Júlio César revela "nível de exigência" de Jorge Jesus, no Benfica

GLOBO ESPORTE: Julio Cesar deixou os gramados em abril de 2018. Depois de um ano e meio "olhando para o teto em casa", o ex-goleiro da Seleção decidiu começar uma nova fase. Ele será empresário de jogadores. Nesta semana, o ex-jogador de 40 fez o curso de "Intermediação no futebol" da CBF. Ele assistiu às aulas ao lado do pai do atacante Neymar.

Com três Copas do Mundo na carreira, Julio Cesar diz que vai esquecer o que fez nos gramados para ter sucesso na nova profissão.

- Todo mundo acha que se você foi um grande jogador, vai ser um grande empresário. São mundos completamente diferentes, afirmou o ex-goleiro.

Foto: Divulgação
Julio Cesar citou o iraniano Kia Joorabchian e o português Jorge Mendes como referências na sua nova fase. Kia ganhou fama no Brasil por representar a MSI na polêmica parceria com o Corinthians no início da década passada. Mendes cuida da carreira de Cristiano Ronaldo.

Na entrevista ao GloboEsporte.com, ele contou também sobre sua admiração pelo técnico do Flamengo, Jorge Jesus. No início do trabalho no Benfica, Julio Cesar lembrou que ficou "p...da vida" com o atual comandante do clube carioca.

– Durante um treino no começo do nosso trabalho, ele falou que tinha que fazer mais musculação porque a bola estava batendo na minha mão e entrando. Esse é o grau de exigência dele – disse o ex-jogador, acrescentando que a chamada do português o fez mudar a rotina de treinamentos e disputar a sua melhor temporada pelo clube português.

- Ele é muito exigente, cobra bastante, respira futebol 24 horas, afirmou Julio, sobre o treinador rubro-negro.

Próximo de Jesus, Júlio Cesar disse que o treinador está "encantado" com a disciplina dos jogadores do Flamengo.

– Ele diz que todos chegam cedo, se comprometem com a academia. Eles não pagam multa. O Jesus diz que o grupo é muito disciplinado – afirmou.

O ex-goleiro brinca que não tem dinheiro na caixinha para fazer um almoço ou um jantar com o grupo.

– Falou que vai ter que botar o dinheiro do bolso dele para reunir com a galera - conta.

Confira a entrevista completa e detalhes sobre a nova fase da carreira de Julio Cesar, agora empresário:

GloboEsporte.com: Você está fazendo o curso da CBF de intermediário. Você será empresário agora ?

– Depois de parar de jogar, muitos pontos de interrogação vem na sua cabeça. Então, procurei dar uma relaxada, absorver o novo momento. Tô curtindo bastante a família e trabalhando com a imagem em eventos. Chegou um momento que quis dar um novo rumo e parar de ficar olhando para o teto em casa. Escrevi um capítulo da minha vida bem bacana, mas um novo se inicia agora. Escolhi realmente o agenciamento de atletas no futebol. Acho que tenho coisas bacanas a oferecer. Além de uma reputação bacana, de ter tido a oportunidade de jogar em grandes clubes, o mundo do futebol te proporciona conhecimentos importantes. Esse é um fator positivo para exercer a nova função. Obviamente, que o Julio Cesar goleiro faz parte do passado. Não posso misturar os dois trabalhos. Não vou atuar apenas na parte esportiva. Tenho meus negócios fora. Tenho investimento imobiliários e gosto de aprender sobre o mercado financeiro. Gosto muito de estudar esse assunto. Venho adquirindo informação e conhecimento nesta nova etapa da minha vida. Mas o carro chefe será o agenciamento.

Você nunca pensou em ser treinador ou dirigente?

– Ser treinador não passou na cabeça. Pensei em ser dirigente e recebi até algumas propostas. Mas ainda não estava me sentindo preparado para assumir um cargo de uma responsabilidade tão grande. Queria me preparar antes. Tô tendo a oportunidade de fazer alguns cursos. Vou fazer um curso da Uefa, que dá um bagagem muito boa. Vamos rodando por vários países. Vou ter o Kaká, o Drogba, o Artur Morais (jogaram juntos no Benfica) como companheiros de classe. Vai ter ex-jogadoras também. Será legal conhecer esse mundo do manager

Você já tem clientes?

– A empresa foi constituída agora. Vou trabalhar com o meu irmão, um amigo advogado. Está bem no início e estou bem empolgado.

No início do ano, o Balotelli disse que consultou você sobre a proposta feita pelo Flamengo. Esse seria o seu primeiro negócio como intermediário?

– Não atuei como empresário. Ali atuei com o coração pelo clube que amo. E também seria interessante ver um amigo que vi crescer na Inter de Milão vestindo a camisa do Flamengo. Disse que seria uma experiência bacana pra ele. Conheceria uma nova cultura. Eu queria basicamente ajudar o Flamengo a fechar esse contrato, mas sem ter envolvimento com empresário. Já tinha outros profissionais no negócio. Quando me ligou, ele queria saber como era o Flamengo, como era morar no Rio. Com o passar do tempo, ele começou a abrir números, mas infelizmente o negócio não foi pra frente. A mesma coisa foi com Jesus. Trabalhei com ele (Jorge Jesus) no meu primeiro ano em Portugal. As pessoas me procuraram para ter referências sobre o treinador. E passei as melhores possíveis. E hoje nós vemos como o Flamengo está se comportando no campo.

Você acha que o Flamengo fez o certo? Se fez o certo? Os resultados tão demonstrando. Acho que todos estão contentes. Qual é a diferente dele dos outros treinadores que atuam aqui?

– Não gosto de comparar. Cada um tem o seu estilo, suas ideias. Ele é muito exigente, cobra bastante, respira futebol 24 horas.

Ele dá muita bronca?

– Isso é normal. Aquela situação para melhorar. Os jogadores absorveram isso. Essa é a filosofia dele de gerir um grupo. Vejo hoje muitas vozes dizendo que com o time que ele tem na mão é mais fácil. Não basta ter o melhor grupo. Tem que saber gerir. Isso faz a diferença. às vezes, você tem o melhor no papel, mas as coisas não dão certo porque o comandante não sabe pilotar. Ele está tendo sucesso também pela qualidade dos jogadores. Mas o fator primordial é você saber levar o grupo, fazer com que todos pensem na mesma maneira e sigam na mesma direção. O diferencial dele é esse.

Cite um episódio que te marcou trabalhando com ele no Benfica?

- Quando cheguei no clube já era consagrado e bem financeiramente. Durante um treino, ele (Jorge Jesus) falou que eu tinha que fazer mais musculação porque a bola estava batendo na minha mão e entrando. Esse é o grau de exigência dele.

Você ficou chateado?

– Você fica p... da vida. Você chega com o status de campeão de tudo, você raciocina desta maneira. Quando você vê um treinador te cobrando, se levar para um lado de litígio, querer discutir, querer ser maior que o técnico, não vai ter jeito. Eu optei ir para a academia. Quando você entende esse processo, essa cobrança, dificilmente você não vai obter sucesso. Aquela foi a minha melhor temporada no Benfica.

Você acha que os jogadores brasileiros estão abertos a isso?

– Das poucas vezes que conversei com o Jesus, ele está encantando com o grupo. Ele diz que foi um dos melhores que ele trabalhou, ninguém reclama de nada. Todos compraram a ideia. Os resultados estão no campo.

Nas conversas, o que o Jesus está mais impressionando no grupo?

– Ele diz que todos chegam cedo, se comprometem com a academia. Eles não pagam multa. O Jesus diz que o grupo é muito disciplinado. Ele brinca que não tem dinheiro na caixinha para fazer um almoço ou um jantar com o grupo. Falou que vai ter que botar o dinheiro do bolso dele para reunir com a galera

Você é muito identificado com o Flamengo. Um empresário não pode ter lado…

– É um momento que você vai ter que agir com a razão. Vou ser bastante profissional. Vai ser tudo transparente e sem sacanagem. Entendeu? Isso é o fator primordial para exercer a profissão. Tenho hoje uma vida financeira estabilizada e estou fazendo isso porque quero me reinventar como ser humano e como pessoa. A primeira sacanagem... A primeira situação que eu observar. A primeira não, mas algumas… Então, você vai parar logo pensando assim... Quando eu ver que o trem está indo para uma direção que não estou gostando, serei o primeiro a tirar o time de campo. Muitas vozes dizem que é um meio complicado, que rola realmente muita "trairagem". Mas acho que se você trabalhar com as pessoas certas, tem espaço para todo mundo. E fazer um trabalho bacana. É isso que eu quero. Quero aproveitar os momentos positivos que tive durante 21 anos de carreira para poder levar algo diferente para o jogador. Não quero colocar apenas um atleta em um clube, pegar a comissão e acabou. Quero pensar em toda a estrutura para ajudar o atleta fora do campo A experiência negativa que tive com alguns empresários durante a minha carreira vou colocar como exemplo. Não quero mandar no dinheiro do jogador, mas ajudá-lo com base na minha situação.

Quais as referências como empresário?

– Gosto muito do meu amigo Kia (Joorabchian, dono da MSI, empresa que investiu no Corinthians) . Não tem nada a ver com a situação dele atual. Ele foi dirigente de um clube, mas não teve nada comprovado contra ele depois. Somos amigos, conversamos bastante. A ficha dele (Kia) tá limpa. É uma pessoa que admiro e trabalha super bem. Sempre foi exemplar comigo. Outra referência é o Jorge Mendes, que é super respeitado.

Esse são tubarões do futebol. Você quer ser desse tamanho?

– Não. Sendo um do cardume tá bom. Pode ser um pouco maior que o Nemo (risos). Mas a ideia é sempre trabalhar em parceria. Hoje no futebol você não consegue fazer nada sozinho. Vou perturbar muito o Kia, o Jorge Mendes. O curso da CBF que estou fazendo tem o pai do Neymar como parceiro de classe. Tamos trocando muitas ideias. Ele claro tá me passando muito mais experiência por causa da trajetória dele.

No mundo do futebol rola muito dinheiro, muita gente acaba dando passos errados. Vemos vídeo de você andando de metrô em Portugal com os filhos...

– Eu sou um cara que vivo a vida normal. Sempre fui. Desde que me conheço por gente. Tive as minhas fases, como posso dizer, um pouco deslumbrado. Tive a minha fase deslumbrada.

Qual foi o maior deslumbre que você admite?

- Quando eu ganhava R$ 60 mil e comprei um carro no valor de R$ 250 mil. Então você se olha e fala assim: ‘a matemática não fecha’. Você é jovem, a primeira coisa que quer fazer é comprar um carrão, ajudar a mãe, o pai. Isso é uma coisa cultural do jogador brasileiro. Então, quanto antes você enxergar isso, buscar equilíbrio em relação a isso tudo, acredito que mais sucesso você vai ter no futuro. Portanto, mais dinheiro (risos). Eu digo que o jogador de futebol tem que ter esse apoio, essa consciência. Alguns clubes não prestam esse tipo de serviço para os jogadores, de administração financeira, enfim. Até hoje, mesmo com grau de informação que a gente tem, com a internet, essas coisas todas, você acaba não se informando, não buscando conhecimento, acaba tomando escolhas e decisões que no futuro acaba sendo muito prejudicial. E a carreira do jogador de futebol passa rápido. Muito rápido. Então tem um tempo, limite para poder poupar. O primeiro pensamento é poupar. E depois preparar para investir.

Convencer o moleque a fazer isso é que é difícil, né?

– É complicado, porque hoje você não tem que convencer só o moleque. Tem toda uma família por trás que depende daquela situação. É complicado. Mas vou me esforçar e vou tentar. Claro que não vou mandar no dinheiro do atleta. Vou, de repente, direcionar. Mostrar alguns caminhos. Agora, basta ele fazer a escolha dele. Se vai seguir ou não, e a gente tem que respeitar.

Jogar com os pés, para um goleiro, hoje é essencial. Você conseguiria se virar?

– O futebol hoje, eles estão entendendo que o goleiro não está ali só para defender. É mais um, em um sistema defensivo, se for capacitado, é mais um jogador. Numericamente, isso é mais vantajoso para sair jogando com a bola controlada lá de trás, em vez de dar o chutão. Os clubes vêm cada vez mais se preparando, se modernizando. Agora o problema é dos goleiros (risos).

Você acha que você ia jogar assim?

– Cara, se não jogassem para a minha direitinha, estava bom. Se jogar para a canhota, eu resolvia. Se jogasse na direita, eu jogaria para a lateral e resolvia.

Se houvesse o prêmio da Fifa de melhor goleiro em 2010, você ganharia?

– Não sei se ganharia porque teve o Mundial, e pesa muito. O Casillas fez um grande Mundial, fez aquela defesa na final. Tanto que no prêmio da IFFHS (Federação Internacional de História e Estatística do Futebol), o Casillas terminou em primeiro e eu em segundo. Acho que ficaria em segundo nessa votação porque o Mundial tem um peso muito grande.

Mas teria alguma chance em outro ano?

– Talvez no ano anterior. Em 2009. Fiz um ano muito bom.

Como você vê o Alisson e o Ederson hoje na Seleção? Em que nível eles estão na história?

– Comparando com os goleiros brasileiros?

É, em relação a Dida, você, Taffarel...

– Hoje eles são Top-3 porque concorreram ali, então temos que trabalhar com a realidade. O melhor goleiro do mundo é brasileiro até que se prove o contrário no ano que vem. Se ele mantém o legado, ou se o Ederson ganha também. Para mim é motivo de muito orgulho, porque quando eu cheguei na Europa, tinha uma rejeição muito grande com goleiros brasileiros. E não entendo por quê. Eles pegavam como referência a Copa de 1982, por causa do Waldir Peres. O Taffarel foi aquele que começou a abrir as portas. Eu e o Dida escancaramos elas. E aí, hoje o Alisson e o Ederson estão aí. Hoje o goleiro brasileiro é respeitado. Para você ver, de uma posição que era rejeitada, os empresários, os clubes sempre olhavam para o camisa 10, o camisa 9, nunca para o camisa 1. Hoje o camisa 1 é referência. Temos vários goleiros que explodiram na Europa, que fizeram sucesso e fazem até hoje. Falo de Helton, falo de Gomes, Diego Alves, Neto, teve o Júlio Sérgio uma época na Roma, o Rubinho. Muitos goleiros atuaram na Europa.

Eles estão no auge dos goleiros brasileiros?

Acho que sim. Mas é complicado porque em termos de clubes é difícil dizer. Taffarel jogou três Copas do Mundo. Dida foi em duas. Eu fui em três. A Copa do Mundo te dá um peso. Acho que estão no caminho certo. Hoje já são monstros, consagrados no cenário mundial. Mesma coisa é você comparar o Maradona com o Messi. O Maradona vai ser o maior porque ganhou uma Copa,. O Messi, quando ganhar uma Copa pode ser maior que o Maradona. Então, essas coisas têm um peso. Hoje, o Alisson e o Ederson já participaram de um Mundial, já ganharam uma Copa América. Ainda pelo fato de serem novos, não cabe essa comparação ainda. O Alisson ganhou o prêmio de melhor do mundo. Taffarel, Dida e eu já ganhamos melhor da Europa, mas não do mundo. Éramos considerados, mas prêmio mesmo, concretizando, não tivemos. É muito complicado fazer essa comparação.

Esses dois são treinados por dois dos maiores treinadores da atualizada, Klopp e o Guardiola. O Mourinho poderia estar nessa lista, mas está sem clube há algum tempo. Você, que trabalhou e viveu no último grande momento dele, o que acontece com ele para estar fora?

– Sinceramente não sei. Acho que daqui a pouco ele volta. É uma questão de tempo. Conhecendo o Mourinho, ele não gosta de ficar parado. Gosta de estar treinando.

Ele é diferente?

– Todos são diferentes. Não tem treinador igual. Cada um tem sua filosofia, seu jeito de trabalhar. Suas ideias. Não vejo um treinador igual ao outro. Cada um tem sua particularidade.

O fato de ser ex-atleta te põe em um patamar diferente na hora de tratar com o atleta?

– Acho que o fato de ser um ex-atleta, não podemos nos apegar a isso. Muita gente acha que por ter sido um grande jogador, vai ser um grande treinador. Todo mundo acha que se você foi um grande jogador, vai ser um grande empresário. São mundos completamente diferentes. Se você tem uma reputação, se tem boas entradas, se tem bons contatos, isso ajuda. Independentemente de você ser ex-atleta ou não. Se você é um ex-atleta, isso te ajuda, sim, a manter esses contatos. Você faz os contatos durante a sua carreira e, se tem a ideia de ser empresário, você mantém esses contatos de uma maneira respeitosa e amigável para amanhã, quando deixar de jogar bola, chegar lá, bater na porta, e a pessoa te receber de braços abertos. Você pode ser um ex-atleta, mas ter uma reputação de m... você brigou com os clubes, sempre foi um mau profissional, então isso é ruim. Quando é ex-atleta com reputação boa, acho que isso realmente te dá um “up”, uma facilidade para entrar em contato com os clubes. Mas você tem que saber usar isso ao seu favor. Porque você pode ser um ex-atleta com boa reputação, mas na hora de falar, conversar, o cara está falando inglês, e você japonês, isso é ruim. Você tem que falar inglês também. Então, muita gente confunde. O cara acha, ‘ah, sou ex-atleta, conheço todo mundo, vou me dar bem’. Primeira coisa que ele tem que fazer: se despir disso. Acho que tem que se despir dessa situação. Principalmente quando o ex-atleta foi bem sucedido na sua carreira. Ele tem que ter a humildade de entender que aquilo foi um período da vida dele que acabou e que agora vai começar uma nova fase da vida dele. Ele não tem que ficar se apegando a um passado.

Tem que começar do zero.

– Tem que zerar. Tem que zerar a cartilha, porque senão você acaba se prejudicando. E, de repente, acabando com tudo aquilo que você construiu em vários anos de carreira.

Toda entrevista com você temos que falar do 7 a 1. Você falou recentemente que o Özil chutou para fora uma bola por querer ...

– Não sei, foi um pensamento. Achei que sim, mas pode ser que não.

O que mais você pode dizer? Todos brasileiros têm mil histórias sobre aquela noite, o que falta contar do 7 a 1?

– Nada. Já contei tudo (risos). Não tem mais o que falar. Senão se torna repetitivo.

Já tinha outros profissionais no negócio. Quando me ligou, ele queria saber como era o Flamengo, como era morar no Rio.

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