Todo mundo ataca no Flamengo. Rodrigo Caio e Pablo Mari, em especial o zagueiro que veio do São Paulo, é especialista em passes de ruptura, que quebram linhas e encontram companheiros mais bem colocados. Sempre perto dos jogadores de meio eles correm menos, porque possuem uma área menor para cobrir, e o trabalho do passe fica facilitado, já que quem vai receber está mais próximo para receber.

Uma defesa alta, que torna o time mais seguro e faz a equipe ter a bola por mais tempo. Realmente o Flamengo é algo muito fora da curva no cenário brasileiro....

O Fla tomou apenas quatro gols, sendo dois de pênalti. Com bola rolando, apenas Internacional e o Atlético-MG vazaram a meta de Diego Alves.

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