Flamengo quer usar alegria de jogar para cativar novos torcedores

FOLHA DE SÃO PAULO: Por PVC

O Maracanã só não era aldeia global na quarta (23) de Flamengo x Grêmio porque o Brasil não é o globo. Mas tinha gente de São Luís (MA), Gramado (RS), Vitória (ES), São Paulo (SP), Sinop (MT), Manaus (AM)... Aprendíamos na quinta série, plena era Zico, que o Brasil tinha 22 estados, quatro territórios e o Distrito Federal. Hoje, tem 26 estados, o Distrito Federal e a Flórida (EUA).

Em todos esses cantos tem torcedor do Flamengo, e eles estavam representados no Maracanã. Dos 69.844 presentes, 13 mil eram rubro-negros de fora do Rio e 4 mil torciam pelo Grêmio. Em média, 1 de cada 4 viajaram para o jogo.

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Rafinha de capacete e Diego Alves comemorando no Flamengo - Foto: André Mourão
O ponto mais positivo de haver dois projetos para clubes se tornarem empresas no Congresso —o melhor é o do senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG) — é o país finalmente olhar para o futebol como parte da economia. Não é só no Maracanã. Diariamente, há turistas do interior de São Paulo, Mato Grosso e Paraná, em Itaquera ou em torno do Allianz Parque, tirando fotos.

Começa a haver uma mistura de dinheiro e sensibilidade envolvida no negócio futebol. O presidente do Flamengo, Rodolfo Landim, fala sobre resgatar o orgulho e a esperança de milhões de pessoas com as vitórias do clube que preside.

Sua declaração resgata um verso de Moraes Moreira, de uma canção chamada “Saudades do Galinho”, composta logo depois da venda de Zico para a Udinese, em 1983. “Agora como é que eu fico, nas tardes de domingo, sem Zico no Maracanã. Agora, como é que eu me vingo, de toda derrota da vida, se a cada gol do Flamengo eu me sentia um vencedor?”.

Era o início da era do êxodo e, portanto, o fim de um Brasil produtor da cultura de futebol no planeta. Agora, parece que a torcida se vinga invadindo CT, porque ouve todos os dias que perder não é normal. É. O que não é normal é a passividade na derrota.

O desejo do Flamengo é ser um clube global, como Real Madrid e Manchester City, e usar a alegria de jogar como instrumento para cativar novos adeptos. Criadores do idioma, os portugueses escolhem palavras muito mais precisas do que nós. Adepto, mais do que torcedor, explica a escolha do clube por causa de um estilo. Ser adepto de um time que ataca é metáfora da alegria que gostaríamos de voltar a viver.

O Flamengo arroja, investe, cria, inova. Era assim de 1978 a 1983, período de títulos brasileiros, continental e mundial. Em outra época, sem o profissionalismo atual, o Flamengo ousava. Por isso está no imaginário de três gerações.

As personalidades de clubes são diferentes entre si. Não serve cobrar que Corinthians e Palmeiras sejam iguais, embora a ousadia rubro-negra exija de seus rivais a mesma agressividade mercadológica e boleira. Não se trata de escolher um técnico estrangeiro. Isso é reducionista. Trata-se de adotar um jeito de ser e de jogar.

Nas últimas três décadas, Milan e Barcelona decidiram tornar-se clubes globais, adotando estilos de jogo audaciosos para cativar fãs pelo planeta. O Flamengo tenta o mesmo. Independentemente da escolha, os clubes que se pretendem nacionais e sonham ter a hegemonia do país necessitam escolher uma linha de conduta, aumentar as fontes de receita, arregimentar torcedores mundo afora, trazê-los para o convívio de suas arquibancadas.

O Flamengo atual é uma faísca, como foi o Santos de Neymar. Palmeiras, Grêmio e Athletico dão sinais de que podem respirar esse ar puro. É o único caminho para o Brasil voltar a exercer sua vocação: ser produtor cultural de futebol.

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