Jorge Jesus desafia hábitos enraizados no futebol brasileiro

O GLOBO: MARTÍN FERNANDEZ

Quem fez a conta foi o repórter Bruno Côrtes, no Sportv: das 14 perguntas direcionadas ao técnico da seleção brasileira na entrevista coletiva de ontem, nada menos que seis foram sobre o Flamengo. Até quando o assunto era outro, Tite citou o time rubro-negro. Uma demonstração banal, mas eloquente, do fascínio que o esquadrão de Jorge Jesus exerce sobre o futebol brasileiro.

É inevitável: 36 horas antes, num duelo em que todas as previsões sensatas apontavam como equilibrado, o Flamengo venceu o Grêmio por 5 a 0, em condições historicamente favoráveis ao tricolor gaúcho. Afinal, estavam frente a frente um tricampeão da Libertadores, disputando sua terceira semifinal seguida, contra um clube que não alcançava uma final desde 1981, quando conquistou seu único título do torneio.

Jorge Jesus comemorando vitória com os jogadores do Flamengo - Foto: Divulgação
A goleada no Maracanã foi a maior de uma série de vitórias que o Flamengo tem imposto a seus rivais, em campo e fora dele. No fim de semana anterior, o Grêmio poupou seus titulares no Campeonato Brasileiro e colheu uma derrota por 2 a 1 para o Fortaleza — um rival que disputa a Série A em outra latitude, bem mais baixa.

Na mesma rodada, o Flamengo enfrentou o Fluminense com uma mistura improvável de volúpia, sofreguidão e sagacidade, um bando de alucinados que sabe exatamente o que precisa fazer — e como fazer. Resultado: vitória por 2 a 0, liderança mais folgada na Série A, um agrado à torcida que triunfos em clássico costumam proporcionar e uma injeção de confiança para o duelo pela Libertadores.

Na manhã de quarta-feira, 12 horas antes de enfrentar o Grêmio, o Flamengo treinou. Concentrados no Ninho do Urubu, os jogadores foram a campo para uma atividade de pouca exigência física. No domingo, logo após a vitória sobre o Fluminense, a iluminação do Maracanã permaneceu acesa para que os reservas treinassem.

Nada disso é revolucionário, nem significa que Jorge Jesus tenha vindo ao Brasil para nos alfabetizar em futebol. Mas são pequenos detalhes que revelam, como notou Carlos Eduardo Mansur, uma gestão de elenco que desafia hábitos enraizados no Brasil — e no próprio Flamengo.

Em maio, quando ainda treinava o time, Abel Braga contou a um dirigente que pretendia descansar alguns jogadores numa partida do Brasileirão para priorizar um duelo pela Copa do Brasil na semana seguinte. A notícia vazou e o técnico não gostou — mas escalou os titulares na tal partida da Série A e venceu o jogo. Semanas depois, Abel seria demitido e sucedido por Jorge Jesus, o homem que não poupa ninguém.

Além de tudo o que fez de certo para chegar onde chegou, o Flamengo também foi salvo de si mesmo. Em agosto, o clube entrou numa aventura sem o menor lastro técnico para tentar contratar Mario Balotelli. No mínimo, a chegada do centroavante italiano teria tornado impossível a consolidação da melhor dupla de ataque do futebol brasileiro em muito tempo, Gabigol e Bruno Henrique.

A provável conquista do Brasileiro e a volta à final da Libertadores permitem ao Flamengo planejar o futuro sem a pressão típica da falta de títulos. Se os rivais não acordarem, o futuro será só vermelho e preto.

A provável conquista do Brasileiro e a volta à final da Libertadores permitem ao Flamengo planejar o futuro sem a pressão típica da falta de títulos.

Postar um comentário

[facebook]

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Tecnologia do Blogger.
Javascript DisablePlease Enable Javascript To See All Widget