Mansur: Comparar o Flamengo com o Brasil de Tite não faz sentido

O GLOBO: Por Carlos Eduardo Mansur

Provavelmente limitado pelas amarras que a liturgia do cargo impõe, Tite optou pela diplomacia. Em sua mais recente entrevista após convocar a seleção brasileira, na sexta-feira, quando o país ainda estava sob impacto da goleada do Flamengo sobre o Grêmio, o treinador foi submetido a uma saraivada de perguntas que, no fundo, queriam dizer o seguinte: “por que a seleção não joga como o Flamengo?”

Tite preferiu contornar o tema, possivelmente para evitar o risco de uma interpretação imprecisa. Mas o jovem corintiano Mateus Vital, com uma sensibilidade rara para um jogador de sua idade, não hesitou: “Não dá para padronizar estilo de jogo. Cada equipe tem o seu. Eles estão jogando muito bem, mas não é que tenhamos que padronizar o futebol brasileiro no estilo do Flamengo.”

Gabigol e Geromel em Flamengo x Grêmio - Foto: Marcelo Cortes
A própria proliferação de perguntas neste sentido revela um vício. Em geral, nosso futebol é tomado por modismos. Assim foi a era dos técnicos jovens, após Fábio Carille ser campeão com o Corinthians; em seguida a quase uniformização dos times edificados em defesas sólidas e contragolpes, na esteira dos últimos campeões brasileiros. Ou mesmo uma primeira onda de treinadores estrangeiros — não será surpresa se outro movimento similar ocorrer agora.

Quando se fala que o Flamengo de Jorge Jesus deve deixar um legado no futebol do país, trata-se de ampliar o cardápio de opções para se jogar futebol: provar que é possível ter modelos mais arejados e ofensivos, ou que podemos ter times mais intensos e eficientes na negação de espaços, mais compactados e menos espaçados. O mesmo vale para a saudável discussão sobre o hábito de poupar times inteiros no Brasil, algo que Jesus se recusa a fazer. Talvez a conclusão seja que exista um meio termo que contemple as diferentes realidades de cada elenco. No domingo, a vitória sobre o CSA teve um Flamengo física e mentalmente abaixo de seu nível.

O equívoco é concluirmos que, agora, todos os treinadores do país deverão ser compelidos a implantar o sistema do Flamengo, o modelo de Jorge Jesus. O rubro-negro é o mais bem acabado exemplo de bom futebol no Brasil, mas não a única forma de se jogar bom futebol que existe. Cada treinador tem seus conceitos, suas ideias, e é impossível um técnico convencer um grupo de atletas a praticarem algo em que o comandante não acredita, não sente. O Flamengo gosta da pressão ofensiva, mas é possível jogar bem marcando mais atrás; o Flamengo sabe ser paciente, mas prefere as transições rápidas, frenéticas, embora seja possível jogar bem com mais pausa; o Flamengo tem um ataque móvel, mas há grandes times no mundo com modelos de ataque posicional, em que jogadores ficam mais fixos em zonas do campo.

A cobrança deve ser para que cada treinador implemente seu modelo com excelência, sempre descontada, é claro, a qualidade dos intérpretes: nem todos os clubes têm o poder de investimento rubro-negro. O Flamengo de Jesus contribui com ideias e com traços do jogo que estão em compasso com o que se pratica no mundo. A velocidade com que impôs seu estilo, esta sim acende um alerta.

Sobre a seleção, a comparação é especialmente descabida. Primeiro, pelo contexto em que compete, pelo tipo de adversário que enfrenta e pela natureza do trabalho, sem o dia-a-dia de treinos. O Brasil de Tite é prova da diversidade que o jogo permite: é também um futebol com ideia ofensiva, mas com mecanismos para defender e atacar bem diferentes, porque Tite pensa futebol de forma distinta de Jesus. Com seu modelo, já teve momentos brilhantes e hoje vive uma natural oscilação. Não há certo ou errado, há opções. Mas fato é que, seja qual for o plano, fazer tão bem quanto o Flamengo não é simples.

O treinador foi submetido a uma saraivada de perguntas que, no fundo, queriam dizer o seguinte: “por que a seleção não joga como o Flamengo?”

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