Flamengo baila sobre o Galo e dispara

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

Há no trabalho de Jorge Jesus uma regra muito clara e inegociável: impor-se sobre o rival. Dentro de seus domínios, o Flamengo não vê outro caminho para alcançar a vitória. Aumenta sua rotação até tornar insuportável o ambiente do Maracanã a ponto de ver o adversário, enfim, ceder. Não houve escolha ao Atlético-MG nesta quinta-feira. Diante do líder do Campeonato Brasileiro tentou usar a arma que travara o Palmeiras dias antes. Em vão. Foi a maior imposição do Flamengo de Jorge Jesus, ao menos nos 45 minutos iniciais. Ataque contra defesa. Sem negociação. Sem jogo para o time mineiro. No Maracanã, uma vez mais jogou um time só. Um líder voraz que, mesmo sem quatro titulares, tem a imposição como regra. E se ajusta para torná-la realidade.

Diante da Chapecoense, Jorge Jesus alternou entre o 4-2-3-1 e o 4-4-2. Contra o Galo, praticamente repetiu a equipe, com a única diferença de utilizar Rhodolfo na vaga do convocado Rodrigo Caio. Mas tão logo a bola rolou no Maracanã e foi possível ver o espalhar das peças no gramado de forma distinta. Não era impressão. O Flamengo indicou um 4-2-4, tomando o campo quase todo para si. Foi deliberadamente convidado pelo adversário e avançou. Basicamente todo o time ocupava o campo ofensivo. Gerson e Willian Arão, por dentro, faziam a bola girar de um lateral a outro. À frente, Vitinho, Bruno Henrique, Reinier e Everton Ribeiro em troca incessante de posições, mas quase sempre posicionados na mesma linha. Uma estratégia para quebrar a arma do Atlético-MG.

Vitinho no Maracanã pelo Flamengo - Foto: Marcelo Cortes
Rodrigo Santana tornou o jogo contra o Palmeiras difícil exatamente com a mesma postura. Um 5-4-1 muito recuado, tentando diminuir os espaços para um rival com poderio ofensivo notável. Fez o trio Maidana, Leonardo Silva e Igor Rabello ter as companhias de Patric a Fábio Santos pelos lados. À frente, Vinicius à direita, Nathan e Elias por dentro, Cazares à esquerda, com um solitário Ricardo Oliveira no comando de ataque. Um Galo que estava no jogo com a opção de não jogar. Obviamente a linha de cinco defensores cria dificuldades. É preciso paciência e, mais, ideias para combater rivais tão bem fechados. O Flamengo as tinha. Ao rechear o ataque com quatro homens, quase equilibrava numericamente o confronto. Ao ter movimentação intensa, abria espaços na marcação. Não havia conforto da defesa atleticana para tentar se valer de uma possível superioridade numérica. E além: o Flamengo tramava o jogo de um lado a outro, com calma, passando pelos volantes. A bola logo tendia a entrar pelos lados, com triangulações. Rafinha ultrapassava com maestria pelo lado direito, geralmente em combinação de inteligência com Everton Ribeiro. Caso o espaço aparecesse de um dos lados, o cruzamento saía rasteiro, ao meio da área. Não foram poucas as vezes em que a bola passou no miolo da defesa mineira.

O Atlético tinha como tática esticar bolas pelos lados, geralmente com Patric e Vinicius à direita, ou buscar lançamentos para Ricardo Oliveira. Em vão. O Flamengo tão logo perdia a bola ao errar o último passe da jogada já voltava a pressionar, impedindo a saída rápida do Galo. Sufocado, o time atleticano não conseguia raciocinar. Era um Flamengo intenso, pulsante, circulando a bola de lado a outro. Contava com boas atuações. Vitinho, por exemplo. Jorge Jesus parece enxergá-lo antes como meia e, depois, como atacante. Ocupa o espaço de Arrascaeta, trazendo a bola da esquerda para dentro. Tem qualidade no mano a mano, força no chute e facilidade para bater na bola com as duas pernas. Mostrava maior confiança, tentando lances individuais. Reinier, garoto, fazia a vez de Gabigol, como ocorrera contra a Chapecoense. Frente a um rival tão fechado, o Flamengo percebeu que a finalização de fora da área seria grande arma. Rhodolfo e Rafinha apostaram em raquetadas para assustar Wilson. Numa pancada do lateral-direito, rasteira, o goleiro fez linda defesa e mandou à linha de fundo.

Arão já cabeceara bola em um escanteio cobrado por Vitinho pela esquerda. Antecipou-se bem aos marcadores na primeira trave e mandou para fora. Na segunda tentativa, sem perdão. Vitinho bateu forte, fechado. Arão desviou com extrema eficiência para o gol. O Maracanã, enfim, explodiu de vez com o tremular da rede. 1 a 0. O jogo, enfim, traduzia a incrível superioridade rubro-negra no Maracanã. Picos de 75% de posse de bola, volume impressionante. Dono do jogo. Busca contínua por imposição, com toques ágeis, girando a bola e o posicionamento para abrir espaços. Gerson, por exemplo. Controla o jogo como deseja. Tem completo domínio da bola e do espaço. Acelera, pouco cadencia e procura buscar a jogada individual, abrindo espaços para os companheiros. Não seria surpresa assistir a um jogador do Atlético-MG agradecer o fim do primeiro tempo ainda no gramado. A vantagem mínima ficou barata.

Mas futebol tem de suas travessuras. Rodrigo Santana entendeu que a postura, extremamente defensiva, deveria mudar no segundo tempo. Sacou Ricardo Oliveira, sem explosão, e pôs o garoto Marquinhos em campo, aberto na esquerda. Cazares ocupou a vaga de centroavante, mas com possibilidade de maior mobilidade. Fez o 5-4-1 se tornar um 3-4-3 ao avançar os laterais e os homens das pontas. O Atlético-MG avançou para pressionar a saída rubro-negra. Dependeria de um erro do rival. Bruno Henrique errou ao dominar bola mal passada por Vitinho e, na recuperação, Vinicius puxou para dentro e enxergou Nathan infiltrando ao lado de Rhodolfo. Rafinha tentou recuperar o erro, mas não havia mais tempo. O meia driblou com categoria Diego Alves e tocou para o fundo da rede. 1 a 1. Por minutos, o Flamengo voltou a flertar com o perigo que correra diante de São Paulo e Grêmio, este na Libertadores. Amplo domínio na primeira etapa, imposição, mas sem conseguir traduzir a vantagem a ponto de resolver o jogo.

Houve, porém, uma vantagem no empate. O Atlético-MG baixou a guarda e ficou mais espaçado. Tentava sair para o ataque ao retomar a bola. Mas pecava pela organização ao perder a posse. Elias e Nathan funcionavam pouco na parte defensiva. Everton Ribeiro e Vitinho se posicionavam mais abertos, nos lados do campo, buscando esgarçar a defesa atleticana. Funcionava. Maidana, perdido, tentava sempre caçar um atacante rubro-negro por dentro, na intermediária, abrindo um buraco à direita. Por ali, Vitinho recebeu, passou por Patric e quando teve um Maidana tentando se recuperar, cortou para dentro e bateu cruzado. A bola ainda quicou antes de morrer na rede. 2 a 1. E as vaias incompreensíveis ao camisa 11 até minutos antes se tornaram um caro de ode ao jogador. O Flamengo, em muito, era agressivo na noite graças à atuação de Vitinho. Escanteio na cabeça de Arão e linda jogada individual. Não se intimidou com a marcação rival, tentando sempre criar espaços ao incomodar os adversários com dribles. Vantagem novamente no bolso, o Flamengo voltou ao seu jogo de maneira mais confortável: pressão na saída, alternância entre os quatro da frente, troca paciente de passes até surgie espaço para acelerar. Bruno Henrique, cara a cara com Wilson, perdeu ótima chance após passe de Vitinho.

Rodrigo Santana tentou reagir ao colocar Di Santo em campo e formar um trio ofensivo. Já era tarde. Confusa, a defesa do Atlético-MG já não fechava o meio como antes. Por ali, Everton Ribeiro, onipresente, chutou forte e acabou travado. No subir da bola, Vitinho tocou de cabeça para Reinier, como um legítimo centroavante, aparecer sozinho, ajeitar o corpo e bater ao fundo da rede. O jogo estava liquidado e, ainda assim, Jorge Jesus indicou entende que vê o elenco com poucas alternativas diante de tantos desfalques: trocou apenas Vitinho, aplaudido na saída, por Lucas Silva. O massacre foi traduzido em números até certo ponto rotineiros ao Flamengo no Maracança: 67% de posse, 17 finalizações contra cinco, 569 passes trocados contra 235 do adversário. Não houve mesmo chance ao Atlético-MG. São dez vitórias do Flamengo nos últimos 11 jogos, oito pontos de distância para o segundo colocado. Impossível haver definição em um campeonato que tem ainda 14 rodadas a disputar. Mas este Flamengo já tem histórias para contar. Graças a uma mentalidade clara: a imposição é regra ao vestir rubro-negro em 2019.

Este Flamengo já tem histórias para contar. Graças a uma mentalidade clara: a imposição é regra ao vestir rubro-negro em 2019.

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