Flamengo mistura sonho com realidade em baile para sempre

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

A bola rola de pé em pé no campo e o rubro-negro na arquibancada levita. Está pleno, de olhos fechados. Tenta buscar um momento de racionalidade enquanto é encharcado por uma emoção que sempre desejou. Não parece real. O outro, ao seu lado, olha para os céus. Sente apenas o pulsar do estádio. Vê de novo, ali, o que pensava nunca mais ser possível. Viaja 38 anos ao passado. Gerações se encontram em um túnel de sentimentos. Um transe coletivo possível apenas, mesmo, sentir. Mãos nas cabeças. Agradecimentos ao sobrenatural. Olhos marejados. Encharcados. Arregalados. Um baile, com um adversário de respeito completamente entregue, em uma semifinal de Libertadores. O Flamengo de Jesus, dominante, trouxe ao novo Maracanã a melhor de suas noites. Um inapelável 5 a 0 construído com tanta naturalidade que os olhos da arquibancada custaram a crer. Sim, se pode. Quem sabe, povo, o mundo de novo. Antes há a América a reconquistar. No apito final, o urro uníssono que faz o transe se encerrar. A alegria de ser rubro-negro, ali, palpável. Pulmões se esvaziam. O suspiro é para uma eternidade. O Flamengo tornou o sonho realidade. Quase quatro décadas depois volta à final da Libertadores.

Pablo Marí comemorando gol pelo Flamengo - Foto: Alexandre Vidal
Quantos moleques não passaram a vida a subir a rampa do Maracanã com histórias dos mais velhos sobre o lendário time de 81? Um Flamengo imponente, que trocava passes, agredia o rival e passava à arquibancada a convicção de que não perderia jamais. Eram os adversários os destinados a sentir medo, impactados por um jogo de difícil compreensão dentro das linhas. Mas de fácil leitura fora delas. Pois as lendas de 81, as histórias que viraram cantigas de arquibancada parecem se materializar ali. Os filmes que muitos não viram passando a cada jogo, a cada gol, a cada comemoração. É um Flamengo, com o perdão do roubo momentâneo das linhas do poeta Cazuza, que nos faz ver o futuro repetir o passado. É, sim, um museu de grandes novidades. Um resgate apresentado por Jorge Jesus que emociona e arrasta também fãs que não vestem rubro-negro. Tornou-se um atrativo para multidões. Uma fúria apaixonante por jogar futebol. Uma equipe para desfrutar. Admirar o vaivém da bola entre os pés que rapidamente buscam o gol adversário. Um time que se adapta às situações. Alterna temperaturas e é capaz de optar por ser gelado mesmo com um Maracanã que fervia com 70 mil vozes.

Pois o Grêmio chegou do Sul disposto a incomodar o Rubro-Negro. Necessitava, claro, de ao menos um gol para entrar de novo no confronto. Renato Gaúcho decidiu, então, adiantar a equipe e pressionar o Flamengo em sua defesa. Formou um 4-1-4-1 com Everton e Alisson em busca de velocidade pelos lados, Maicon e Matheus Henrique por dentro, Michel resguardando a defesa. Pareceu, por alguns minutos, de fato incomodar. Mas o Flamengo de Jorge Jesus é traiçoeiro. Convida a presa ao seu estilo desejado. Contava com três jogadores em volta de lesão, sem a plenitude da forma física: Filipe Luís, Rafinha e Arrascaeta. Racional não explodir desde o início para ter as pernas inteiras até o fim do combate. Então, fez o oposto do que geralmente faz no Maracanã. Cadenciou a partida. Girou bola e aceitou a pressão gremista. Correu um risco, no erro de domínio de Everton Ribeiro que permitiu Everton bailar pelo lado esquerdo e cruzar forte para o centro. Filipe Luís impediu a conclusão fatal de Maicon. E o Flamengo, então, se refez.

“Pra cima deles, Flamengo!”, gritava a arquibancada. O time retomou o seu jogo. Gerson reapareceu na partida, ditando o ritmo de um time no 4-4-2 e que alternava demais as posições. Arrascaeta, 20 dias antes operado no joelho esquerdo, variava da esquerda à direita. Achava espaços, trabalhava com Everton Ribeiro que saía da direita para o centro. A movimentação rubro-negra, enfim mais intensa, já desarticulava o encaixe da marcação gremista. Kannemann caçava Bruno Henrique fora da área. Abria buraco, buscava tirar espaços de Arrascaeta. Paulo Miranda tentava antecipar Bruno Henrique e evitar o giro para o tapa na velocidade. Em vão. Organizado, o Flamengo não faz os movimentos de forma aleatória. Um preenche o espaço do outro. A saída rápida é fatal e bem ensaiada. A equipe é agrupada, sempre próxima. Bruno Henrique por vezes cai ao centro para buscar o espaço às costas dos volantes com velocidade. Assim saiu o primeiro gol. Bote de Everton Ribeiro em Maicon, bola no Camisa 27 que disparou por dentro. Gabigol, esperto, passeou às costas de Kannemann e recebeu. Foi objetivo no chute com a perna direita em cima de Paulo Victor. Com o Grêmio completamente entregue, Bruno Henrique apareceu livre, leve e solto para completar para o gol. 1 a 0. O Grêmio desmanchara. Antes o próprio Bruno Henrique, de cabeça, e Arrascaeta, em escapada pela direita, já tinham chegado perto do gol. O sonho começara a ser realidade.

Na volta ao segundo tempo, o Grêmio conheceu o Flamengo que impõe medo aos adversários no Maracanã. O time rubro-negro contido primeiro tempo apresentou sua fúria. Intensidade, marcação na saída de bola rival, uma disposição do predador que, faminto, busca sufocar a presa para o bote fatal. Com minutos, um escanteio pôs a bola à feição do chute raivoso de Gabigol no alto de Paulo Victor. 2 a 0. Completamente desmanchado, o Grêmio, melhor futebol apresentado em terras brasileiras nos últimos três anos, estava entregue. Espaçado, inerte diante de tamanha intensidade. Rafinha e Filipe Luís subiam pelos lados. O lateral-direito mais ao fundo com a abertura de Everton Ribeiro. O lateral-esquerdo, como sempre, ao cair por dentro para dialogar com Gerson e Bruno Henrique. Por ali, o lateral-esquerdo avançou e cruzou rasteiro. Bruno dominou, driblou um, mas acabou parado por Geromel. Pênalti cobrado por Gabigol. 3 a 0. Ainda existiram mais dois gols para coroar a noite e simbolizar o Flamengo que respira por completo sob a batuta de Jorge Jesus. Um gol para cada zagueiro, Rodrigo Caio e Pablo Marí, em lances de bola parada. 5 a 0 incontestáveis, chocantes para um Renato Gaúcho atordoado na área técnica. Pois então, meninos, a alegria de ser rubro-negro foi forjada assim. Um time recheado de talentos individuais que formavam um coletivo quase imparável pelos rivais.

A superioridade traduzida também em números. 60% de posse*, dez finalizações contra duas, 386 passes contra 280 dos rivais. O olé arrancado costumeiramente da arquibancada do Maracanã. Ou da Arena do Grêmio. Ou do Castelão. Um massacre em 180 minutos que respondeu em campo quem detém o melhor futebol do Brasil atualmente. E não perde o gosto por atacar. Na descida da rampa, rubro-negros com a alma lavada. Relembrando lances gravados na mente e convictos que serão eternos ainda que tão frescos. Histórias que serão repassadas a outras gerações. A saborosa sensação de estar assistindo algo que será para sempre. É este Flamengo de Jorge Jesus. Capaz de noites como a quarta-feira de 23 de outubro de 2019. De bailes que serão eternos e arrancam, na primeira lembrança no futuro, um suspiro para sempre.

É este Flamengo de Jorge Jesus. Capaz de noites como a quarta-feira de 23 de outubro de 2019.

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