Cuidado para não inverter o preconceito

FOLHA DE SÃO PAULO: O jornal A Bola, de Lisboa, destacou em sua edição de domingo (27) uma frase de Argel Fucks quando começou o sucesso de Jorge Jesus. Ex-zagueiro do Benfica e do Porto, o técnico do CSA dizia que Jesus não ganhou a Champions nem a Liga Europa. Esqueceu-se de dois vice-campeonatos da Europa League, com derrotas nos pênaltis para o Sevilla e nos acréscimos para o Chelsea.

O contraponto ao preconceito de Argel é decidir que, a partir de agora, só os estrangeiros servem e os brasileiros estão ultrapassados. Esqueceremos de que houve experiências variadas com técnicos europeus e latino-americanos nos últimos 15 anos.

Daniel Passarella, Miguel Angel Portugal, Lotthar Matthäus, Paulo Bento, Ricardo Gareca, Juan Carlos Osorio, Edgardo Bauza e Diego Aguirre fizeram torcedores felizes e outros insatisfeitos.

Treinador Jorge Jesus - Foto: Pedro Martins
Jorge Jesus é excelente. Mano Menezes também é. Representam ideias e correntes diferentes, como Guardiola e José Mourinho, como Jurgen Klopp e Diego Simeone.

O sucesso de Jorge Jesus no Brasil nos faz olhar para o mundo e para a história.

Para o planeta, porque dos últimos dez campeonatos espanhóis, franceses e alemães, 60% foram vencidos por treinadores de outras nacionalidades. O campeão alemão é o croata Nico Kovac e a rodada da Bundesliga começou com o líder (Monchengladbach) e o vice-líder (Wolfsburg) treinados por austríacos, campeão e vice da Áustria há um ano —Marco Rose, pelo RB Salzburg, e Oliver Glassner, pelo Linz.

Dizer que os técnicos alemães da Bundesliga estão superados seria esquecer que o campeão da Europa é Jurgen Klopp, nascido em Stuttgart e líder na Inglaterra com o Liverpool.

Olhar para a história, porque o futebol brasileiro cresceu com o intercâmbio. Em 1957, Vicente Feola era um dos auxiliares do húngaro Bela Gutman, na comissão técnica do São Paulo, campeão paulista com a camisa 10 vestida por Zizinho, ídolo de Pelé.

No ano seguinte, Pelé foi campeão mundial treinado por Feola. O pai de Jorge Jesus, Virgolino, foi jogador do Sporting, antes da geração dos cinco violinos, tricampeões portugueses entre 1947 e 1949. O técnico do quinteto formado em Lisboa por Jesus Correia, Vásquez, Peyroteo, Albano e Travaços era Cândido de Oliveira, que deixou o Sporting em 1950 e mudou-se para o Rio, para ser técnico do Flamengo.

Jorge Jesus evidencia que o Brasil distanciou-se da elite nas quatro décadas em que o intercâmbio foi apenas a venda de jogadores. Com menos craques, mais simplicidade no jogo. Agravante é a cultura do medo, provocada pelo hábito de demitir técnicos na terceira derrota.

O contraste atual se baseia entre o Corinthians, rei do empate, arriscado de ficar fora da Libertadores, e o Flamengo, da busca pelas vitórias, com chance de repetir o Santos de Pelé e ser campeão brasileiro e da Libertadores no mesmo ano.

Há dois anos, Carille representava a novidade e ganhava o Brasileiro por jogar a sério só uma competição. Há uma temporada, Felipão indicava que a vitória podia vir com o antigo e poupando titulares. Hoje, o estrangeiro é a receita e não descansar titulares é o novo mantra. Como será no ano que vem? Que seja com bom futebol e sem preconceitos.

Surpresa é a palavra

O Flamengo, de Jorge Jesus, enfrentará o Corinthians, de Fábio Carille, no domingo (3), no Maracanã. Será o clássico das torcidas, mas principalmente dos estilos. Não será o estrangeiro contra o brasileiro. O desafio de Carille é montar um time capaz de surpreender o Flamengo.

O desafio de Carille é montar um time capaz de surpreender o Flamengo.

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