Segue o líder Flamengo ou suas ideias?

O GLOBO: Por Marcelo Barreto

Não é um bom momento para não ser Flamengo. Ali pelas dez e meia da noite de quarta-feira, já dava para ver que a classificação para a final da Libertadores estava garantida, e em poucos minutos ela ganhou contornos épicos: um tricampeão da competição, em sua terceira semifinal seguida, estava sendo goleado — eu ia escrever impiedosamente, mas me lembrei do pedido de Alisson a Éverton Ribeiro para não fazer graça; pode ter havido alguma misericórdia nos minutos finais. Pouco importa. Àquela altura, o Maracanã já estava tomado por uma alegria insuportável.

O dia seguinte de quem não é Flamengo foi oprimido por esse sentimento, que derivava para histeria, deboche, arrogância ou tudo isso junto. “Saí de três grupos de WhatsApp”, me disse um colega de trabalho. “Depois eu perdoo e volto”. Mas aturar gozação, no mundo virtual ou no real, é o menor dos problemas de não ser Flamengo hoje. Vida de torcedor é como viaduto: uma hora você está por cima, outra está por baixo, e segue o fluxo. Os memes de cheirinho estão bem guardados. Na Libertadores, basta uma vitória do atual campeão em jogo único (resultado longe de ser anormal) para voltar a dispará-los. O que assusta é a sombra da hegemonia.

Pablo Marí e Bruno Henrique gol do Flamengo - Foto: Alexandre Vidal
O Flamengo que começou a se reconstruir na gestão de Eduardo Bandeira de Mello, deixando de ser administrado como um clube de bairro para entrar no século XXI, bota pressão nos outros dirigentes. Deve cada vez menos e arrecada cada vez mais, com o melhor contrato de direitos de TV (abro os parênteses para dar tempo a quem não é rubro-negro e quiser argumentar que isso se deve apenas ao Grupo Globo, meu empregador, embora eu continue achando que o seu clube tem culpa nesse cartório) e o Maracanã sempre cheio. Com Rodolfo Landim, deixou de conseguir apenas boas vendas de jogadores para fazer as melhores compras: oito titulares foram contratados este ano. A diferença para os clubes do Rio, mergulhados em atrasos de salários, é abissal, e os grandes de outros estados já começam a se preocupar também.

O Flamengo que Jorge Jesus — outro acerto na mosca da nova gestão — põe em campo quebra parâmetros na tabela (o Palmeiras, com uma média em torno de dois pontos por jogo, faz uma campanha suficiente para ser campeão brasileiro nas últimas temporadas, mas entra nesta rodada dez pontos atrás do líder). E derruba paradigmas também na filosofia de trabalho: continua atacando depois de fazer 1 a 0, contrariando o pragmatismo que tomou conta da era dos pontos corridos; e, sem poupar jogadores, eliminou o Grêmio de Renato Portaluppi, um dos que fizeram crer, com seus resultados em competições eliminatórias, que esse era o único caminho possível.

O Flamengo de 2019 derruba verdades consolidadas há anos no futebol brasileiro. Ainda falta uma novidade, talvez a mais importante: a continuidade. O São Paulo era tratado como modelo de gestão até deixar de ganhar títulos, a partir de 2012. O Internacional, que parecia ter herdado o trono, foi parar na Série B.

Se perder para o River, se Jesus for embora, o Flamengo pode perder seu momento. Mas se acreditar mais nas ideias do que nos resultados, pode tornar cada vez mais difícil torcer para quem não seguir seu caminho.

Se perder para o River, se Jesus for embora, o Flamengo pode perder seu momento.

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